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1, 2, 3... seis mil lojas do chinês

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A maioria das lojas na Varziela só vende quantidades mínimas no valor de €50

Paulo Duarte

A crise económica está a reduzir o número de ‘lojas do chinês’ em Portugal. Mas ainda há cerca de seis mil. E um novo conceito, que junta empresários para abrir lojas maiores e com imagem mais cuidada

Largo da Graça, nº 28. A morada, de tão repetida em anúncios na rádio e televisão, ficou como uma das memórias coletivas do país nas décadas de 80 e 90. Ali, no famoso largo lisboeta, situava-se desde 1971 a ‘casa-mãe’ da rede de lojas Moviflor, que depois se espalhou por todo o país. Mas a crise económica não poupou a empresa portuguesa de mobiliário, que em 2014 faliu. E a famosa loja passou à história. Manteve-se a morada, mudou o inquilino: hoje é uma enorme loja chinesa. 

No lugar nobre antes ocupado pela loja de móveis está agora instalada a Meilin, um exemplo claro do novo conceito de lojas chinesas: mais sofisticadas, diversificadas e organizadas, e sempre com direito a recibo no ato da compra. Aos artigos baratos e pouco duradouros que associamos às lojas chinesas, somam-se agora alguns produtos mais caros e de maior qualidade. “A concorrência entre lojas chinesas é muito forte e os donos perceberam que tinham de evoluir e melhorar a apresentação e a oferta”, explica o presidente da Liga dos Chineses em Portugal, Y Ping Chow. 

Na porta ao lado, permanece uma ‘clássica’ loja chinesa, a He Shi, que se instalou a cinco metros da antiga Moviflor há 15 anos. Lá dentro tudo se mantém praticamente como era no início, na altura em que subitamente o país começou a ser invadido por lojas de cidadãos do Império do Meio. Espaços cheios de longas prateleiras de metal onde se amontoam produtos baratos, desde roupas a pequenos utensílios e produtos utilitários. É uma como tantas outras, entre as seis mil lojas chinesas que existem em Portugal. São muitas, mas já houve mais. A crise também lhes bateu à porta e o número diminuiu, avança Man Hin Choi, o decano da comunidade chinesa em Portugal e presidente da Estoril-Sol.

A mãe do dono da loja He Shi prefere manter o anonimato, mas, atrás do balcão, não oculta o efeito principal da crise: a quebra nas vendas. “As pessoas compram menos e pensam mais antes de comprar”, assegura. Porque o desemprego e a redução de salários afetam o rendimento das pessoas que classicamente mais compram nos chineses — as que têm menos poder de compra. 

Y Ping Chow tem uma estimativa mais conservadora do que o seu compatriota Man Hin Choi quanto ao número de ‘lojas do chinês’ que existem hoje em Portugal. Recorda que fez, há anos, uma contagem e que o volume rondaria “as 5 mil lojas pequenas” e as poucas centenas de lojas grandes. Mas se hoje admite que o número de pequenos espaços diminuiu por causa da crise, também é lesto a apontar um sinal da resiliência desta atividade e que tem alavancado o aumento de grandes armazéns.

“As grandes lojas que têm surgido são de pequenos empresários que estavam em dificuldade e que se juntaram para investir”, diz, antes de pormenorizar o fenómeno. “A concorrência entre lojas chinesas é muito grande e quando abre uma loja grande numa zona, provoca o fecho dos pequenos. Estes depois juntam-se, fazem uma sociedade com uma gestão repartida e abrem uma loja grande.”

Paulo Duarte

Como funciona o negócio

Tal como acontecia no princípio é sobretudo a família que trabalha na He Shi, embora já por lá esteja um ou outro empregado extra. Já na Meilin há vários empregados, mas não foi possível abordar o dono, porque a resposta quando se pede para falar com o proprietário é a de que ele não está. Uma situação frequente. Man Hin Choi assegura: “Os chineses estão mais comunicativos e já contratam funcionários de fora da família e até estrangeiros”.

