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Finda a OPA, avança a fusão com o BCP?

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Isabel dos Santos ganhou espaço para reforçar 
a proposta de fusão entre o BCP e BPI depois de a OPA 
do CaixaBank, de Gonzalo Gortázar, ter falhado

Rui Duarte Silva e Reuters

Concentração pode criar o maior banco português

A oferta pública de aquisição (OPA) do espanhol CaixaBank sobre o BPI  está morta e enterrada. Os catalães decidiram retirar a oferta depois de os acionistas — com destaque para Isabel dos Santos e o grupo Violas — terem votado contra a desblindagem de estatutos, uma das condições de sucesso da OPA. Agora, o banco presidido por Gonzalo Gortázar vai rever a estratégia para Portugal e em cima da mesa estará a possibilidade de sair do país ou reduzir a atual posição de 44,1%.

O jogo da concentração na banca portuguesa, com resultado ainda imprevisível, regressou. Retirada a OPA, a proposta de fusão entre o BCP e o BPI, feita por Isabel dos Santos, ganha um novo fôlego. Há, porém, muitas barreiras a ultrapassar, nomeadamente as de concorrência. Mas não só. O banco saído da fusão, que se transformaria no maior do país, segundo contas feitas em fevereiro, seria dominado por capital angolano, com uma posição superior a 20%, já que resultaria da união da participação de 18,9% de Isabel dos Santos no BPI com os 19,44% da Sonangol no BCP. O CaixaBank manter-se-ia como maior acionista (13,6%).

O momento é delicado. É preciso criar pontes de entendimento e não será fácil, há muitos interesses em cima da mesa e as relações entre Isabel dos Santos e os espanhóis poderão ter ficado melindradas, já que a OPA não foi combinada e acabou por se revelar hostil.

A pesar na avaliação da fusão entre o BCP e o BPI estará o futuro do Novo Banco, já que a estrutura do mercado bancário português irá alterar-se  consoante quem comprar a instituição. Se forem os chineses não haverá problemas de concentração mas, se for o Santander, colocam-se questões mais complexas, alerta um analista. Além disso, o BCP ainda não pagou todos os CoCos (dívida convertível) ao Estado, deve cerca de €750 milhões.

Edgar Ferreira, representante do grupo Violas no BPI, admite que o processo “foi uma perda de tempo porque se voltou à estaca zero”, e serviu “para deteriorar as relações entre os dois principais acionistas”. Essa degradação “é para já o único efeito da OPA  e isso não é positivo” para o  BPI, diz, e é uma fonte de preocupação maior do que a queda das ações. A família Violas aplicou €16 milhões no reforço da posição (mais 0,7%) a preços próximos do valor da OPA. As ações recuavam 6,2% para €1,18, a meio da sessão na sexta-feira.

Para Edgar Ferreira, o cenário de fusão  entre o BCP e o BPI “é um dos mais interessantes”. Uma consolidação leva “à criação de valor e uma nova dinâmica no sistema financeiro”. E o CaixaBank apoiará esse movimento? “Não sei o que lhes vai na cabeça. Neste processo sempre tive dificuldades em perceber a  sua atuação pela incoerência e falta de lógica revelada. A própria desistência, assim tão fácil, não parece lógica”, sustenta.

CaixaBank revê parcerias?

A estratégia de confronto e oposição à OPA adotada por Isabel dos Santos poderá voltar-se agora contra ela. Se na OPA o CaixaBank precisava do apoio de Isabel, agora é Isabel que precisa do CaixaBank. E o banco pode não apoiar o movimento de fusão. A posição oficial é que analisará todos os cenários disponíveis, “tendo em conta os objetivos do Plano Estratégico 2010/18”. A nova visão do CaixaBank  é clara: ou manda ou sai. A prioridade do novo plano é reduzir o peso das participações para evitar “um consumo excessivo de capital”. Mas, lembra um analista, o CaixaBank também pode considerar mais fácil sair após a fusão. A entrada em funções, há um ano, de Gonzalo Gortázar, alterou a visão do negócio e conduziu à revisão das alianças estratégicas. O CaixaBank terminou esta semana uma parceria de nove anos com a Société Générale.

No caso do BPI, o desconforto reside na divergência entre o capital detido (44,1%) e os direitos de voto (20%). A primeira solução para este problema foi o lançamento de uma OPA a um preço defensivo (desconto de 30% sobre o valor contabilístico). Mas o preço não seduziu os principais acionistas e a própria administração do BPI concluiu que o valor justo era €2,26. O grupo catalão quer uma operação portuguesa de baixo risco, que consuma pouco capital — a oposição à corrida ao Novo Banco é um sinal dessa estratégia.

Mário Silva, presidente da Santoro e representante de Isabel dos Santos em Portugal, tem dito que o CaixaBank é bem-vindo numa fusão entre BPI e BCP.  Esta semana, Fernando Ulrich referia-se ao CaixaBank como “um esteio na atuação do BPI”, realçando a aliança estratégica de 20 anos. Mas isso pode ser passado. Agora é esperar para ver como reage o banco catalão. O silêncio para já impera.