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Como a crise grega ameaça Portugal

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Angela Merkel está no centro sob os holofotes da solução, mas perto da sombra da falta dela

FABRIZIO BENSCH / REUTERS

Há pelo menos seis canais de contágio para trazer a turbulência até à economia nacional. A dívida pública, que está mais protegida, é apenas um. Mas há outros e alguns são calcanhares de Aquiles

Os cofres do Estado estão cheios e há dinheiro para viver até final do ano sem ir ao mercado. Para enfrentar a onda de choque vinda da Grécia, é uma grande ajuda. Até porque, num caso limite, o Banco Central Europeu (BCE) pode intervir para travar um eventual ataque especulativo. Só que há mais vida além do Estado.

Na economia portuguesa, há empresas e famílias endividadas que poderão sofrer com uma subida dos juros na zona euro. Além disso, qualquer acontecimento que perturbe o andamento da economia europeia terá reflexos em Portugal e o poder de fogo da política monetária está no limite.  

1 - Dívida pública

O canal mais óbvio de contágio da atual turbulência na Grécia e de um cenário limite de saída do país da zona euro – o Grexit – são as taxas de juro da dívida pública. As yields foram a via de transmissão da ‘doença’ da dívida quando a crise começou nos finais de 2009 e é para onde todos olham atualmente. 

À falta de taxa de câmbio, cujas variações refletem entradas e saídas de capitais num país, a fuga dos investidores em casos de pânico na zona euro acaba por manifestar-se nos ativos do país, a começar nos juros da dívida pública. Quando há o risco de desagregação da zona euro, a yield (taxa de rentabilidade) acaba por ter, na verdade, uma importante componente de risco cambial: quem troca dívida grega por alemã está a assegurar que se o euro acabar tem marcos e não dracmas. 

Tendo o Estado uma almofada que ronda atualmente 14 mil milhões de euros e que permite viver até final do ano sem ir ao mercado, o risco para Portugal está contido. Não há pressão e isso dá segurança e tempo. Até porque o BCE tem hoje instrumentos que não tinha em 2010 – como o OMT que permite compras de dívida para travar ataques especulativos. 

Mas quaisquer oscilações bruscas no mercado de divida têm sempre reflexos, não só para os emitentes como o Estado português, mas para quem tem dívida em carteira. Pequenas subidas dos juros podem significar perdas em termos de cotação. 

Os juros da dívida a 10 anos subiram cerca de meio ponto percentual no arranque da manhã de segunda-feira, dia 29 e, à hora de fecho do Expresso Diário (18h), estavam em 3,083%. O spread face às bunds (isto é, a diferença entre as taxas de juro das obrigações do Tesouro portuguesas e alemãs) aumentou para 2,4 pontos percentuais. 

2- Taxas de juro 

Pior que a dívida pública, que tem hoje mecanismos de proteção reforçados na zona euro, é a dívida de empresas e famílias. Portugal tem uma dívida externa maior que a Grécia e, nesse aspeto, está mais exposto aos humores dos investidores internacionais. Dos 406,6 mil milhões de dívida externa bruta no final do ano passado, a dívida pública representava menos de metade (168,5 mil milhões). Já os bancos deviam 83,3 mil milhões de euros e outros setores, onde se incluem as empresas, 46,5 mil milhões de euros. 

Uma subida geral das taxas de juro no espaço da moeda única terá consequências inevitáveis sobre o financiamento externo dos bancos e das empresas portuguesas. Isso traduz-se também, de forma indireta, nas taxas cobradas nos créditos bancários que tenderão igualmente a subir. E, aqui, não há mecanismos do BCE ou outros que travem a subida. 

Para a banca, são péssimas notícias já que o crédito malparado está atualmente no valor mais alto de sempre – 5,432 mil milhões de euros nas famílias (4,4% do total) e 13,4 mil milhões nas empresas não financeiras (15,7%) – e uma subida dos juros tenderá a agravá-lo. A economia não só terá novo crédito mais caro, como também terá revisões para cima das prestações dos atuais empréstimos. 

Entre bancos, no mercado interbancário europeu, e nos diferentes instrumentos de financiamento das empresas – como mercado monetário, por exemplo – são esperadas igualmente perturbações que podem afetar bastante uma economia endividada como a portuguesa. 

