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Conheça o David, que comprou a TAP

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O dono da transportadora aérea brasileira Azul detém a partir desta quarta-feira, juntamente com o português Humberto Pedrosa, 61% da TAP. Quem é David Neeleman?

“Senhores passageiros, o meu nome é David Neeleman, sou o dono desta companhia e quero saber a vossa opinião. Podemos falar quando vos entregar os salgadinhos no vosso lugar.” E lá vai ele. Não uma vez — sempre que voa. Ele e os seus administradores, a quem impõe o mesmo ritual para que conheçam os clientes. Hoje, os clientes da Azul. Amanhã, talvez os da TAP. 

David Neeleman, 55 anos, brasileiro de nascença e americano de dupla nacionalidade, é um dos empresários que olharam e avançaram para a privatização da TAP - a par de Germán Efromovich, dono da Avianca. Efromovich é já bem conhecido entre nós, depois da publicação de vários perfis em 2012, quando quis comprar a TAP na anterior tentativa de privatização, que foi abortada. Mas quem é David Neeleman? 

O Expresso encontrou dezenas de artigos, entrevistas e até livros sobre ele. Já foi considerado pela revista Time, em 2004, uma das 100 pessoas mais influentes do mundo e é apresentado como um empreendedor da aviação (fundou a sua primeira empresa, a Morris Air, aos 24 anos) obcecado pelos clientes. “Quero alguém que tenha atitude voltada para o serviço”, disse numa entrevista no Brasil. “Já deixámos de contratar um piloto com mais de 15 mil horas de voo porque ele não conseguia lembrar-se de uma única vez em que ajudou uma pessoa além das suas atribuições.” 

Neeleman quer saber o que querem os clientes e é por isso que pode ser visto a distribuir salgadinhos num voo. “Dou aos clientes tudo aquilo que eles procuram: passagens baratas, aeronaves novas, atendimento diferenciado e entretenimento a bordo”, disse em português, com sotaque norte-americano, à revista “Época Negócios”.

David Neeleman tem visitado Lisboa nos últimos meses, mas ainda não falou com jornalistas. Fala sim com o Barclays e com a Cuatrecasas, os seus assessores financeiro e jurídico. O Barclays assessorou o Estado na privatização em 2012. Os primeiros contactos com Neeleman foram incentivados pelo presidente da TAP, Fernando Pinto: a Azul não tem manutenção própria no Brasil e explorou a possibilidade de comprar a TAP Manutenção & Engenharia Brasil — de que já é a maior cliente. “A Azul, se escolher a Star Alliance em conjunto com a TAP, tem uma voz ativa importante em dois continentes bastante complementares”, afirmou em janeiro o secretário de Estado dos Transportes, Sérgio Monteiro. 

Foco no cliente
“Empregados felizes são os melhores empregados. Todos os funcionários precisam de pensar que a empresa é o melhor lugar em que eles já trabalharam na vida”, costuma dizer Neeleman. Defende um atendimento impecável, o que faz com que receba quatro vezes ao dia relatórios das atividades do call center da Azul. Faz também com que todos os funcionários da companhia tenham contacto direto com os clientes.

Descreve-se assim: um líder é um servidor dos empregados. Acredita que a tripulação trata do cliente e o cliente trata do acionista. E será por isso que entrega parte dos lucros aos trabalhadores: no ano passado, 10% dos resultados líquidos da Azul foram distribuídos pelos 11 mil trabalhadores, número semelhante àqueles que a TAP emprega. Em número de aviões, contudo, a empresa é maior — e está em crescimento. Aliás, quem pode concorrer à TAP nem é a brasileira Azul, é a americana DGN, holding composta pelas iniciais de David Gary Neeleman. 

A DGN tem apenas 8% do capital da Azul, sendo o remanescente do capital garantido por investidores que tradicionalmente acompanham os seus investimentos. O Weston Presidio, que o apoiou na criação da JetBlue, continua a ser um dos investidores que entram nos negócios de Neeleman. “Consigo, investimos a qualquer hora, em qualquer indústria”, chegaram a dizer os executivos do fundo à revista “Época Negócios”. 

Os brasileiros grupo Bozano e Gávea Investimentos e as sociedades gestoras de fundos PetersonPartners, TPG e Zweig-Dimenna são outros parceiros. Assim deverá ser o financiamento também da TAP: Neeleman “entra” com uma parte e traz os fundos e investidores institucionais, que assim financiam a operação. É a complementaridade entre as ligações da TAP ao Brasil e a África, com conexões entre Portugal e a Europa, que alimenta sinergias com empresas brasileiras, de onde surgem os maiores interessados. Neeleman estava, por regras comunitárias, limitado a comprar até 49% da companhia — mas juntou-se ao empresário português Humberto Pedrosa, dono do grupo Barraqueiro, que detém a maioria do capital do consórcio Gateway que criaram para concorrer à compra de 61% da TAP. 

Pai de nove filhos, mórmon, o dono da AzuI não terminou a faculdade. Um problema de défice de atenção impedia-o de realizar tarefas que necessitassem de grande concentração. “Já que havia esse problema, a saída era ser criativo e montar o próprio negócio”, contou à revista brasileira “Isto é dinheiro”. 

Começou por criar uma pequena agência de viagens, com a ajuda da família, tendo depois participado na fundação de uma empresa de voos charter, a Morris Air. Em 1993, a Southwest Airlines interessou-se pela Morris e Neeleman vendeu-a por 129 milhões de dólares (€115 milhões). Com dinheiro e tempo livre, dedicou-se a outro projeto: o desenvolvimento de um sistema de venda de bilhetes pela internet. O Open Skies é hoje usado pela maioria das companhias aéreas, tendo Neeleman vendido o negócio à HP, em 1999, por 20 milhões de dólares (€18 milhões). 

Inventou o e-ticket, bilhete eletrónico que reduz custos e diminui a burocracia no embarque. Tornou possível, mesmo para uma companhia de baixo custo, oferecer televisão ao vivo (LiveTV) em cada um dos assentos das suas aeronaves, além de filmes pay-per-view e canais de rádio via satélite. A JetBlue, que fundou em 2000, foi a primeira low cost a voar um A320 e a primeira companhia de aviação a criar uma frota híbrida. “Ele obrigou as outras companhias aéreas a repensar suas práticas e princípios operacionais”, escreve James Wynbrandt, no livro “Flying High  — How JetBlue Founder and CEO David Neeleman Beats the Competition”. 

atualização do texto publicado na edição do Expresso de 9 de maio 2015

  • Humberto Pedrosa, o 15º homem mais rico de Portugal e agora dono da TAP

    Humberto Pedrosa controla 50,1% do consórcio Gateway, aliado ao dono da transportadora aérea brasileira Azul, David Neeleman, que detém 49,9%. Juntos, são agora os donos de 61% da TAP. Pedrosa é o maior empregador português do sector dos transportes. Como líder da Barraqueiro, construiu um império com as viagens do "garrafão", a transportar pessoas e mercadorias entre a província e a capital