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Portucel quer quinta fábrica em Portugal

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No 16º andar da sede da Semapa, em Lisboa, Diogo da Silveira, presidente-executivo da Portucel exibe o campeão europeu de vendas dos seus produtos: o papel fino de impressão 
e escrita não revestido (com o nome técnico 
de UWF)

Alberto Frias

A empresa gerida por Diogo da Silveira tem investimentos em curso superiores a €2,5 mil milhões

Já tem três fábricas de pasta de eucalipto e de papel industrial, a que se vai juntar mais uma de papel doméstico (lenços, guardanapos e papel higiénico) dentro de dois meses, em Vila Velha de Ródão. Mas Diogo da Silveira, presidente-executivo da Portucel, quer mais. Até ao final deste ano quer ter em marcha o quinto projeto industrial em Portugal: mais uma fábrica de papel tissue (papel doméstico) em Cacia, ao lado de uma das unidades industriais que o grupo já possui naquele local.

O valor da nova obra ainda não está definido, mas “será uma unidade seguramente maior que a fábrica de Ródão”, que representou um investimento de €80 milhões, e empregará 300 pessoas a partir de setembro.

Diogo da Silveira, 54 anos, formado em Gestão pelo INSEAD (Paris) e com um percurso de investigador na Universidade de Berkeley, nos EUA, raramente dá entrevistas e poucas vezes aparece publicamente a falar sobre o negócio que gere, pelo que mede cuidadosamente as palavras. Fala com entusiasmo dos projetos que tem em mãos, desde que assumiu funções — há cerca de um ano e meio — na papeleira do empresário Pedro Queiroz Pereira. Afinal de contas, está a gerir investimentos (em curso) superiores a €2,5 mil milhões, em Portugal, EUA e Moçambique.

A empresa que dirige é das poucas que faz mexer o ponteiro do PIB em Portugal, pois representa 1% da riqueza nacional e 3% das exportações de bens. Perto de 8% da carga contentorizada que passa pelos portos nacionais levam o carimbo da Portucel, que exporta para 127 países. “Tantos como a Nestlé”, enfatiza o gestor.

Ainda é possível vender mais papel na era do digital

Não deixa de ser curioso que uma empresa que vende papel esteja a crescer em paralelo com o avanço da digitalização. Ou seja, a Portucel está a vender mais folhas de papel mesmo com a desmaterialização de ficheiros e documentos. “No ano passado até na Europa conseguimos crescer”, nota Diogo da Silveira, “mas é óbvio para nós a grande importância que tem (e vai continuar a ter) o mercado asiático, com especial destaque para a China”.

Por isso mesmo, o investimento que está a ser levado a cabo em Moçambique pela Portucel (de €2,3 mil milhões) “será quase totalmente focado no mercado asiático”. E aqui há uma novidade: além de já ter como parceiro o Banco Mundial (com 20% do capital) “é natural que a Portucel Moçambique venha a ter ainda mais um ou dois novos sócios — eventualmente chinês ou japonês e do Médio Oriente”, adianta o presidente da empresa. “Estaremos confortáveis se ficarmos com 50%”, remata.

Para se ter uma ideia da dimensão do investimento em Moçambique, importa esclarecer, desde logo, que se divide em duas componentes: plantação de 350 mil hectares de eucalipto (quase três vezes a área que a Portucel gere em Portugal, que é de 120 mil hectares) e a unidade industrial propriamente dita. Só nos trabalhos prévios da plantação, no ano passado, trabalharam 7000 pessoas. Foram testadas 70 variedades de eucalipto para se optar apenas por seis, que se revelaram aptas. O investimento na plantação deverá ascender aos €500 milhões de euros. Os restantes €1,8 mil milhões destinar-se-ão à construção da fábrica.

Esta nova unidade industrial, que deverá estar totalmente operacional em 2023, terá uma capacidade instalada igual às três fábricas que a Portucel tem atualmente em Portugal, em Cacia, Figueira da Foz e Setúbal. Sem contar com a de papel tissue, em Ródão, a inaugurar em setembro.

Onda de inaugurações

O terceiro trimestre deste ano, aliás, “vai ser de inaugurações”, nota Diogo da Silveira. Pois, além da renovada fábrica de papel doméstico de Ródão, será também inaugurado o investimento de €56 milhões de euros na fábrica de Cacia, que vai aumentar a capacidade de produção em 20%.

A abertura oficial da fábrica de pelets que a Portucel está a construir na Carolina do Sul, nos Estados Unidos, só deverá acontecer no final de 2016.

A opção por este país, segundo o presidente da Portucel, explica-se de uma forma relativamente simples: “Há ali muita floresta, ou seja, muita matéria-prima e, por outro lado, a energia é barata”, ao contrário do que acontece em Portugal, onde “é caríssima”.

O investimento de €100 na Carolina do Sul vai gerar 70 postos de trabalho e, a mais de um ano da sua inauguração, já tem assegurado o escoamento de metade da produção, “o que reduz muito o risco”, sublinha o gestor. E é precisamente devido à conjugação destes fatores que a empresa portuguesa já equaciona “replicar este tipo de investimento noutros Estados dos EUA”.

Diogo da Silveira explica que esta investida no mercado norte-americano representa um teste duplo: “Do ponto de vista do negócio em si mesmo (pois é novo para o grupo), mas também porque vamos aprender a gerir uma operação num país tão sofisticado e tão importante como é o dos EUA. De todos os nossos projetos é o que tem o maior retorno sobre o investimento.”

Reconhecimento nos EUA

Confessa que só gostaria de ter em Portugal uma décima parte do reconhecimento que tem nos EUA por ali estar a investir. “Chegámos a ser elogiados publicamente pela governadora da Carolina do Sul, no dia do discurso não do Estado da União (pois esse cabe ao Presidente Obama), mas do estado do... Estado, que eles também fazem todos os anos.” A Portucel está entre os 10 principais investidores daquele Estado norte-americano.

Dos EUA poderá vir capital para a Portucel, na sequência da operação de troca de ações com a empresa-mãe Semapa, agora em curso.