Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Receita de Catroga .Sucesso do país “depende da atração de investimento produtivo”

  • 333

Tiago Miranda

Eduardo Catroga defende um acordo de regime entre os partidos do arco do poder em seis políticas fundamentais

É essencial, qualquer que seja a solução governativa,  que os partidos do arco do poder (CDS, PSD E PS) “convirjam em seis políticas estruturais fundamentais”: Cumprimento dos compromissos assumidos face aos mercados credores; Reforma estrutural da despesa pública e da segurança social; Política fiscal adequada para atração de poupança e investimento; Sistema de justiça; Funcionamento flexível dos mercados de trabalho, de bens e serviços; Sistema de concorrência e regulação.

O recado foi deixado pelo ex-ministro Eduardo Catroga, atual chairman da EDP, na conferência sobre “As grandes mudanças da Economia Nacional”  que ontem à noite proferiu na Porto Business School/ Escola de Gestão do Porto.  Na sua exposição, Catroga  articulou um conjunto de ideias que poderiam estar na base de um programa de governo da atual coligação.

Reduzir carga fiscal
A sustentabilidade das finanças públicas “obriga uma reforma estrutural mais profunda da despesa, em volume e em qualidade”, o que exigirá “um esforço realista  quanto ao aprofundamento das reformas do Estado e da Segurança Social”. Segundo Catroga, é preciso garantir “saldos primários orçamentais consistentemente positivos” nos próximos anos. O ex-ministro das Finanças adverte que “Portugal terá de reduzir a carga fiscal exagerada” que antes da crise, já era elevada. O programa de ajustamento “conduziu a um aumento adicional  nesse indicador”, ficando Portugal em 25º lugar em 31 países.

Na sua intervenção de uma hora, ilustrada por imensos gráficos e slides, Catroga  defendeu a necessidade de consolidar a correção dos défices externos já iniciada,  a alocação de recursos nos sectores expostos à concorrência internacional, a seleção criteriosa de investimentos (públicos e privados) tendo em conta a sua reprodutividade e um modelo de crescimento “assente num aumento das exportações com maior conteúdo tecnológico e de inovação” e não “no excesso de consumo público e privado”.

Combater “os efeitos da inversão da pirâmide demográfica e, se possível, travar esta alteração” e promover “o crescimento do emprego e o aumento da taxa de participação”, através do  aumento do investimento produtivo e do empreendedorismo foram outras medidas apontadas por Eduardo Catroga.

Medidas para reforçar a competitividade
Na frente das estratégias competitivas, as ações devem reforçar “ a eficiência operacional”  (aumento de escala, melhoria dos custos operacionais e  otimização dos custos energéticos), a diferenciação de produtos e processos, Estratégias de internacionalização, Melhoria da estrutura financeira das empresas  e reforço do investimento produtivo.

Sobre os custos energéticos, o chairman da EDP lembrou que pelo seu peso reduzido (3% em média) nos custos da indústria “não é um fator determinante na competitividade global” e que as empresas electrointensivas, como cimento ou pasta e papel, “devem dotar medidas para evitar o desperdício de recursos”.

Com a descida do preço do petróleo (20 euros por barril desde meados de 2014 e a desvalorização  do euro (20% em 12 meses) Portugal e a Europa  “ganham espaço para aprofundar as reformas estruturas” que não devem desperdiçar. Portugal já fez um esforço notável “na redução do défice estrutural (ajustamento de 6,8% em quatro anos, o melhor desempenho a seguir à Grécia) mas tem de prosseguir este trajeto.

Eduardo Catroga admite um menor crescimento das exportações em 2015 “pelo efeito temporário da desaceleração de Angola e da crise do petróleo”.

Entre 2000/14, o peso das exportações de média/alta tecnologia aumentaram 12%, mas a indústria portuguesa tem espaço para crescer nos produtos com conteúdo tecnológico e de inovação.

“Nada permite concluir que só os países de maior dimensão podem progredir”, notou Catroga para deixar uma mensagem de otimismo. Existem exemplos de sucesso de pequenos países, na Europa e Ásia que Portugal poderá replicar.

Portugal “tem recursos para construir o seu futuro em bases sólidas, com boas políticas públicas e empresariais”.

O sucesso da estratégia económica “dependerá da nossa capacidade para encorajar e atrair investimentos produtivos, em concorrência com as localizações alternativas hoje disponíveis à escala global”, nota o professor.

Programas comparados
Na conferência, Eduardo Catroga dedicou-se ao exercício de comparar o programa do Governo PSD/CDS com as propostas dos sábios do PS. E, concluiu que “o programa PS aponta para objetivos de crescimento mais agressivos”, assenta “no modelo de aumento mais rápido do rendimento disponível, implicando um maior nível de consumo, investimento e emprego”, apostando num “ritmo mais lento da redução do défice e da dívida”.

Catroga elogia as “boas medidas na área do mercado de trabalho” do programa do PS, verifica “uma deficiente perceção de que o período de ajustamento foi por causa dos problemas da economia que agora se colocam” e que adverte que o modelo macroeconómico subjacente “assenta em pressupostos econométricos sempre falíveis”.