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Manifestação dos lesados do BES em Paris. “Embaixada deu-nos tanga”

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Trezentos emigrantes lesados do BES marcharam hoje no chique bairro 16 de Paris e foram travados pela polícia nas imediações da embaixada portuguesa. “Deram-nos tanga”, disse um manifestante depois de uma reunião de uma delegação com um diplomata.

Daniel Ribeiro, correspondente em Paris

Os manifestantes eram mais numerosos do que na anterior concentração, a 30 de maio, junto à delegação do antigo BES, que está localizada numa das zonas mais nobres do décimo sexto bairro de Paris. As próprias instalações do agora Novo Banco, que em Paris também se chama La Venetie, são adequadas ao bairro – luxuosas e excessivamente requintadas.

Os emigrantes que desfilaram desde a delegação do banco até à Embaixada portuguesa, igualmente instalada no mesmo bairro, mantinham a mesma determinação que há menos de um mês - exigiam alto e bom som, com a ajuda de megafones, reaver o dinheiro investido no BES. 

Exibiam igualmente o mesmo desespero – “foram as poupanças de uma vida de trabalho e grande sacrifício, roubaram-nos, disseram-nos que não havia riscos nenhuns nos produtos que nos propuseram!”, exclamavam em coro, quase todos.

A situação pessoal, relatada por alguns, chegava a ser comovente: “Tinha tudo lá, meti lá todo o meu dinheiro, segui os conselhos que eles me deram para aplicar o dinheiro, não percebia nada daquilo, confiei neles e agora estou nesta situação, trabalhei 40 anos no duro, no muito duro, e agora roubaram-me tudo e voltei à miséria de novo sem dinheiro como quando aqui cheguei a França muito jovem!”, exclamava uma reformada, antiga porteira e mulher a dias.

Junto à Embaixada, numa zona ainda mais aristocrática do que a da delegação do antigo BES, os gritos de “ladrões” e “queremos o nosso dinheiro” subiram de intensidade. A polícia, alertada previamente, tinha bloqueado a pequena e habitualmente pacata rua de Noisiel, nas duas extremidades. 

Era impossível chegar à porta da Embaixada. No entanto, o barulho era tanto e incomodava de tal forma os abastados e tranquilos habitantes do quarteirão, que a instalação diplomática acabou por abrir as portas para receber uma delegação de três emigrantes.

No fim da reunião na Embaixada, Amélia Reis, porteira, ex-ama da família Espírito Santo e principal animadora do movimento dos emigrantes lesados do BES, descreveu deste modo ao Expresso o que se passou no encontro com o número dois da Embaixada, Carlos Pires: “Disse-nos para dizermos que nos tínhamos reunido com o Embaixador e que não estava a par da realização da manifestação e destes nossos problemas”.

“Prometeu que ia transmitir tudo a Lisboa, mas fez-nos perguntas sobre se sabíamos ou não que tínhamos investido em produtos bancários de risco”, acrescentou.

Amélia estava um pouco escandalizada com o que ouviu da boca do diplomata porque a manifestação tinha sido anunciada desde o fim do mês de maio e as reivindicações dos emigrantes lesados do Bes são conhecidas. 

“Na minha opinião, sabia de tudo, mas como não tinha solução nem nada para nos dizer de concreto, fez de conta e prometeu que se iria ocupar da situação”. Ao lado dela, um manifestante de cerca de 60 anos, reagiu deste modo, depois de ouvir o que Amélia Reis dissera ao Expresso: “Pronto, a Embaixada deu-nos tanga, estão todos feitos uns com os outros!”.

No total, quatro mil emigrantes em França dizem-se lesados do BES com investimentos globais de cerca de 400 milhões de euros. No mundo inteiro, serão oito mil os emigrantes lesados, com investimentos da ordem dos 800 milhões de euros.

Os emigrantes em França lesados do BES prometem novas manifestações em Portugal e em Paris para os próximos tempos. “Até recebermos o nosso dinheiro não paramos!”, concluiu Amélia Reis.