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Netflix em Portugal: como, quando e porquê

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Reed Hastings, fundador e presidente-executivo do Netflix

O Netflix vai disponibilizar em Portugal o seu serviço de televisão através da internet a partir de outubro. Em entrevista exclusiva ao  Expresso por videoconferência, Reed Hastings, cofundador e presidente-executivo, explica tudo

João Ramos

João Ramos

Jornalista

Fundado em 1999 como um serviço online de aluguer de filmes em DVD, conheceu um sucesso fulgurante a partir de 2007, quando optou pela distribuição de conteúdos exclusivos (séries e documentários) e filmes através da internet (streaming). Hoje, a empresa sediada em Los Gatos (Silicon Valley) tem 62 milhões de clientes em todo o mundo e está a revolucionar a forma de ver televisão


Confirma a chegada do Netflix a Portugal este ano?
Sim, Portugal terá o serviço em outubro. Estamos muito entusiasmados. Após termos iniciado a operação em 2012 no Reino Unido, estamos a expandir aos outros países europeus. Mais recentemente disponibilizámos o serviço na Alemanha e em França. Agora chegou a vez de Portugal, Espanha e Itália. 

Por que razão o sul da Europa foi a última região da União Europeia a ter o vosso serviço?
A economia ficou mais forte nos últimos anos. E também a penetração de banda larga é alta e existem muitas pessoas que gostam de ver filmes e espetáculos na TV. Portugueses, espanhóis e italianos têm uma grande cultura de entretenimento e estamos na expectativa de os satisfazer. 

Espera que os consumidores portugueses que já subscrevem pacotes de TV paga adiram ao Netflix?
Sim. Nos Estados Unidos os serviços de TV paga (cabo e satélite) têm mais de 180 milhões de clientes, mas o Netflix já está presente em 40% dos lares americanos.

Alguns serviços de TV paga em Portugal já permitem ver televisão de forma não linear, ou seja, permitem ver programas que já passaram nos últimos sete dias. Esta funcionalidade poderá afetar a adoção do Netflix em Portugal?
Um dos efeitos do aparecimento de um serviço como o Netflix é que estimula os incumbentes a disponibilizar novas opções nos seus serviços de vídeo a pedido (video on demand). Em todas as geografias para onde vamos há sempre um efeito muito positivo para os consumidores, porque obriga os concorrentes a melhorar as ofertas.

O Netflix planeia fazer outros investimentos em Portugal?
Vamos ter em Lisboa o centro de suporte para o sul da Europa. A nossa equipa de gestão esteve em Portugal várias vezes para avançar com a criação deste centro de suporte para servir França, Itália, Espanha e Portugal. Lisboa é uma excelente cidade para viver e não é cara. A nossa agência local vai recrutar dezenas de pessoas de diferentes nacionalidades para trabalhar no centro.

Os portugueses terão os mesmos conteúdos que os espanhóis e italianos?
Portugal terá a mesma seleção de conteúdos originais e licenciados que já temos disponíveis em França.

Que obstáculos está o Netflix a encontrar na Comissão Europeia e nos países da União Europeia onde já atua?
Bruxelas está a fazer um excelente trabalho na criação de um mercado único, para que todos os cidadãos tenham acesso a todos os conteúdos. O nosso foco são os clientes em cada mercado. Queremos deixar claro o que propomos: ver televisão através da internet. Parece estranho a princípio. Por isso, propomos que as pessoas experimentem gratuitamente o serviço visitando a página www.netflix.com. Conseguimos ter forte adesão em vários países. Já temos 20 milhões de clientes fora dos Estados Unidos.

O Governo francês só permite ao Netflix colocar no seu catálogo filmes 36 meses depois de saírem das salas de cinema. Isto afeta o vosso plano de negócios na Europa?
Isso só acontece em França e é para proteger algumas distribuidoras de cinema. Alguns governos querem agradar aos seus eleitores e adotam medidas anticoncorrência. Não querem que o Netflix agite o mercado e que obrigue os incumbentes do mercado de TV paga a trabalharem melhor.

Esta proteção do mercado do cinema é um incentivo à pirataria?
Uma das grandes vantagens do serviço do Netflix é ser muito barato — custa €7,99 nos países europeus onde já atua — que é uma forma de evitar a pirataria de filmes e séries. Além disso, é um serviço muito fácil de instalar e usar.

O Netflix vai fazer acordos com os operadores portugueses para ter largura de banda?
Não é essencial, embora tenhamos feito acordos com alguns operadores nos Estados Unidos e noutros países. Por vezes, quando nos ligamos diretamente a qualidade fica melhor. Mas a questão do licenciamento de conteúdos é um tema bem mais importante.

Haverá conteúdos específicos para países latinos, por exemplo, Portugal ou Espanha?
Temos conteúdos que foram criados em países como a Colômbia, México ou França (é o caso da série “Marselha”). Mas só nos interessam as séries, os documentários e os espetáculos que tenham apelo para todo o mundo. Queremos ter boas histórias como a que o realizador brasileiro José Padilha criou com “Tropa de Elite”. Ele é fantástico e está a dirigir a rodagem na Colômbia da série “Narcos” (sobre o traficante Pablo Escobar).

O Netflix é uma marca provavelmente pouco conhecida de alguns segmentos da população portuguesa. Como vai ser promovida?
Logo após o lançamento em outubro, faremos anúncios online e rapidamente as pessoas que usam a internet ficarão familiarizadas com a marca.

O Netflix tem como objetivo conquistar o mundo? Quando chegará aos restantes países?
Esperamos chegar a todo o mundo nos próximos dois anos. Teremos uma baixa penetração no princípio, mas prevemos crescer nos anos seguintes. Teremos muita concorrência porque hoje é muito fácil criar uma rede de TV paga. No futuro haverá muitas alternativas para ver conteúdos de televisão, através de apps no televisor, no PC, no tablet ou no telemóvel.

Como vai lidar com questões de censura em alguns mercados? 
À medida que o Netflix cresce no mundo terá de balancear as questões de censura. No início, quando apresentámos os nossos primeiros produtos, essa questão não se levantava.

Quando vai o Netflix entrar na China? Será através de um parceiro local? 
Ainda não está decidido. Há diferentes opções em cima da mesa.

Quanto prevê o Netflix investir em conteúdos este ano?
A nível global, vamos investir este ano três mil milhões de dólares.