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Mudar de moeda não é impossível. Mas dói

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A conversão forçada do peso deixou muitos argentinos desesperados em 2002

Enrique Marcarian/ REUTERS

Impacto no PIB de conversões forçadas pode ultrapassar 10%

Um dos exemplos clássicos do fim de uma união monetária foi o desmembramento do império austro-húngaro no final da I Guerra Mundial. Áustria e Hungria tinham unido os seus bancos centrais — numa proporção de 70% para austríacos e 30% para húngaros — e quando o conflito terminou foi necessário desfazer a união. Cada novo Estado teve que o fazer individualmente e, além de impostos, haircuts (corte de valor em depósitos) e outras perdas impostas à população, teve ainda que haver uma complicada operação de criação da nova moeda. Mas, num primeiro momento, a solução usada por quase todos passou por carimbar as notas de coroas austro-húngaras de forma a separá-las das restantes.

A eventual saída da Grécia do euro, que hoje parece mais afastada com o princípio de acordo firmado no último fim de semana e com alguns passos indispensáveis já dados em Atenas, também teria necessariamente estas dificuldades. Não é possível fazer, de forma discreta, a substituição de todas as notas e moedas em circulação da noite para o dia. Mas há outros custos — que podem ser bem pesados — além da óbvia dificuldade logística. Que são tanto mais graves quanto mais desordenado for o abandono da moeda antiga.

Nas últimas três décadas, mais concretamente entre 1982 e 2015, houve no mundo cinco casos de países que foram forçados a sair de uma ‘zona monetária’. Têm em comum o facto de serem países da América Latina — Argentina, Bolívia, México e Peru, com a economia argentina a fazer um bis em 1989 e 2002 — e de não serem na verdade mudanças de moedas mas desligamento de paridades contra o dólar. Formalmente é um laço mais fraco do que uma união monetária ao estilo da zona euro, embora as consequências económicas sejam equivalentes.

Luís Marques

Cinco casos em três décadas

O levantamento publicado no site académico Vox, no final da semana passada, foi feito pela economista de origem cubana Carmen Reinhart, da universidade de Harvard nos EUA, que faz parte da dupla Rogoff-Reinhart que publicou em 2009 um dos livros mais badalados dos últimos anos sobre crises financeiras, o célebre “This Time is Different: Eight Centuries of Financial Folly” (editado na versão portuguesa pela Almedida como “Desta Vez é Diferente: Oito Séculos de Loucura Financeira” com um prefácio do ex-ministro das Finanças, Vítor Gaspar).

Os impactos são fáceis de identificar e manifestam-se na cotação da nova moeda, no andamento da economia e nos depósitos bancários. Os depósitos são, aliás, o primeiro alerta de que algo se passa ou está para acontecer. Foi assim na Grécia que, no espaço de poucos meses, voaram dos bancos mais de €30 mil milhões, principalmente de aplicações a prazo, que foram transferidas para destinos mais seguros.

Pelas contas de Reinhart, a fuga de capitais variou entre 0,1% e 7,6% do PIB no ano anterior à conversão, entre 2,5% e 7,8% no ano em que a conversão aconteceu e entre 0,7% e 12% no ano seguinte. Em alguns casos, a moeda chegou a valer menos de um sexto da cotação oficial no mercado negro.

No caso do PIB, houve casos (como a Argentina em 2002) com quedas superiores a 10% e outros com impacto menor (ver tabela). Mas, em geral, os efeitos arrastam-se por vários anos. Estes casos não são diretamente comparáveis com a Grécia que, não só está numa união monetária com regras próprias, como teve dois resgates e acumulou já perdas no PIB na ordem dos 25% desde a crise financeira internacional.

Nos cinco exemplos analisados, associado à conversão forçada da moeda houve também incumprimentos de dívida — pública e/ou externa —, controlo de capitais (como o corralito argentino) e imposição de perdas a depositantes. Na verdade, situações semelhantes à grega não são muito frequentes porque também não há muitos casos de uniões monetárias como a europeia. A maior parte dos exemplos conhecidos no período pós II Guerra Mundial são países que ficaram independentes e que, por isso, largaram as moedas anteriores.