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Grécia a caminho do Dia D: default ou não default

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Independentemente do resultado do referendo realizado este domingo, o Tesouro grego enfrenta um mês muito “quente” em termos de dívida externa. Os analistas apontam 20 de julho como o dia decisivo, caso €3,9 mil milhões não forem pagos ao BCE e Eurosistema. Haverá um efeito em cascata

Jorge Nascimento Rodrigues

O próximo dia 20 de julho é apontado como o Dia D da atual fase da crise da dívida soberana grega. Vencem €3,9 mil milhões em obrigações em carteira no BCE e no Eurosistema.

A falhar, o efeito em cascata pode implicar um default em larga escala da dívida grega e o colapso bancário. Será a sexta bancarrota grega depois de uma série de quatro no século XIX (1826, 1843, 1860 e 1893) e uma última em 1932, um filme que poderá “ver” na edição de julho da revista Exame. No final de 2011 registou-se uma situação de quase bancarrota que foi resolvida pela reestruturação de dívida em 2012, com uma operação de troca de títulos em março e abril e, masi tarde, de recompra de títulos em dezembro do mesmo ano, no quadro de um segundo resgate a Atenas.

€7,5 mil milhões para pagar
Julho é o mês mais quente deste verão grego em termos de amortizações e juros da dívida grega. O Tesouro grego tem mais de 7,5 mil milhões de euros para pagar a credores oficiais e detentores de obrigações e em refinanciamentos de Bilhetes do Tesouro (BT).

O montante mais elevado, a pagar num só dia, cai a 20 de julho, com o vencimento de 3,9 mil milhões de euros em obrigações que estão em carteira no Banco Central Europeu (BCE) e nos bancos centrais nacionais do Eurosistema.

Os analistas apontam aquela data como o dia crítico para a atual fase da crise da dívida grega, se acontecimentos políticos até lá não anteciparem o risco de um default em larga escala. “É o dia D”, sublinha-nos Manos Giakoumis, analista-chefe do site Macropolis.

Dois em um: BCE suspende acesso a ELA e FEEF exige pagamento
O não pagamento ao BCE, a 20 de julho, poderá ser um momento de incumprimento com um efeito cruzado devastador. Os outros credores oficiais europeus (leia-se nomeadamente Fundo Europeu de Estabilidade Financeira) poderão exigir, finalmente, o pagamento antecipado da totalidade dos empréstimos que fizeram a Atenas.

O próprio BCE poderá decidir, finalmente, suspender a elegibilidade do sistema bancário helénico junto da linha de emergência de liquidez em euros – conhecida pela sigla em inglês ELA – que tem impedido a banca helénica do colapso face à sangria de depósitos. Será dois em um, com um impacto gravíssimo.

No entanto, até lá, o calendário regista outros momentos de risco. No dia 10 de julho é necessário refinanciar 2 mil milhões de euros em BT (dívida de curto prazo), operação que se repete a 17 com o vencimento de mais mil milhões. O refinanciamento desta dívida de muito curto prazo tem sido, até agora, realizado regularmente por investidores gregos – bancos, fundos, companhias de seguros. Como essas operações se processarão, caso os bancos se mantenham fechados para além da próxima terça-feira, não é ainda claro.

Outro momento crítico, antes de 20 de julho, ocorre a 13, quando Atenas tem de pagar mais 451 milhões de euros ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Se não enviar este cheque, será o segundo incumprimento junto da organização chefiada por Christine Lagarde. A Grécia passará a ter cerca de 2 mil milhões de euros em atraso. As implicações deste segundo incumprimento – que o Fundo classifica tecnicamente como “atraso no pagamento” e não como default – “competem aos outros credores determinar”, refere o FMI.

O não pagamento de 1,54 mil milhões de euros ao FMI, no passado 30 de junho, levou o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF), o atual principal credor oficial detendo 42% da dívida grega, a declarar a 3 de julho a ocorrência junto do outro credor oficial como “evento de incumprimento” e a reservar o direito de vir a premir o botão da exigência imediata de pagamento do total do empréstimo que soma 130,9 mil milhões de euros. O FEEF poderá reapreciar a situação após um novo não pagamento a 13 de julho ou a seguir ao Dia D de 20 de julho.

