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Pai do “corralito” argentino desaconselha um “corralón” na Grécia

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ALKIS KONSTANTINIDIS / Reuters

Ex-ministro da Economia da Argentina recorda a história da crise do seu país para dar um conselho aos credores oficiais e ao governo grego - é preciso travar o confisco de depósitos, diz

Jorge Nascimento Rodrigues

A história, não muito distante, na Argentina mostra que há sempre o risco de um "corralito" bancário – restrição de movimentos de capitais para travar a sangria de depósitos dos bancos – se transformar em "corralón", ou seja num confisco de depósitos em moeda forte seguido de redenominação coerciva dos depósitos e contratos financeiros para nova moeda acompanhado de uma desvalorização brutal.

Quem o recorda em um curto artigo publicado esta semana no seu blogue é Domingo Cavallo, o ex-ministro da Economia que, a 3 de dezembro de 2001, decretou o "corralito" bancário na Argentina e se demitiu duas semanas depois quando foi decretado o estado de sítio no país. Cavallo recorda a história da crise argentina para dar um conselho aos credores oficiais e ao governo grego: evitem que venha depois algém a impor a passagem de um "corralito" bancário (como está em vigor agora na Grécia até 7 de julho) para um "corralón".

Cavallo recorda que não foi ele, enquanto ministro, nem o presidente Fernando de la Rúa que decretaram o "corralón" que ficou marcado na memória de todos os argentinos. De um dia para o outro, os depósitos foram confiscados, com  a perda de uma larga percentagem pelos seus detentores. O "corralón" impôs, ainda, uma redenominação de dólares para pesos em todos os depósitos em moeda norte-americana – o que, então, se denominou "pesificação" –, o que implicou uma perda de 2/3 do seu valor. O dólar, depois de dez anos com equiparação ao peso, passou a valer 3 pesos. Em suma, uma desvalorização brutal do peso. A equiparação do peso ao dólar foi decidida em 1991 por Cavallo enquanto ministro da Economia de Carlos Menem.

A decisão de impor uma "pesificação" forçada foi tomada pelo presidente que sucedeu a três presidentes interinos em onze dias que tomaram a cadeira presidencial na Casa Rosada depois de La Rúa se demitir no meio de uma convulsão política e social gravíssima. A imagem do presidente La Rúa abandonando o palácio presidencial em Buenos Aires num helicóptero ficou registada.

Foi, depois, em janeiro de 2002 que Eduardo Duhalde e o seu ministro de Economia Remes Lenicov decretaram a "pesificação" e, de seguida, o default na dívida externa. Em onze dias de dezembro de 2001, a Argentina teve três presidente interinos - Ramón Puerta, Adolfo Saá e Eduardo Camaño - e viveu em estado de sítio, saques e "cacerolazos". O Parlamento elegeu posteriormente, a 1 de janeiro, o peronista Duhalde.

Se houver essa "transição" de um "corralito" para um "corralón", Cavallo deixa um recado final: “A Grécia voltará a ser uma economia com inflação elevada e muito instável. Além do mais, a Europa recuperará pouco ou nada dos 240 mil milhões de euros que a Grécia lhe deve. É provável que, no caso do ‘corralito’ se transformar em ‘corralón’, a Grécia acabe por abandonar a União Europeia e entre na órbita geopolítica da Rússia”.

É corrente a ideia de que foi Cavallo que decretou a "pesificação" e o default da dívida argentina e que essa "transição" violenta foi feita no governo de La Rúa. Na realidade, a história foi outra, como recorda o ex-ministro argentino.