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Grécia-credores oficiais. Separados por €910 milhões

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O jornal financeiro grego “Agora” avança com o valor da divergência. O economista norte-americano Larry Summers expressou a troca que é proposta – gregos aceitam cortes nas pensões e aumento do IVA; credores oficiais oferecem discussão do alívio da dívida

Jorge Nascimento Rodrigues

As divergências entre os credores oficiais e os negociadores gregos estariam em 910 milhões de euros a 48 horas de uma reunião extraordinária do Eurogrupo e de uma cimeira dos líderes políticos dos países membros do euro. O valor é avançado este sábado pelo semanário financeiro helénico “Agora” no artigo que faz a manchete.

No fundo, é o equivalente em euros a uma percentagem de 0,5% do PIB avançada pelo ministro Yanis Varoufakis na intervenção que fez no último Eurogrupo na passada quinta-feira, e que divulgou no seu blogue pessoal. O ministro das Finanças helénico referia-se ao valor – “minúsculo”, no seu entender - que separa as duas partes nas negociações em relação a 2016, já que, quanto a 2015, a proximidade seria grande.

De 2 mil milhões para 910 milhões
Recorde-se que a 14 de junho, no domingo passado, quando as negociações técnicas no Grupo de Bruxelas foram suspensas, as divergências somavam 2 mil milhões de euros.

A parte grega poderá fazer mais algumas concessões antes das reuniões de segunda-feira. O ministro de Estado Alekos Flamnouraris garantiu este sábado que a parte grega procurará “completar a proposta” de modo a ficar “mais perto de uma solução”. Em declarações à cadeia de televisão grega Mega, o ministro adiantou que “algumas concessões” são ainda possíveis, se os credores oficiais aceitarem duas condições “essenciais”: flexibilização orçamental e reestruturação de dívida. Foi convocado um conselho de ministros para este domingo de manhã.

Os analistas interrogam-se, agora, se, tecnicamente, será politicamente possível a convergência no emagrecimento desse montante de 910 milhões, tanto mais que as divergências cruciais em números tocam duas “linhas vermelhas” – os escalões das camadas pobres e da classe média do sistema de pensões e o aumento do IVA em bens e serviços que os gregos entendem ser prejudicial a uma economia já de si devastada e a estratos da população em situação de crise humanitária.

No IVA, Varoufakis propunha 2 mil milhões de euros de receita adicional em 2015 e 2016 derivada de mexidas internas nos três escalões do imposto, como detalhou no documento apresentado no Grupo de Bruxelas na semana passada designado por "Fiscal Policy in the short and medium run", divulgado pelo jornal grego "Kathimerini". No sistema de pensões, os credores oficiais falam de um corte de 1,8 mil milhões de euros para o período de conclusão do programa . Os gregos admitem avançar com legislação para limitar as reformas antecipadas já em 2015, e estimam uma primeira poupança de 71 milhões em 2016.

Os cenários sobre o Eurogrupo extraordinário de segunda-feira avançados nos órgãos de comunicação social gregos e pelas agências internacionais apontam para um ultimato: ou o ministro Varoufakis aceita as propostas do memorando recente dos credores oficiais ou a Grécia opta por um caminho de incumprimento da sua dívida segunda-feira à noite. No primeiro cenário, os credores oficiais aceitariam algumas “emendas” ao memorando e escreveriam o compromisso para discutir uma renegociação da dívida pública que já é superior a 183%, um ponto de honra para o Fundo Monetário Internacional, como o recordou, recentemente, o economista-chefe da organização Olivier Blanchard.

Nas próprias fileiras da Oposição ao governo chefiado por Alexis Tsipras, a reestruturação da dívida surge como uma cedência europeia indispensável. “Já deveriam ter implementado o alívio de dívida”, disse Christos Staukouras, deputado da Nova Democracia (o partido que chefiou a anterior coligação governamental e que é atualmente o maior partido da oposição).

Foi o economista norte-americano Larry Summers, ex-secretário do Tesouro de Bill Clinton, que melhor expressou este sábado a “troca” política: gregos cortam nas pensões e sobem o IVA; credores oficiais oferecem reestruturação de dívida. A cimeira de líderes, a seguir, anunciaria que haveria fumo branco.

