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O que eles querem: 635 autocarros, 338 carruagens, 57 elétricos e sobretudo 1288 milhões de passageiros/km

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Crianças penduram-se num elétrico em Lisboa, aproveitando a boleia (Lusa)

Há quatro grupos estrangeiros e um português na corrida à subconcessão dos transportes de Lisboa - há quem deseje a Carris e o Metro em simultâneo e há quem só esteja interessado numa das empresas. Este é o retrato do que está em jogo

Um grupo português - a Barraqueiro, embora associada aos catalães da TCC - é o único com capitais genuinamente nacionais a concorrer à subconcessão dos transportes de Lisboa (e o grupo é liderado por um dos novos donos da TAP, Humberto Pedrosa). Ainda assim, apenas manifestou interesse pela operação da Carris, o que pressupõe ter considerado a operação do Metropolitano menos interessante para a gestão privada. 

Dentro de um mês será conhecido o vencedor, que será o grupo que apresentar melhor preço, ou seja, o valor mais baixo que o Estado terá de pagar pela gestão dos serviços da Carris e do Metro. Entre os passageiros das duas empresas, disputam um mercado anual superior a 1280 milhões de passageiros/km (o critério passageiro/km é a forma mais correta de contabilizar o número de passageiros transportados, impedindo que um passageiro que viaje apenas 1 km tenha o mesmo valor para uma empresa de transportes que um passageiro que viaja 5 km - por exemplo, quem viajar estes 5km conta como cinco passageiros).

Depois de 15 empresas do sector dos transportes terem levantado os cadernos de encargos para as subconcessões do Metro (para ser gerida por privados durante 8,5 anos) e da Carris (por 8 anos), mostraram interesse efetivo por estes serviços de transporte de Lisboa os parisenses da RATP, os britânicos da National Express, os espanhóis da Avanza, os franceses da Transdev (esta última fez uma proposta apenas para o Metropolitano de Lisboa) e o já referido consórcio Barraqueiro-TCC (mas só pela Carris).

Com 2555 trabalhadores, 635 autocarros, 74 carreiras que operam uma rede de 670 km, mais 57 elétricos de cinco carreiras que servem linhas em 48 km de ruas, a Carris é a operação de transporte mais complexa, atendendo à malha urbana em que se desenvolve. Também é a empresa com maior número de trabalhadores.

Além da Barraqueiro-TCC, estão interessados na Carris a RATP, a National Express e a Avanza, sendo expectável que não haja alterações substanciais no número atual de trabalhadores.

Tiago Miranda

O fator Silva Rodrigues
O ex-presidente da Carris, Silva Rodrigues, efetuou um trabalho de modernização nos mandatos em que geriu a empresa, tendo reduzido igualmente o número de postos de trabalho. O investimento que a empresa efetuou na modernização da frota - com a introdução de autocarros a gás natural - adequou a Carris aos padrões seguidos pelas empresas europeias do sector, pelo que a gestão privada não terá de efetuar alterações de fundo numa empresa que tem sido modernizada ao longo dos últimos 10 anos.

Silva Rodrigues, agora a trabalhar na Barraqueiro, também integra o grupo de gestores que preparou a candidatura conjunta Barraqueiro-TCC, o que dará uma mais-valia a esta proposta pelo conhecimento profundo que o gestor tem desta empresa.

Embora a Carris tenha perdido passageiros na última década - passou de 796 milhões de passageiros/km em 2004 para 542,5 milhões de passageiros/km em 2013 -, continua a ser uma empresa de referência a nível europeu, com uma imagem fortemente associada a Lisboa.

Os especialistas do sector dos transportes consideram que a gestão privada da subconcessão não efectuará cortes no número de trabalhadores da empresa, admitindo que o número anual de saídas por reforma será suficiente para atingir eventuais reduções adicionais. No entanto, considera-se que a empresa terá sempre de proceder a contratações para rejuvenescer o nível etário do pessoal.

Tiago Miranda

Serviço público será mantido
Também não é previsível que haja supressão de carreiras além das medidas de racionalização que foram anunciadas pela Carris, pois o caderno de encargos desta operação implica que sejam mantidas as carreiras fundamentais, com a frequência atualmente praticada, para ser cumprido o serviço público.

Qualquer das empresas concorrentes à gestão da Carris é especializada em transporte rodoviário urbano de passageiros e está habituada às regras de manutenção de frotas, que implicam que a idade média dos veículos não pode aumentar, ou seja, sabem que terão de investir com regularidade na frota de autocarros.

Quanto ao Metropolitano de Lisboa, com 1451 trabalhadores, que opera um serviço com 338 carruagens, quatro linhas, 55 estações, em 43,2 km de rede, apenas a Barraqueiro-TCC não apresentou propostas. Além dos três operadores igualmente interessados em gerir a Carris, também o gigante francês Transdev entregou uma proposta vinculativa.

O Metropolitano de Lisboa transportou 745,6 milhões de passageiros/km, sendo que cada passageiro efetuou um percurso médio de 5,3 km em cada viagem. Sob o ponto de vista do número de trabalhadores, a operação do Metropolitano é mais pequena que a da Carris.