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Há mais empreendedores, mas poucos valorizam a ciência

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Estudo internacional de empreendedorismo revela que em Portugal a ciência continua a ficar de fora das empresas. Nos últimos 18 anos, a iniciativa empresarial aumentou, qualificou-se, tornou-se mais inovadora, mas a escassa valorização económica do trabalho intelectual e da produção científica ainda ainda é uma realidade entre as empresas nacionais

Catia Mateus

Catia Mateus

Jornalista

A valorização económica do conhecimento produzido pelas instituições científicas e tecnológicas portuguesas permanece insuficiente e muitos dos projetos desenvolvidos em solo nacional não chegam a sair da gaveta, com o número de patentes nacionais a fixar-se nos 0,6%, muito abaixo da média europeia (3,3%), por cada milhar de milhão de PIB. A conclusão resulta do Estudo Internacional de Empreendedorismo, realizado pela Associação Nacional de Jovens Empresários (ANJE) em parceria com a consultora B’TEN, inserido no Projeto Inovação Portugal. O documento, divulgado esta terça-feira no Porto, no âmbito das comemorações dos 18 anos da Academia dos Empreendedores, a estrutura de formação da ANJE, revela falhas na orientação prática da investigação conduzida em Portugal e na abertura das empresas a utilizar a ciência ao serviço da resolução de problemas.

“As universidades orientam uma parte significativa do seu esforço para questões com pouca aplicação prática e as empresas não utilizam o conhecimento científico produzido para resolver problemas, nem valorizam economicamente o esforço intelectual”, elenca Rafael Alves Rocha, diretor de comunicação da ANJE, que não tem dúvidas em afirmar que “dizer-se que Portugal investe pouco na inovação é uma falácia. Portugal está dentro da média da europeia nesta matéria. O problema reside na aplicação prática da inovação produzida e no facto de muita da investigação não chegar a sair da gaveta”.

Patentes nacionais longe da média europeia
Segundo o estudo, em percentagem do PIB, o gasto das empresas portuguesas em investigação e desenvolvimento (I&D) é de 0,7%, as despesas públicas em I&D representam 0,68% e os rendimentos resultantes de licenças e patentes do exterior ficam-se pelos 0,02%, fixando a intensidade de I&D em apenas 1,5% do PIB. Relativamente a pedidos de patentes por cada milhar de milhão de PIB, Portugal situa-se nos 0,6%, quando a média na UE é de 3,3%.  

“Uma boa parte do sucesso do processo de crescimento das startups está relacionada com a capacidade de captar recursos financeiros, técnicos e humanos. Por isso, o estudo considera que o aumento do capital disponível para investimento é crucial para uma cultura de valorização do risco, na medida em que fundos de pequena dimensão dão origem a carteiras pouco recetivas às propostas disruptivas, que podem ser mais arriscadas mas também game changers”, explica. A título de exemplo, refira-se que o investimento de capital de risco em startups está em Portugal muito abaixo dos 5% do PIB.  

O estudo aponta como essencial o reforço do investimento em projetos escaláveis e com uma forte orientação internacional. “Estes são os casos que todos os agentes do sistema financeiro de apoio ao empreendedorismo procuram, mas poucos são os operadores com capacidade para acompanhar segundas e terceiras rondas de investimento”, aponta o estudo, enfatizando a necessidade de criar uma nova cultura de análise de viabilidade de projetos empreendedores.

O documento,  que se sustenta num conjunto de 24 working papers de académicos, elaborados por investigadores da Universidade do Minho e da Universidade do Porto, especialistas em transferência de conhecimento em diversas áreas de atividade, aponta para a necessidade urgente de aproximar as empresas aos centros de conhecimento. No estudo reconhece-se o investimento nacional realizado, nos últimos anos, na criação de infraestruturas para acolhimento de iniciativas empresariais (de iniciativa pública e privada), hoje traduzido num vasto leque de incubadoras, espaços de coworking, centros de transferência de tecnologia e parques tecnológicos. “Falta agora acompanhar este enorme salto que foi dado em equipamentos com um esforço complementar na sua capacidade de gestão”, enfatiza Rafael Rocha.

Para o responsável, “os estudos de caso efetuados no âmbito desta análise evidenciam como o retorno do investimento é multiplicado sempre que as competências de gestão permitem criar uma atmosfera empreendedora numa infraestrutura de incubação, ou seja, a taxa de sobrevivência das empresas, os postos de trabalho criados, os volumes de investimento captados aumentam significativamente”. Acrescenta Rafael Rocha que “depois de nos últimos anos se ter feito um esforço reconhecidamente bem-sucedido na formação de pessoas com graus académicos de mestrado e doutoramento e da entrada de recursos muito valorizados na carreira de investigação, é agora tempo de estimular o encontro entre ciência e tecnologia com capacidade empresarial para inovar”.