Dimensão do default poderá ser superior ao argentino
Se o FEEF premir o botão desta “bomba nuclear”, face à incapacidade da Grécia pagar essa dívida, o país poderá entrar num default de grande parte da sua dívida externa.

Muito superior ao ocorrido com a Argentina no final de 2001, quando o presidente interino Saá declarou a suspensão do serviço de dívida em relação a uma parte dos 144,5 mil milhões de dólares de dívida pública. Esta declaração foi posterior ao ‘corralito’ bancário imposto pelo ministro da Economia Domingo Cavallo que se demitiria quando foi estabelecido o estado de sítio.

Há ainda um “pequeno” montante de 82,1 milhões de euros em juro relativos a uma linha obrigacionista denominada em ienes  (obrigações Samurai) que terá de ser pago a credores a 14 de julho. O seu não pagamento poderia desencadear um “evento de crédito”, dado poder ser classificado de default seletivo em relação a investidores privados. Essa situação permitiria a apreciação pela ISDA, o organismo internacional que determina os leilões dos credit defaut swaps (acrónimo cds) relacionados com uma determinada dívida. Contudo, este pequeno montante poderá ser pago através das reservas de caixa existentes ou por transferências de outras entidades públicas, prevê Manos Giakoumis.

Naturalmente que esta trajetória negativa poderá ser invertida se for obtido algum tipo de acordo que permita uma injeção financeira na Grécia. O ministro das Finanças Yanis Varoufakis já propôs ao Eurogrupo a contração de um empréstimo junto do Mecanismo Europeu de Estabilidade para fazer face à situação de curto e médio prazo (nomeadamente face ao BCE e ao FMI) e o FMI divulgou, na sua análise de sustentabilidade da dívida grega, a sua linha de pensamento sobre o problema (um novo programa até 2018 com injeção imediata de 10 mil milhões de euros e mais 50 mil milhões até dezembro de 2018, implicando 36 mil milhões de dinheiro fresco dos credores oficiais europeus; um provável hair cut equivalente a 30% do PIB; moratória do serviço de dívida aos credores europeus de 20 anos e amortizações não antes de 2055).

Mercado dos cds ao rubro, mas ainda longe de 2012
A “temperatura” no mercado de cds é um bom indicador da evolução da situação. Os cds funcionam como seguros contra o risco de incumprimento de uma dívida soberana.

No caso grego recente, houve uma alteração radical a 30 de junho. Os cds dispararam de 2540,56 pontos base a 26 de junho para 7097,10 a 30 de junho e 7891,44 a 3 de julho, no final da semana. A 26 de junho ainda não se conhecia publicamente o relatório preliminar do FMI sobre a análise de (in)sustentabilidade da dívida grega (que só foi divulgado a 2 de julho), não havia sido decretado o ‘corralito’ bancário (que se iniciou a 29 de junho) e não estava confirmado que o cheque para o FMI não seria enviado. A 26 de junho, os mercados financeiros ainda estavam na expetativa de algum acordo no fim-de-semana. As expetativas goraram-se com a suspensão das negociações no Eurogrupo  e a declaração que o segundo plano de resgate terminava sem prolongamento a 30 de junho.

No entanto, este nível de custo dos cds não é, ainda, comparável ao registado em fevereiro e março de 2012. Nessa altura, o preço dos cds disparou de 6531,25 pontos base a 13 de fevereiro para 34040,07 a 8 de março. A Grécia foi, depois, declarada numa situação de evento de crédito e um leilão de cds ocorreu a 12 de março. Vivia-se a primeira fase da reestruturação da dívida grega com uma primeira operação de troca de títulos nas carteiras dos investidores privados que se saldou por um “corte-de-cabelo” de 107 mil milhões de euros.

  • A infografia que explica as consequências do “sim” e do “não”

    Varoufakis já disse que se demite se o “sim” vencer no referendo de domingo, Tsipras diz que o “não” dá mais poder negocial ao seu Governo, Bruxelas diz que a posição grega fica “dramaticamente enfraquecida” se o “não” vencer. Afinal, como será depois de domingo? Temos uma infografia que analisa os tentáculos do “sim” e do “não”