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Se não houver acordo no sábado: dois riscos para a Grécia e um global

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O cenário apresenta-se cinzento para a Grécia, quando faltam quatro dias para terminar o resgate e para o país ter que pagar as últimas prestações ao FMI

FOTO MARKO DJURICA/REUTERS

Crédit Suisse fala de um “corralito” dos bancos na segunda-feira. Merkel teme pela reação dos mercados financeiros na abertura da semana. BCE pode cortar oxigénio aos bancos helénicos e intensificar compras de obrigações dos periféricos

As negociações entre o governo de Atenas e os credores oficiais prosseguem no sábado. O Eurogrupo falhou pela quarta vez em apenas uma semana na reunião de quinta-feira. A preocupação da chanceler alemã Angela Merkel é clara: “deve haver acordo sobre a Grécia antes da abertura dos mercados da segunda-feira”.

Se não houver acordo entre as duas partes, os analistas estão, agora, assustados com o que poderá acontecer na abertura da próxima semana nas bolsas mundiais e no mercado da dívida obrigacionista soberana sobretudo em relação aos periféricos do euro.

O início da última semana de junho ficará marcado pelo “dia seguinte” a uma rotura, no caso de não haver acordo que possa permitir fumo branco em nova reunião do Eurogrupo no fim-de-semana, e pelo final do mês quando Atenas deverá enviar um cheque de 1,54 mil milhões de euros para o Fundo Monetário Internacional (um pagamento que não terá possibilidade de adiar nem juntar com o pagamento seguinte, a 13 de julho, de 451 milhões).

A extensão do programa de resgate à Grécia pela parte europeia terminará a 30 de junho e, se houver falha no pagamento ao FMI naquele mesmo dia, o país deixará de poder receber fundos e o processo de intervenção da organização liderada por Christine Lagarde, que só termina em março de 2016, entrará em situação incerta.

Corralito na próxima semana?
O Crédit Suisse fala de um primeiro risco: “Se no fim-de-semana não se chegar a acordo, na segunda-feira a Grécia deverá implantar um ‘corralito’”. A palavra ‘corralito’ foi criada por um jornalista económico de Buenos Aires para caracterizar as medidas de controlo de movimentos internos e externos de capitais impostas pelo governo e pelo banco central argentinos em dezembro de 2001.

O que poderá acontecer na Grécia é o estabelecimento, de surpresa, de um controlo de capitais face ao temor de um levantamento massivo de depósitos, do estabelecimento de um novo recorde em relação à fuga de 1,5 a 1,8 mil milhões de euros na segunda-feira passada.

Imprevisível será a reação dos mercados financeiros. Será a Grécia uma espécie de “Lehman Brothers” soberano, apesar da dimensão limitada da economia que não valerá mais de 180 mil milhões de euros?

Alguns analistas colocam uma interrogação preocupante: a crise grega poderá “cruzar-se” com o temor crescente de que um “momento Minsky” (do apelido do académico norte-americano que teorizou a instabilidade sistémica do sistema financeiro) está em gestação, gerando uma nova crise financeira global devido a bolhas especulativas, como alertou, recentemente, o Prémio Nobel Robert Shiller? Qualquer problema “localizado” poderá tornar-se sistémico? Estamos em mares nunca dantes navegados, em suma.

O que fará Draghi?
Outro impacto “colateral” esperado é a reação do Banco Central Europeu (BCE). A torneira da linha de emergência de liquidez – conhecida pelo acrónimo em inglês ELA - pode fechar-se de imediato se a equipa de Mario Draghi, o presidente do banco central da moeda única, o decidir.

Os bancos gregos ficarão sem oxigénio ministrado pelo BCE e sujeitos à contínua sangria dos depósitos por parte dos gregos que aprenderam a lição de Chipre (quando um ‘corralito’ foi imposto em março de 2013). Os gregos não querem ficar sem euros no bolso ou no colchão, ou em outras paragens, no caso de medidas similares às impostas em Chipre forem avante. Sabe-se quando começam, nunca se sabe quando acabam (em Chipre só em abril passado foram levantadas as últimas restrições).

O que começou como uma crise de liquidez face a uma corrida aos bancos gregos pode transformar-se em uma situação de insolvência, uma grava crise bancária.

A própria estratégia de Mario Draghi mantendo a linha de oxigénio tem sido colocada em causa dentro do conselho de governadores. Esta semana, Jens Weidemann, governador do Bundesbank (o banco central alemão, o mais importante do Euro-sistema), disse numa intervenção numa conferência em Frankfurt que “o Euro-sistema não deve fornecer financiamento intercalar à Grécia mesmo que na expetativa de desembolsos posteriores”. E, mais adiante, explicou-se: “Quando bancos que não têm acesso aos mercados compram dívida soberana que, também, está bloqueada no acesso ao mercado, o recurso à ELA levanta sérios problemas de se tratar de financiamento monetário [do governo]”.

Para travar o contágio grego que possa ocorrer no mercado da dívida da zona euro na semana pós-rotura, o BCE poderá decidir ser “hiperativo” na compra de dívida pública dos membros do euro no mercado secundário ao abrigo do seu programa em curso iniciado a 9 de março sob a sigla em inglês PSPP (que até 19 de junho comprou 182,3 mil milhões de euros de títulos). Alguns analistas falam inclusive da possibilidade do Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) poder intervir diretamente a comprar dívida soberana da zona euro no mercado primário (de emissão de obrigações pelos Estados membros). O MEE funciona como mecanismo financeiro de substituição dos fundos europeus criados para os resgates dos membros do euro que assinaram os memorandos com a troika.