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Aviso da cimeira europeia aos mercados. “Cenário” Grexit e impacto geopolítico

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Com uma crise bolsista gravíssima na China e contágio nas bolsas asiáticas, os mercados financeiros souberam por Juncker que o cenário de saída da Grécia do euro está programado “em detalhe” e por Tusk que um cancelamento de negociações no domingo terá impacto “geopolítico”. Juros da dívida grega disparam, de novo

Jorge Nascimento Rodrigues

Depois de uma queda na terça-feira, as yields das obrigações gregas no prazo de referência a 10 anos dispararam na abertura desta quarta-feira. Estão acima de 19%, um salto” de mais de 1 ponto percentual em relação ao fecho no dia anterior. O contágio aos periféricos não se está a fazer sentir.

O primeiro-ministro grego afirmou esta quarta-feira no Parlamento Europeu que será enviada hoje uma proposta para o Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) e que o seu mandato é para confrontar os “interesses instalados” no país, ligados ao clientelismo e à fuga ao fisco, e não a União Europeia.

Os analistas recordam que o executivo de Atenas tem, agora, um mandato alargado baseado num acordo nacional obtido na reunião promovida pelo presidente da República Pavlopoulos. Este enviou, na terça-feira, a Donald Tusk um carta com os cinco princípios que foram apoiados pelos dois partidos do governo e pelos três principais partidos da Oposição (Nova Democracia, Potami e Pasok), anteriormente ligados ao “sim” no referendo de domingo. Os princípios referidos na carta abrangem a necessidade de financiamento “suficiente” do país, o acordo sobre reformas que distribuam o peso do seu fardo e sem consequências recessivas, um programa forte de desenvolvimento, um compromisso para discutir a viabilidade da dívida pública e uma prioridades à liquidez da banca grega. O grupo de partidos representados no Parlamento voltará a reunir com Pavlopoulos esta quarta-feira à noite.

Dois avisos oficiais
Na terça-feira à noite, depois da cimeira do euro, os mercados financeiros foram, pela primeira vez, avisados “oficialmente” de dois “cenários” através de declarações ao mais alto nível político da União Europeia.  

O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, afirmou que “temos um cenário de Grexit [contração de Grécia e saída (do euro) em inglês] programado em detalhe”. Por seu lado, o presidente do Conselho Europeu, Donal Tusk, disse que “não tenho dúvidas de que [a ausência de acordo entre a Grécia e os credores oficiais] afetará, também, a Europa, num plano geopolítico”, para avisar: “Se alguém tem qualquer ilusão de que assim não será é ingénuo”.  Alguns analistas chamam a atenção para a importância de avaliar os sinais que possam ser dados na cimeira dos BRICS que se realizará, esta semana, a 9 e 10 de julho, em Ufa, na Rússia.

Ainda segundo a Bloomberg, no Eurogrupo de terça-feira, o ministro das Finanças alemão Wolfgang Schäuble instou o Banco Central Europeu (BCE) e a Comissão Europeia a detalharem os planos para um “escudo” de proteção do resto da zona euro no caso de uma saída da Grécia até final de junho. O tabu teria caído, refere a agência noticiosa.

Contágio chinês na Ásia
Os dois riscos na frente europeia – monetário e geopolítico – são sublinhados por responsáveis políticos da União Europeia no mesmo momento em que os mercados financeiros são agitados por uma crise gravíssima nas bolsas de Xangai e Shenzhen com contágio nas principais bolsas asiáticas, em Tóquio, Taipé e Hong Kong. O mercado bolsista chinês está assaltado por “um sentimento pânico” avisa o regulador local, com 45% da empresas cotadas a suspenderem a negociação das suas ações.

Recorde-se que a cimeira do euro de terça-feira apontou para duas datas críticas. O governo grego terá de apresentar até quinta-feira, dia 9, um pedido de novo programa ao abrigo do Mecanismo Europeu de Estabilidade com um plano de condições (ou seja, um novo plano de resgate), e Donald Tusk afirmou que a última das últimas datas limite é domingo, 12 de julho, para se fechar um acordo.

Entretanto, o governo grego terá referido a necessidade de um empréstimo de emergência, intercalar, uma ideia de há muito do ex-ministro Yanis Varoufakis, para uma injeção de 7 mil milhões de euros que pudesse evitar uma nova falha de pagamento ao Fundo Monetário Internacional (FMI) a 13 de julho (pagamento de 451 milhões de euros e liquidação do atraso de junho num montante de 1,54 mil milhões de euros) e um primeiro incumprimento ao BCE e aos bancos centrais do Eurosistema a 20 de julho quando vencem 3,9 mil milhões de euros em obrigações gregas que não foram reestruturadas em 2012. No âmbito de um eventual novo programa de resgate, o FMI, na sua análise sobre a (in)sustentabilidade da dívida grega, divulgado a 2 de julho, referia a necessidade de uma injeção a curto prazo de 10 mil milhões de euros, no quadro de um programa até final de 2018 que poderia envolver um programa global de 50 a 60 mil milhões.

Tesouro grego conseguiu colocar €1625 milhões em Bilhetes do Tesouro
A Grécia continua a estar sob o regime de um ‘corralito’ bancário em virtude da liquidez muito limitada do seu sistema bancário face à sangria de depósitos que sofreu até à entrada em vigor de controlo de capitais a 29 de junho.

A reabertura das dependências bancárias continua sem data oficial ou oficiosa e os analistas falam da possibilidade dos bancos aguentarem a situação até domingo se o BCE, entretanto, numa decisão esta quarta-feira ou ainda esta semana, aumentar temporariamente o limite da linha de emergência de liquidez – conhecida pela sigla ELA em inglês – acima dos atuais 88,6 mil milhões de euros. O presidente francês François Hollande antecipou, na terça-feira, a previsão de que o BCE assim fará. Os banqueiros centrais do euro já endureceram a posição em relação ao Banco Central da Grécia e à banca helénica ao aumentarem os haircuts a aplicar aos colaterais, às garantias, apresentadas.

O Tesouro grego necessita de refinanciar mil milhões de euros em Bilhetes do Tesouro (dívida de muito curto prazo) na sexta-feira e os únicos investidores que têm acorrido a emissões de BT antes desses refinanciamentos são domésticos (bancos, fundos e seguradoras). O Tesouro levou a leilão, esta quarta-feira, 1,25 mil milhões de euros em BT a 6 meses e conseguiu colocar 1625 milhões com a mesma taxa de remuneração anterior de 2,97%.