Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Perguntas e respostas sobre o Netflix

  • 333

Chegada do Netflix costuma provocar ondas de choque no mercado de televisão paga. Portugal não deve fugir à regra. É apenas o início de uma revolução na forma de ver TV

João Ramos

João Ramos

Jornalista

O que é o Netflix?
É um serviço a pedido por assinatura que dá acesso ilimitado a um catálogo de séries e filmes que podem ser vistos no televisor, no computador pessoal ou no tablet através da internet, em streaming (o conteúdo não é armazenado e é reproduzido à medida que chega ao equipamento).  

Quanto custa?
O preço do serviço base em Portugal ainda não foi estabelecido, mas tudo indica que será €7,99, o valor que é praticado atualmente em França. Para visualizar em dois ecrãs custa €8,99 e para quatro ecrãs em alta definição custa €11,99. Os novos assinantes terão um mês de utilização gratuita. 

Como funciona?
Basta ir à página web (https://www2.netflix.com/global) num computador, na smart tv ou carregar a aplicação num tablet e fazer a inscrição. Ao contrário dos serviços de vídeo a pedido de IPTV (Meo ou Vodafone) ou TV Cabo (NOS), que permite alugar um conteúdo por algum tempo (geralmente 48 horas), o utilizador Neflix paga uma mensalidade e pode ver os filmes e as séries que quiser. O Netflix faz assim as delícias dos fãs da “Binge TV”, ou seja, os consumidores excessivos ou viciados no consumo de programas de televisão. 

Quais são as vantagens?
O Netflix é o principal representante da televisão não linear e dá ao espectador grande liberdade de escolha. Deixa de ser necessário esperar pela difusão do seu filme ou série preferida. Permite, por exemplo, ver na íntegra, durante o fim de semana, todos os episódios de uma temporada sem os inconvenientes e a ditadura da televisão clássica que obriga a esperar pela programação do dia ou da semana seguintes. E também não há as interrupções para publicidade. Outra das características que os utilizadores do serviço Netflix geralmente apreciam é a fluidez do seu interface. Ganha quase sempre aos sistemas de navegação dos serviços de video on demand dos operadores clássicos que costumam ser complexos e pouco intuitivos. O interface do Netflix incorpora ainda um motor de sugestões que é capaz de antecipar os gostos do utilizador, tal como a Amazon faz na sua loja eletrónica. Os vastos recursos financeiros que lhe permitem ter conteúdos exclusivos é outra das vantagens do Netflix. O preço relativamente baixo tem sido considerado uma das vantagens face aos outros sistemas de televisão paga (rede fixa ou satélite).

Quais são os pontos fracos?
A falta de notoriedade junto dos consumidores será a principal dificuldade inicial do Netflix.Uma dificuldade que a empresa irá procurar ultrapassar com companhas publicitárias em alguns meios digitais. A qualidade de serviço é uma potencial debilidade da marca americana, uma vez que depende da largura de banda da internet das redes dos operadores. Uma questão que se levanta sobretudo nos serviços de alta definição. Quando a rede não tem qualidade de serviço ou está saturada, a imagem pode ser pixelizada ou ficar parada por momentos. Nos EUA, onde o Netflix tem mais de 40 milhões de clientes, nas horas de maior audiência chega a consumir um terço da largura de banda (segundo estudo da Sandvine) dos operadores de internet. Esse problema já obrigou o Netflix a fazer acordos com alguns operadores (nomeadamente com os americanos AT&T e Verizon), para garantir largura de banda. Com isso, reacendeu o debate da neutralidade da rede, ou seja, a não discriminação dos conteúdos na internet. A existência de regulação e legislação hostil e protetora das indústrias locais de cimema (por exemplo, em França) são também pedras no sapato.

Quais são os concorrentes?
Em Portugal concorre, em sentido lato, com todos canais de televisão e com as plataformas de vídeo a pedido nos serviços de TV paga (NOS, Meo, Vodafone e Cabovisão). Noutros mercados tem concorrentes diretos como o HBO nos EUA, a BSkyB no Reino Unido ou o Canal+ em França. Estes fornecedores de TV paga viram o número de subscritores baixar com a chegada do Netflix. Os conteúdos de desporto e informação local, que não fazem parte do portefólio do Netflix, têm evitado quedas mais drásticas do número de subscritores dos incumbentes de TV paga. Nos EUA, o Netflix começa a ter concorrentes poderosos de TV streaming como é o caso da Amazon Prime Instant Video, Hulu, Now TV e Viaplay. No documento “Visão de longo prazo do Netflix”, a empresa considera o HBO o mair concorrente nos conteúdos. 

Onde está o Netflix a investir?
A empresa tem um departamento de investigação e desenvolvimento com mais de 1000 pessoas que está a trabalhar em novas funcionalidades e aplicações (apps) para manter o serviço à frente da concorrência (em 2015 investiu 500 milhões de dólares em tecnologia). Outra área importante nos próximos anos é a criação de conteúdos em alta definição e ultra-alta definição que tirem partido da nova geração de televisores inteligentes de alta definição (smartTV 4K). Este novo formato deverá começar pelas séries de culto como “House of Cards”. Para se distinguir de outras plataformas de TV paga, a empresa vai continuar a investir em séries exclusivas e de qualidade. Reed Hastings revelou ao Expresso que só este este ano serão investidos 3 mil milhões de dólares (€2,7 mil milhões) em conteúdos originais. E que vão ser investidos 600 milhões de dólares (€534 milhões) em marketing a nível mundial.

Quando terá o Netflix  presença global?
A presença em todo o mundo deverá estar concluída em 2016. O volume de negócios em 2014 atingiu os 5,5 mil milhões de dólares (€4,9 mil milhões). A capitalização bolsista ascende atualmente a 37,7 mil milhões de dólares (€33,5 mil milhões).

Quais são as datas-chaves na história 
do Netflix?
Em 1997, Reed Hastings, após vender a sua participação na empresa Pure Software, investiu 75 milhões de dólares (€66,7 milhões) no Netflix, um serviço de aluguer de DVD que eram expedidos pelo correio nos EUA. Em 1999, lança um serviço ilimitado (por 10 dólares tem-se acesso a todo o catálogo) que obtém grande sucesso. Em 2000, a  cadeia de lojas de aluguer de vídeos Blockbuster (que foi à falência em 2013) propõe a compra da empresa de Reed Hastings por 50 milhões de dólares (€44,4 milhões), mas este recusa. Em 2002, o Netflix já tem 600 mil subscritores e passa a ser cotada no Nasdaq a 15 dólares por ação (no final desta semana valia 622 dólares, ou seja, 41 vezes mais). Em 2007, Reed Hastings percebe que a distribuição por DVD não tem futuro e lança a distribuição pela internet (streaming). Em 2010, inicia a internacionalização no Canadá e na América Latina. Em 2012, chega ao Reino Unido. Em 2013, é apresentada a série “House of Cards”, a primeira lançada pelo Netflix. Torna-se um sucesso e ganha três Emmys.