Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

BES. Espírito Santo deixa cerâmica de Aveiro a “arder” com 10 milhões

  • 333

FOTO JOSÉ CARLOS CARVALHO

É um dos maiores lesados da queda do Grupo Espírito Santo: a empresa Pavigrés investiu 10 milhões em papel comercial e agora vai tentar recuperá-los em tribunal

Miguel Prado

Miguel Prado

Jornalista

Já ouvimos falar dos lesados do BES. Já sabemos que centenas de famílias viram as poupanças de uma vida perdidas com o colapso do Grupo Espírito Santo (GES). E que alguns outros bancos que também investiram no GES ainda não recuperaram largos milhões de euros de aplicações em papel comercial.

Mas à medida que o tempo vai passando surgem, mais definidos, os contornos da crise de dívida deixada pelo universo Espírito Santo. Uma crise a que não é alheia uma das maiores indústrias cerâmicas de Portugal, a empresa Pavigrés, do distrito de Aveiro.

A Pavigrés, especializada na produção de pavimentos e revestimentos cerâmicos, avançou esta semana com um processo em tribunal contra o BES e o Novo Banco. "Confirmo que efetivamente demos instruções aos nossos advogados para instaurarem uma ação judicial contra o BES e Novo Banco. O valor em causa é 10 milhões de euros, aplicados em papel comercial do grupo BES", explicou ao Expresso o presidente da Pavigrés, José Diogo.

Resultante da fusão, em 2004, de três empresas (Pavigrés, Grespor e Cerev), o grupo Pavigrés é hoje uma das grandes referências da indústria cerâmica nacional, com uma faturação anual superior a 50 milhões de euros, que a deixou no ano passado na lista das mil maiores empresas portuguesas. E no setor específico de "produtos minerais não metálicos" a Pavigrés fica mesmo à frente de companhias como a Vista Alegre Atlantis, Roca, Aleluia e Revigrés.

Com cerca de 600 trabalhadores e mais de 90% da produção orientada para as exportações, a Pavigrés viu, com a crise do BES, desaparecer uma aplicação financeira que corresponde a aproximadamente 20% da sua faturação anual. Mas, de acordo com as contas da empresa, a Pavigrés tem uma situação financeira saudável: dispõe de elevados capitais próprios (mais de 77 milhões de euros em 2013) e resultados líquidos positivos (lucrou mais de 5 milhões em 2013).

O que agora sucederá com esta indústria localizada no município de Anadia é incerto. Tal como é imprevisível a capacidade de outras entidades que investiram milhões de euros em papel comercial do GES recuperarem o seu dinheiro. Conforme o Expresso noticiou no último sábado, nos tribunais portugueses têm entrado várias ações judiciais contra o BES e o Novo Banco de elevados montantes.

Este mês o Fundo de Apoio à Inovação (instrumento administrado pelo Estado português para investimento em projetos inovadores de energias renováveis e eficiência energética) moveu um processo contra BES e Novo Banco para recuperar 6 milhões de euros aplicados em novembro de 2013 em papel comercial da Espírito Santo International. E, também este mês, o empresário Domingos Névoa, dono da Bragaparques, moveu uma ação contra os dois bancos no valor de 2,75 milhões de euros.

E quem deve, afinal, reembolsar os investidores que aplicaram o seu dinheiro em papel comercial de empresas do GES? Segundo o Banco de Portugal, "todas as obrigações ou outros títulos representativos de dívida não emitidos pelo Banco Espírito Santo devem ser reembolsados pelos respetivos emitentes". A resolução do Banco de Portugal de agosto de 2014 indica ainda que " o tratamento comercial dos clientes de retalho que detenham este tipo de instrumentos emitidos pelo Grupo Espírito Santo, de que o Novo Banco não é devedor, e que se revelem importantes para a preservação da relação de confiança com os clientes, será definido pelo conselho de administração do Novo Banco".

A 6 de maio o Novo Banco frisou, num comunicado a propósito das sucessivas manifestações de lesados junto das suas agências, que "os termos da medida de resolução são claros no que diz respeito à inexistência de uma responsabilidade do Novo Banco quanto ao reembolso dos referidos instrumentos de dívida". Quem reembolsará agora a Pavigrés e os restantes credores das empresas do GES? A última palavra será dos juízes que irão, pelo País fora, julgar as crescentes ações que têm sido lançadas contra o BES e o Novo Banco.