Risco de uma crise tripla
O que a Grécia enfrenta é o risco de uma crise tripla, se não houver um compromisso entre credores oficiais e governo helénico, suportado politicamente pelos principais líderes do euro. Alguns analistas falam da cimeira de segunda-feira à noite como o “momento Merkel”.

Teme-se uma crise tripla no sentido de abranger três áreas de risco: 
- pânico bancário
com a transformação de uma crise de liquidez do sistema financeiro helénico numa crise de solvência;
- incumprimento seletivo de dívida soberana se o Tesouro grego não conseguir financiar as próximas amortizações ao Fundo Monetário Internacional (a começar por um cheque de 1,54 mil milhões de euros no final deste mês e mais 450 milhões em julho) e ao Banco Central Europeu e bancos centrais nacionais do Euro-sistema (que detêm em carteira obrigações gregas que vencem em julho e agosto, envolvendo 6,7 mil milhões de euros) e contágio grego nomeadamente aos periféricos;
- e ameaça à “segurança” no espaço da NATO, como avisou, esta semana, o secretário-geral-adjunto daquela organização militar Alexander Vershbow.

5 mil milhões fugiram esta semana dos bancos
As notícias financeiras têm-se centrado no risco de incumprimento soberano, mas o problema bancário é muito agudo.

Na última semana, a fuga de depósitos atingiu 5 mil milhões de euros, segundo o jornal “Kathimerini”, com um recorde diário de mil milhões na quarta-feira , no dia anterior à reunião do Eurogrupo, que havia sido pré-anunciada por muitos dos seus participantes como de efeito nulo. Na própria reunião de ministros as propostas em confronto nem sequer foram discutidas, o que levou a um protesto do ministro das Finanças irlandês e a um artigo de Varoufakis no "The Irish Times" referindo  a forma como funciona o Eurogrupo.

Desde 27 de maio, as saídas líquidas de depósitos – com dois dias recorde, a 29 de maio com 920 milhões e a 17 de junho com 1000 milhões – somaram entre 7,5 a 8,5 mil milhões de euros. Desde o início do ano, a fuga de depósitos ronda em média 7,5 mil milhões de euros por mês. Os depósitos bancários de titulares privados (empresas e particulares) desceram de 168 mil milhões de euros no final de 2014 para cerca de 130 mil milhões em junho.

Os depositantes temem a imposição surpresa de controlo de capitais, corte nos depósitos e aplicações, e fecho das dependências bancárias por período incerto, como aconteceu em Chipre em março de 2013 (no quadro de um programa de resgate da troika implementado pela primeira vez numa zona monetária única, a do euro) ou na Islândia, com moeda própria, depois do colapso bancário de outubro de 2008.

O sistema financeiro helénico tem estado a ser alimentado por uma linha de emergência de liquidez (conhecida pela sigla em inglês ELA) junto do Banco Central grego autorizada pelo BCE. Na semana passada, o banco chefiado por Mario Draghi reuniu-se duas vezes num espaço de 48 horas e subiu o teto daquela linha em 3 mil milhões de euros. A ELA dedicada à Grécia aumentou para 86,1 mil milhões de euros. O BCE volta a analisar a situação grega na segunda-feira.

Cheque no último minuto
Alguns analistas referem que o pagamento do cheque ao FMI no final do mês, apesar das trocas azedas de palavras – com a diretora-geral do Fundo a aludir a uma falta de “adultos” nas negociações e o primeiro-ministro grego a acusar, no Parlamento em Atenas, aquela organização internacional de “responsabilidade criminal”  na situação atual da Grécia - poderá ser decidido no último minuto.

Uma das hipóteses, referida por analistas do Commerzbank à Bloomberg, é um swap sobre parte das reservas de ouro da Grécia (que, na totalidade, cobrem 1% da dívida pública), dado ser improvável uma venda. Outros referem, ainda, o recurso a um pedido formal a Moscovo, no âmbito de projetos acordados e outras facilidades. Na sexta-feira em São Petersburgo, os governos russo e grego e as empresas e entidades financiadoras envolvidas acordaram num memorando de entendimento relativo ao troço do gasoduto do Mar Negro que passará pela Grécia vindo da Turquia. O troço para construção em solo helénico entre 2016 e 2019 implica um investimento de 2 mil milhões de euros.