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Fusões, atribulações e salvações: quem são e o que fizeram os novos donos do Metro e da Carris

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Tiago Miranda

Concorreram cinco ao concurso de subconcessão, venceu a Avianza. Os transportes públicos de Lisboa passam para mãos espanholas, mas o capital é detido por mexicanos. Fomos perceber quem é a empresa que vai mandar no Metro e na Carris

"Ahorita" é a melhor expressão mexicana aplicável ao processo de subconcessão do Metropolitano de Lisboa e da Carris. Significa que foi rápido e supostamente eficiente. O critério de seleção dos concorrentes foi o menor preço que o Estado português poderá pagar pela gestão destas duas empresas de transportes de Lisboa. Mas o que é que isso tem que ver com a expressão "ahorita", perguntará o leitor? Terá tudo que ver porque, provavelmente, é o que pensarão os gestores da empresa que ganhou a subconcessão do Metro e da Carris, a Avanza. Mas vamos por partes.

No princípio esteve uma fusão
O Grupo Avanza nasceu em março de 2002 em resultado da fusão de três grandes empresas espanholas de transporte rodoviário, a Tuzsa, a Vitrasa e a Auto Res. Todas carregavam uma tradição no sector que remonta ao século XIX.

No entanto, foi verdadeiramente pouco depois da fusão destes três operadores que se deu o passo decisivo na Avanza, quando comprou a empresa Autobuses Salmantinos. Foi esse o fôlego de que precisaram para comprar, no ano seguinte, o Grupo La Sepulvedana, ganhando a concessão dos transportes urbanos de Segóvia e Ourense.

Tudo parecia correr favoravelmente sobre muitas rodas, até que, durante 2005, os problemas começaram a surgir. Com 3000 trabalhadores, uma frota de mil veículos e 173 milhões de passageiros transportados, em 2006 o grupo Avanza viu a solução para os seus problemas num fundo britânico de capital de risco que tinha acabado de entrar em Espanha.

Doughty Hanson passa o cheque
Por 600 milhões de euros, Francisco Gutiérrez Churtichaga, representante em Espanha do fundo de investimento Doughty Hanson, compra a Avanza, concluindo a primeira operação deste fundo no mercado espanhol.

De 2006 a 2012, o Doughty Hanson tratou de fazer crescer a Avanza, aumentando a frota para 1885 autocarros, 5200 trabalhadores e 225 milhões de passageiros, apostando na gestão de estações rodoviárias de longo curso.

No entanto, como a situação financeira da Avanza não apresentou o brilho que os seus acionistas gostariam que tivesse - para amortecer o elevado esforço de investimento que despenderam no seu processo de crescimento -, o Doughty Hanson começou a sondar o mercado, desde 2010, para procurar quem tivesse interesse em comprar a operação da Avanza.

A pesada dívida do Avanza travava o interesse de potenciais compradores, que não ofereciam os números pretendidos pelo fundo britânico. As responsabilidades imediatas com os bancos ascendiam em 2011 a mais de 420 milhões de euros a que somavam 10 milhões de euros em obrigações de curto prazo. Em 2010 e 2011, a Avanza registou 30 milhões de euros de prejuízos.

Salvos por 490 milhões em obrigações
Não fosse a oportunidade de lançar uma emissão de obrigações com maturidade de oito anos - no montante de 490 milhões de euros - e o fundo Doughty Hanson não teria conseguido desencalhar o investimento na Avanza.

Com o conforto desta emissão obrigacionista, surgiram vozes de interessados, todas com sotaque mexicano. O mais curioso é que, historicamente, as maiores incompatibilidades que coexistem no mundo da Hispanidad - que integra as comunidades de países de expressão castelhana - são vividas entre espanhóis e mexicanos. Não há maior rivalidade que a existente entre os grupos sediados em Madrid e na cidade do México.

ADO chegou-se à frente
Mesmo assim, o segundo maior grupo mexicano do sector dos transportes logo a seguir ao gigante Lamsa - o Grupo ADO - abriu os cordões à bolsa e passou um cheque pela Avanza que permitiu ao fundo Doughty Hanson recuperar os 600 milhões de euros que tinha investido na Avanza.

O Grupo ADO - que neste momento terá provavelmente pensado que o concurso do Metropolitano e da Carris foi feito "ahorita" - entrou assim com o seu primeiro pé no mercado espanhol a meio do verão de 2013.

O ADO foi fundado no ano em que eclodiu a Segunda Guerra Mundial e é detido por capitais 100% mexicanos. Como os espanhóis não morrem de amores por mexicanos, o Grupo ADO manteve a equipa de gestão espanhola na Avanza.

No México, a ADO gere uma frota de 6000 autocarros e tem 20 mil trabalhadores. Tal como acontecerá com parte significativa dos grandes grupos mexicanos - de onde é natural uma das maiores fortunas mundiais, a de Carlos Slim, e onde vivem grandes magnatas do sector petrolífero - o Grupo ADO também não é muito aberto a divulgar estratégias, nem a fazer alarde sobre o crescimento da sua faturação.

Ora, estes mexicanos são, verdadeiramente, os acionistas dominantes da Avanza, que acabou de ganhar a subconcessão da Carris e do Metro, "ahorita".

Sindicatos avisam que grupo que ganhou Carris e Metro tem problemas laborais em Portugal

Tiago Miranda

por LUSA

A Federação dos Sindicatos de Transportes e Comunicações (FECTRANS) alertou hoje que o grupo espanhol Avanza, que ganhou o concurso de subconcessão do Metro de Lisboa e da Carris, tem questões laborais "muito complicadas" em Portugal.

"É uma empresa que nós, FECTRANS, conhecemos muito bem, com a qual já temos um conflito laboral. Porque é uma empresa que em Portugal, na Covilhã, tem problemas muito complicados com os trabalhadores", afirmou hoje Anabela Carvalheira, dirigente daquela estrutura sindical, em declarações à Lusa.

Em 2009, o grupo Avanza concorreu e ganhou a concessão para gerir os transportes urbanos da Covilhã, em Portugal.

No início deste mês, os motoristas da Covibus realizaram uma greve de 48 horas para reivindicarem aumentos salariais. Na altura, em declarações à Lusa, Manuel Castelão, do Sindicato dos Trabalhadores de Transporte Rodoviários e Urbanos de Portugal (STRUP) referiu que a greve era "o último recurso dos trabalhadores perante o que tem sido a irredutibilidade da empresa relativamente à atualização salarial para valores que o sindicato considerava muito razoáveis".