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Teixeira dos Santos diz que já viu este filme: a Grécia a tombar e Portugal a tropeçar logo a seguir

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Luís Barra

Em entrevista à Renascença, o antigo ministro das Finanças diz que os cofres cheios de Maria Luís não serão suficientes para um braço-de-ferro prolongado com os mercados, caso a Grécia caia. E teme que “o início do fim da área do euro” esteja aí

Teixeira do Santos acredita que há "uma forte componente política" na questão grega e a postura de Varoufakis nas negociações com os credores pode ser "bluff". Em entrevista à Renascença, diz partilhar dos receios dos efeitos que a desagregação na zona euro terá para Portugal. E diz que pode mesmo ser o início do fim da era euro.

"Portugal não está imune do risco de, depois de a Grécia cair, poderem virar-se para outras economias que estão fragilizadas e pressentem ainda ter pesos elevados na sua dívida pública. E ele é sério", diz o antigo ministro das Finanças de José Sócrates, que esteve na linha da frente no pedido de assistência financeira em 2011.

Passos Coelho disse na quarta-feira que "não seremos apanhados desprevenidos" se a Grécia sair do euro, porque além de Portugal estar "preparado para qualquer situação", na Zona Euro "há mecanismos para responder".

Teixeira dos Santos diz que "já viu este filme". "Quando houve a crise da dívida soberana, e esta se agudizou em 2010, todos dizíamos que esta era uma questão só com a Grécia, que outros países da área do euro estavam fora de risco. E penso que o que entretanto se passou mostrou o quão enganados estávamos em relação à proteção que tínhamos e que pensávamos ter".

Embora sem uma exposição direta significativa à dívida grega, Teixeira dos Santos aponta os "riscos que vêm do agravamento das condições de financiamento para os países da periferia do euro".

Questionado sobre o tipo de proteção que a almofada financeira de 17,3 mil milhões de euros nos cofres do Estado português pode conferir, Teixeira dos Santos vê-a como a solução que apenas funcionará a curto prazo. Não só não chegará para resistir a um braço-de-ferro prolongado, como o sector privado também não vai escapar a problemas de financiamento. Além disso, salienta Teixeira dos Santos, o clima de pessissimo e incerteza em torno de uma saída poderá influenciar a procura, tanto no dia a dia das famílias, como de investimentos, acarretando consequências no crescimento económico.

O ex-ministro destaca outro ponto "relevante": "Numa perspectiva de médio e longo prazo, começamos a assistir a uma desagregação da moeda única que se pensava ser uma área coesa, sólida, com mecanismos de governação adequadas e de auxílio aos Estados-membros em situação de crise. O caso da Grécia vem-nos mostrar que nada disso existe e que a partir de agora a solução que se aponta é a saída do país da área do euro - e não procurar resolver os problemas de fundo que estão na origem". Teixeira dos Santos diz mesmo: "Este pode ser o início do fim da área do euro. Esse é o meu receio".

A questão grega encerra uma "forte componente política", não duvida. Quanto a Varoufakis, "é um especialista em teoria dos jogos". "Eu interrogo-me até que ponto é que não está aqui a jogar e a fazer um "bluff" forte neste jogo negocial com a Europa para que no fim possa haver uma cedência, ainda que pequena de parte a parte."