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PT perde negócio de €30 milhões

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Indecisões e turbulência da história recente da PT destruiu valor

José Caria

Quadros da PT saem e esvaziam negócio que a Ericsson queria comprar

João Ramos

João Ramos

Jornalista

A PT Portugal tem vindo a perder nos últimos meses  alguns dos quadros mais qualificados na área das tecnologias de informação. A mais recente debandada foi protagonizada pela maioria dos 200 técnicos que até agora faziam parte do centro de competências Conceptwave que a empresa tinha em parceria com a Ericsson. Um infraestrutura que prestava serviços à dona do Meo e a outros operadores de onze países de quatro continentes. Perante a incerteza em relação ao futuro, alguns destes técnicos  formaram entretanto uma empresa para prestar o mesmo tipo de serviços aos mesmos operadores. A PT deixou assim de encaixar €30 milhões, o valor que a empresa sueca colocou em cima da mesa para ficar com a totalidade deste centro de competências. 

O negócio acabou por não avançar em 2013 porque a administração da PT Portugal de então, presidida por Henrique Granadeiro, considerava que a oferta da Ericsson era baixa. Entretanto,  o operador histórico português sofreu um verdadeiro tsunami: o processo de fusão com a Oi, o calote de quase €900 milhões da Rioforte e a venda à francesa Altice. Mesmo assim, as negociações prosseguiram, mas a Ericsson foi baixando a oferta. Em junho de 2014, a multinacional sueca baixou o valor para metade da oferta inicial (€15 milhões) e as partes entenderam-se. Em outubro de 2014 chegou a haver um memorando de entendimento entre a Oi (dona da PT Portugal na altura) e a Ericsson para avançar com o negócio que seria assinado em janeiro deste ano. Mas a venda da PT Portugal à Altice, que foi fechada na mesma altura (no início de 2015), fez com que a transação do centro da Conceptwave voltasse a ser adiada. 

Com a chegada dos novos donos, muitos quadros da PT  passaram a viver num clima de incerteza. Os técnicos do centro de competências da Conceptwave não foram exceção. O resultado foi a sua saída em massa, tanto mais que o seu valor de mercado é elevado. Em menos de dois anos, este ativo da PT que gerava receitas significativas (€11 milhões em 2014) e chegou a valer €30 milhões passou a valer praticamente zero. Contactadas pelo Expresso, tanto a PT Portugal como a Ericsson preferiram não comentar. 

O que é a Conceptwave? 

Em 2007, a PT Sistemas de Informação selecionou a tecnologia da empresa canadiana Conceptwave para informatizar os processos na área de gestão de encomendas (order management). Paulatinamente, o operador português foi formando técnicos neste nicho altamente especializado que foram participando em projetos de operadores de países tão diversos como os Estados Unidos, Canadá, Holanda, Dubai, Nova Zelândia, Peru, Rússia e Turquia. Curiosamente, a PT também passou a ter como cliente a brasileira Oi, quando nada fazia prever que iria haver uma fusão entre as duas empresas. 

Em 2012, a Conceptwave foi comprada pela Ericsson e a multinacional sueca avançou com uma parceria estratégica com a PT para, em conjunto, darem uma resposta ao aumento da procura. A partir do Porto, o centro de competências Conceptwave foi crescendo e ultrapassou os 200 colaboradores altamente qualificados. Em 2013 registava um volume de negócios de €9 milhões e as expectativas  eram de em 2016 chegar aos €20 milhões. Quando a PT e a Oi avançaram para a fusão, a Ericsson propôs a compra do centro de competências. Mas as indecisões e as vicissitudes do operador histórico levaram a que este ativo tivesse uma significativa destruição de valor.