E quem são, então, os donos destas lojas? Y Ping Chow explica que depois da primeira vaga de aberturas de lojas — promovida pelos imigrantes que chegavam ao país —, os novos espaços que vão surgindo são sobretudo de pessoas que estavam empregadas noutras lojas, que “acumulam dinheiro durante uns anos e conhecem o mercado”. E mesmo que não tenham dinheiro suficiente para arrancar por conta própria “pedem emprestado a amigos” ou empresários, que podem, ou não, tornar-se sócios.

“Os exportadores e fabricantes chineses querem ter um papel neste mercado. Os pequenos empresários podem não ter capacidade para comprar o stock da sua loja, mas há um apoio que os fabricantes chineses dão aos clientes de confiança: fornecem o stock, o comerciante vende e só paga no fim”, resume Y Ping Chow. E ficam todos o ganhar. Porque os fabricantes e exportadores chineses garantem o escoamento dos seus stocks e, como acrescenta Man Hin Choi, esta é também uma forma de “testarem o feedback” aos seus produtos no mercado.

É nesta relação que reside, segundo os representantes da comunidade chinesa, um dos fatores críticos do sucesso destas lojas. “Os donos de lojas chinesas nunca tiveram apoios fiscais ou benefícios do Estado português. Os portugueses é que lançaram essa ideia, porque achavam  estranho um trabalhador de uma loja chinesa conseguir abrir uma loja ao lado daquela em que trabalhava. Mas o dinheiro vem da comunidade, que se apoia. E com a ajuda dos fabricantes na colocação dos produtos, o investimento inicial é mais barato”, diz Y Ping Chow. 

Paulo Duarte

Comunidade diversifica negócios

É também por isso que o número de lojas chinesas em Portugal disparou na última década por comparação com o número de restaurantes chineses. Porque se, segundo Chow, um restaurante implicará um investimento inicial mínimo na ordem dos €200 mil “que nunca se pagará antes de três a quatro anos”, esse montante aplicado numa loja grande “se calhar permite recuperar o investimento em sete ou oito meses, porque o volume de negócios é totalmente diferente”. 

Embora nos últimos anos o investimento chinês em Portugal seja motivo de debate pela chegada às grandes empresas — a partir de 2011, com a compra de 21,35% da EDP pela China Three Gorges —, os principais negócios da comunidade chinesa continuam a ser as lojas e os restaurantes, esclarece Man Hin Choi. Há também, em menor número, negócios no imobiliário, agências de viagens, advocacia e contabilidade. Uma parte deles cresceu graças aos vistos dourados, que já atraíram a Portugal 1909 investidores. Mas não é só isso. A comunidade chinesa é a sexta maior em Portugal, tinha 18.600 pessoas no final de 2013 e está a crescer – também precisa de serviços. Em Lisboa, que tem uma pequena versão de China Town na zona do Martim Moniz e Intendente, tornaram-se frequentes as placas com anúncios em chinês. Uma delas é de uma escola de condução. 

Na verdade, a comunidade chinesa está a expandir as áreas de atividade, um pouco por todo o lado. Em Beja, por exemplo, a assessora da direção da Associação do Comércio e Serviços do distrito de Beja, Maria Helena Cara Nova, conta que abriu há semanas uma mercearia explorada por chineses, perto da associação. “Tem zona de mercearia com produtos chineses, mas também fruta portuguesa e espanhola. E vendem pão alentejano”.

Basta voltar à antiga Moviflor para perceber este fenómeno. Porque os donos da concorrente do lado, a He Shi, também diversificaram os investimentos e adquiriram este ano o restaurante Churrasco da Graça, umas dezenas de metros ao lado da loja que exploram há 15 anos. Mudaram os donos, mas os empregados de mesa mantêm-se. É por isso normal que os clientes mais distraídos só se apercebam da mudança quando reparam que há chineses a assar os frangos.