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Porto. Seis pontes e um prémio mundial

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Rui Duarte Silva

A cidade tem seis pontes, uma dúzia de propostas de novas travessias para Gaia no papel e, a partir de agora, um Prémio Mundial de inovação em Engenharia de Pontes

A velha canção dos Já Fumega - "a ponte é uma passagem para a outra margem / desafio pairando sobre o rio / a ponte é uma miragem" - continua atual, como vem provar a entrada da cidade no circuito mundial dos grandes galardões com o "Prémio Mundial de Inovação em Engenharia de Pontes BERD-FEUP WIBE 2017".

É uma iniciativa com ambição porque "os países que têm a liderança em diversas áreas são os que atribuem os grandes prémios internacionais" e "está a gerar-se um grande domínio do Porto na área da engenharia de pontes que representa, na prática, a recuperação de uma posição que a cidade já ocupou no passado recente, com nomes como Edgar da Cardoso, uma referência mundial neste sector", justificam os responsáveis deste prémio, apresentado esta terça-feira no Porto.

O cruzamento da BERD, uma empresa especializada em equipamentos com sistemas de pré-esforço para a construção de pontes, e a da FEUP - Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto neste prémio trianual, no valor de 50 mil dólares (46 mil euros) surge, uma vez que a BERD nasceu em 1996 como uma spin-off da FEUP, a partir de uma tese de doutoramento na qual Pedro Pacheco estudou bioestruturas como conchas e aranhas, a par da eficácia do músculo humano, para aplicar os seus mecanismos à estrutura de pontes.

Foi assim que surgiu o OPS - Sistema de Pré-esforço Orgânico, uma espécie de músculo artificial usado em cimbres (estruturas temporárias de suporte), para construir pontes, já com patente mundial, e o M1, um equipamento de construção que só se tornou viável com esta tecnologia.

No top 3 mundial na área de soluções para engenharia de pontes, a BERD emprega 40 trabalhadores e está a exportar 100% do que faz. Em Portugal, marcou presença no viaduto do Corgo, mas desde então tem estado concentrada no estrangeiro, em obras como a nova ponte Anita Garibaldi, recentemente inaugurada no Brasil, e em projetos em curso em 15 países.

O volume de negócios é dado por triénios, "porque os ciclos de desenvolvimento dos projetos é longo", explica Pedro Pacheco, mas o crescimento tem sido contínuo. Nos primeiros três anos de atividade a empresa não faturou, no segundo triénio registou vendas de 6 milhões de euros, no terceiro chegou aos 18 milhões e, agora, com base nos projetos em curso em diferentes países, designadamente na Turquia, espera chegar a 2017 com 40 a 50 milhões de euros.

"Para a Turquia, onde estamos a trabalhar em quatro viadutos, num projeto de alta velocidade, construímos o maior equipamento da atualidade para a construção de pontes no local", sublinha Pedro Pacheco, que atribui uma fatia de 10% a 20% do orçamento anual de custos fixos da BERD em Inovação e Desenvolvimento e tem recebido vários prémios internacionais, com destaque para a distinção, em 2001, da Federation International du Beton, considerado o mais importante prémio mundial na área de estruturas.

"Foi uma experiência muito positiva, mas receber prémios é apenas um estágio. Quem atribui os prémios é quem está na vanguarda da tecnologia", refere este engenheiro que conseguiu reunir no júri do BERD - FEUP WIBE 2017 10 personalidades nomeadas pelas principais associações internacionais da atividade.

Um desafio milenar

E qual é o objetivo prático do prémio? "Promover a inovação na engenharia de pontes a nível mundial e melhorar o posicionamento da engenharia portuguesa no mundo", sintetiza António Silva Cardoso, Diretor do Departamento de Engenharia Civil da FEUP.

O Porto surge no centro da iniciativa por direito próprio. Afinal, a cidade tem seis pontes já construídas, quase todas com inovações ou recordes mundiais nos seus arcos à época da construção e, no papel, há mais uma dúzia de propostas para unir as duas margens do Douro, cinco das quais cabiam nos projetos do antigo presidente da Câmara de Gaia, Luís Filipe Menezes, para a próxima década.

"O desafio de ultrapassar o Rio Douro é milenar e a primeira tentativa, com uma ponte flutuante, remonta ao século XI", refere Pedro Pacheco, certo de que esta ideia de construir pontes "está na cultura, no ADN da cidade". É uma tese partilhada por Adão da Fonseca, mais um engenheiro da FEUP que soma sozinho seis projetos, dos quais concretizou a Ponte do Infante, inaugurada em 2003, e já recorreu a uma referência cultural para explicar que Gaia, em Celta, significa "os de além".

A verdade é que o Porto, que tem no Douro "um dos rios mais caudalosos da Europa" e apresenta seu enquadramento geográfico e geológico especial, "é uma cidade de pontes à quota alta, ao contrário das outras cidades conhecidas pelas suas pontes, como Paris, onde as travessias são todas à quota baixa", sublinha António Cardoso.

A crise terá abrandado o ímpeto construtor no Porto e no país, mas as empresas de construção e engenharia voltaram-se para o exterior e, agora, este prémio mundial, quer recolocar a engenharia portuense e portuguesa de pontes no centro do mundo, defendem Pedro Pacheco e António Cardoso.