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Grécia em “corralito” bancário até dia 13. Alívio de dívida necessário

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ORESTIS PANAGIOTOU EPA

O governo de Atenas decidiu estender pela segunda vez o fecho dos bancos e da Bolsa até segunda-feira, altura em que se saberá se houve fumo branco no domingo na cimeira europeia. A diretora-geral do FMI voltou a dizer que tem de haver uma mexida na dívida. Americanos preocupados com risco geopolítico

Jorge Nascimento Rodrigues

O ‘corralito’ bancário na Grécia vai continuar até segunda-feira, 13 de julho. É a segunda vez que o controlo de capitais, iniciado a 29 de junho, é prolongado. A decisão era inevitável em virtude da pressão que continua a ser exercida pelos banqueiros centrais do euro que pretendem ver primeiro um acordo assinado entre governo de Atenas e credores oficiais antes de libertar mais liquidez para um sistema bancário que está à beira de um colapso.

O Banco Central Europeu (BCE), na sua reunião de quarta-feira sobre a situação grega, decidiu não aumentar o teto da linha de emergência de liquidez (conhecida pela sigla ELA em inglês) a que a banca helénica pode recorrer junto do Banco Central do país. Apesar dos insistentes pedidos de aumento do limite pelo governador do banco central grego, o teto não é aumentado desde 23 de junho e permanece em 88,6 mil milhões de euros. A novidade na decisão de extensão do ‘corralito’ agora tomada é proibir, nas viagens ao estrangeiro, levar mais de 1000 euros em dinheiro. A Bolsa de Atenas continuará também fechada.

A presidente da Associação de Bancos grega tranquilizou os depositantes quanto á capacidade das caixas “multibanco” poderem continuar a dispensar os 60 euros diários por conta e os 120 euros por semana que os pensionistas podem levantar nos balcões abertos para o efeito. “Está tudo assegurado até segunda-feira”, disse Louka Katseli à cadeia de televisão Skai.

Segunda-feira, 13 de julho, é o dia seguinte à cimeira europeia de domingo, considerado o limite dos limites para a obtenção de um acordo entre as partes. É, também, o dia em que o Tesouro grego terá de pagar mais uma tranche do empréstimo ao Fundo Monetário Internacional no valor de 451 milhões de euros. Se o não fizer, acumulará dívida à organização chefiada por Christine Lagarde para um montante em atraso de cerca de 2 mil milhões de euros.

O dia seguinte

O dia 13 surge como um dia crítico no calendário da crise grega neste verão, se não houver acordo fechado no domingo.

O BCE poderá decidir cancelar a partir do dia seguinte o acesso à ELA e empurrar o sistema bancário grego para o colapso no espaço de horas. Uma reestruturação em profundidade da banca grega tornar-se-á imperativa.

Um segundo incumprimento ao FMI poderá, também, abrir a porta a um default em larga escala, se o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF, que detém mais de 42% da dívida grega) decidir acionar a cláusula de exigir o pagamento imediato de toda a dívida (mais de 130 mil milhões de euros) face a defaults pontuais sucessivos a outros credores oficiais por parte de Atenas. O FEEF reservou-se o direito de agir desde que declarou a Grécia em evento de incumprimento depois da falha de pagamento ao FMI a 30 de junho.

Duas crises em simultâneo e o risco geopolítico

O impacto negativo da crise grega poderá vir a ser significativo, e ultrapassar a capacidade de gestão do BCE (através das suas intervenções em curso no mercado secundário da dívida e da possibilidade de acionar programas específicos nunca usados para os países que se revelarem em apuros na zona euro), dado estar, nos últimos dias, a coincidir, inesperadamente, com o pânico bolsista na China, a segunda maior economia do mundo. São duas crises em simultâneo.

As bolsas de Xangai e Shenzhen (esta, no Sul da China, está mais virada para as cotadas tecnológicas) fecharam esta quinta-feira em terreno positivo depois das derrocadas de ontem. Mas o colapso da capitalização bolsista soma, desde 12 de junho, 30% para o índice compósito de Xangai e 40% para o de Shenzhen.

Por outro lado, a dimensão geopolítica da crise grega tem sido referida cada vez mais abertamente. O presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, chamou de ingénuos aos que ignoram essa dimensão, nas declarações que proferiu logo após a cimeira do euro desta semana. O secretário do Tesouro norte-americano Jack Lew avisou em Washington, na quarta-feira, que deixar cair a Grécia era um erro geo-político. A previsão que a atual crise helénica terminará num processo de saída do euro (Grexit) é defendida por 55% dos economistas ouvidos esta semana pela Reuters. Está, ainda, distante dos 70% que, em 2012, a vaticinavam.

FMI e FED preocupados com crise grega

Para travar esta dinâmica, o governo de Atenas apresentou um pedido de financiamento ao Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) para um período de três anos e fará seguir esta quinta-feira para os credores oficiais a lista de reformas que pretende implementar como condição para essa injeção. O valor para o financiamento ainda não é conhecido. O governo recolherá previamente a opinião dos três partidos de Oposição que militaram pelo "sim" - Nova Democracia, Potami e Pasok - no referendo de domingo, mas que assinaram,depois, a carta de princípios da posição nacional grega enviada pelo Presidente da República helénica ao presidente do Conselho Europeu Donald Tusk.

O Fundo Monetário Internacional (FMI), na sua mais recente análise de sustentabilidade da dívida grega realizada em junho e divulgada a 2 de julho, avançava com a necessidade de uma injeção em três anos de 60 mil milhões de euros, com um desembolso a muito curto prazo de 10 mil milhões de euros para o serviço de dívida externa (pagamentos ao FMI e vencimento das obrigações na carteira do BCE e dos bancos centrais nacionais do Eurosistema). O FMI adiantava que os europeus teriam de desembolsar 36 mil milhões em dinheiro fresco. O site grego independente Macropolis estima que o pedido de empréstimo ao MEE poderá exceder 65 mil milhões de euros.

Pela voz da sua diretora-geral, o FMI voltou na quarta-feira ao assunto. Christine Lagarde disse claramente, numa conferência no Brookings Institution, um think tank de Washington DC, que “uma reestruturação da dívida é, em nosso entender, necessária no caso da Grécia, para que tenha uma dívida viável”, o que contradiz a posição dos credores oficiais europeus que não têm admitido incluir o tema na negociação desde fevereiro, quando o então ministro Yanis Varoufakis começou a apresentar no Eurogrupo propostas nesse sentido.

Lagarde considerou a reestruturação da dívida como o segundo pilar de qualquer novo programa para a Grécia e uma operação urgente. Recorde-se que a análise do FMI estimava que poderia ser necessária uma redução da dívida grega na mão dos credores oficiais europeus no equivalente a 30% do PIB, ou seja cerca de 50 mil milhões de euros. A dívida na mão destes credores é de  cerca de 184 mil milhões de euros em empréstimos (do FEEF e bilaterais) e de 28,9 mil milhões em carteira de obrigações gregas no BCE e bancos centrais do Eurosistema.

Ao mesmo tempo que Lagarde discursava, foram divulgadas as atas da reunião de junho da Reserva Federal norte-americana (Fed), onde a crise grega surgia como uma preocupação séria para os banqueiros centrais da maior economia do mundo.