O economista suíço Charles Wyplosz, do instituto IMD, disse ao Expresso que o elo mais fraco são os bancos porque se “presume que estão fracos”  e “os bancos fracos podem enfrentar falta de confiança”. Mas avisa que é “necessário ver o que acontece à medida que o referendo se aproxima”.  

3 - Taxa de câmbio do euro 

Um dos espelhos mais imediatos de qualquer perturbação na zona euro é a cotação da moeda única. O euro está neste momento no valor mais baixo das últimas três semanas contra a moeda norte-americana em 1,111 dólares por euro. A fuga de capitais para o exterior da zona euro é visível mas há igualmente movimentos entre países da moeda única. O banco central suíço foi obrigado a intervir novamente no mercado cambial para travar a valorização do franco.

Para a economia portuguesa, um euro mais baixo é uma boa notícia para as exportações que assim se tornam mais competitivas nos mercados internacionais mas também no mercado europeu face a produtos que venham do exterior. As importações, no entanto, ficarão mais caras e aqui inclui-se o petróleo que vem de fora da zona euro.  

4- Bolsa

Os mercados financeiros são sempre os mais rápidos a reagira. A Bolsa de Lisboa caiu na segunda-feira, dia 29, 5,22%, com a banca em destaque pela negativa com o BCP a perder mais de 11%. Na dúvida os investidores preferem jogar pelo seguro e colocar o seu dinheiro em aplicações menos expostas à turbulência. 

 

A descida do PSI-20 durante alguns dias não tem, por si só, consequências imediatas na economia real. A menos que se transforme numa descida prolongada e de montante significativo. Aí os estragos podem ser maiores. Os investidores sofrem perda de valor dos seus ativos, o que tem consequências em termos patrimoniais mas também em variáveis macroeconómicos como consumo (no caso dos particulares) ou investimento, e as empresas tem menos valor e maior dificuldade em financiar-se no mercado de capitais.  

Ao mesmo tempo, os mercados financeiros refletem a situação da economia e vários dias, semanas ou mesmo meses em queda têm consequências no comportamento de empresas e famílias. 

5 – Economia europeia

Portugal precisa de exportar e a zona euro é o principal mercado. Um cenário de Grexit que trave o andamento do produto interno bruto (PIB) da zona euro traduz-se invariavelmente nas exportações nacionais. 

O Programa de Estabilidade do governo aponta para um crescimento médio das exportações de 5,5 mil milhões entre 2015 e 2019, o que está associado a um crescimento anual da procura externa também superior a 5%. Já o cenário macroeconómico do PS conta com um valor médio anual na ordem dos 5,8%. Basta, por exemplo, que as exportações cresçam apenas 3% ao ano para que o andamento do PIB diminua em cerca de um ponto percentual. 

E, claro, estas coisas tem vários efeitos de “feedback”: se há menores exportações, as empresas investem menos, contratam menos, os fornecedores têm uma quebra de procura, não investem e não contratam. O PS avaliou um cenário, menos grave que um Grexit mas com perturbações em termos de taxas de juro e menor procura externa, e calculava que o PIB continuaria em terreno positivo mas com um crescimento bastante menor. 

6 - Efeito psicológico 

É o impacto menos tangível e o mais difícil de controlar, mas é impossível evitá-lo. As expectativas são uma variável fundamental nas decisões económicas, seja a decisão de um empresário de investir numa fábrica, seja uma família a escolher o local de férias. 

Se as empresas esperarem menor procura ou maiores dificuldades de financiamento, tenderão a adiar ou a reduzir as intenções de investimento. Da mesma maneira, as famílias que esperarem menores rendimentos no futuro ou um maior risco de isso acontecer (maior probabilidade de desemprego, por exemplo) também vão cortar no consumo de bens duradouros ou ponderar melhor determinadas mudanças estruturais (como mudar de casa).  

Os estragos psicológicos provocados por uma eventual saída grega dependerão sempre da intensidade do problema e da sua duração. Para Wyplosz, o mais importante de um Grexit é que implica uma mudança psicológica permanente. Significa “que o euro não é um compromisso irrevogável” e que “os mercados irão absorver esta mudança e isso pode vir a perseguir-nos no futuro”.