Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Grécia. Paga ou não paga?

  • 333

O clima amigável entre Lagarde e Varoufakis, no Eurogrupo em fevereiro, pode não se repetir se Atenas falhar pagamentos em junho


Francois Lenoir / REUTERS

O FMI pode ser o primeiro credor oficial a sofrer um incumprimento grego. A pressão é cada vez maior.

Junho é apontado como o mês da prova dos nove na Grécia. A extensão por quatro meses do segundo programa de resgate termina daqui a um mês e o Tesouro grego tem uma sequência de quatro cheques para enviar para o Fundo Monetário Internacional (FMI) que totalizam cerca de €1600 milhões. 
A questão é saber como “espremer sangue da pedra”, na expressão do ministro das Finanças helénico, Yanis Varoufakis, e encontrar os euros para financiar esta amortização a um importante credor oficial. O arrastar das negociações em Bruxelas não perspetiva o envio oportuno de uma  tranche do programa de resgate em atraso desde agosto do ano passado (pelo menos €1,8 mil milhões, da parte dos fundos europeus) ou os lucros com as obrigações gregas obtidos pelo Eurossistema em 2014.

O primeiro cheque, de mais de €300 milhões, terá de ser enviado a 5 de junho, depois de uma semana que se afigura crítica para o desenrolar das negociações entre o Governo helénico e os credores oficiais e em que o Banco Central Europeu (BCE) reúne já a 3 de junho em Frankfurt com o impasse grego no menu. 

Os mísseis do BCE

O BCE tem uma faca afiada na mão ao decidir semanalmente o aumento do teto de financiamento de emergência a que podem recorrer os bancos gregos junto do banco central helénico — através da linha conhecida pela sigla inglesa ELA. O teto desta linha subiu a 20 de maio para €80,2 mil milhões (ver gráfico) e não foi aumentado esta semana.

O banco central em Frankfurt dispõe de mísseis que empurrarão a banca grega para uma situação de catástrofe: o aumento dos haircuts (um desconto à cabeça no montante emprestado) em relação aos colaterais que aceita tornando o financiamento da banca insustentável, como preliminar a um corte, de vez, do tubo de oxigénio da ELA, e continuar a recusar o aumento do teto de emissão de Bilhetes do Tesouro, liquidando a esperança do Governo de Atenas em vir a poder usar esta única via de acesso ao mercado de capitais para se financiar. As reuniões do BCE e os sinais dados por Mario Draghi, o presidente do banco central do euro, são, por isso, seguidos pelos meios financeiros ao pormenor. Draghi dispõe de um poder político crítico sobre a economia grega, tanto mais que sabe que €6,7 mil milhões em amortizações de obrigações gregas que detém em carteira vencem em julho e agosto. Para o analista grego Yannis Koutsomitis, “a exclusão prática da Grécia do Eurossistema, será uma Grexit de facto, ainda que não de jure”.

Com o ofício desta semana do ministério das Finanças grego, com carimbo de “extremamente urgente”, assinado por Dimitris Mardas, o ministro-adjunto, obrigando todas as agências do Estado com quase 1200 contas em bancos comerciais a transferir os depósitos para o Banco da Grécia, os analistas encaram como provável que o primeiro cheque siga para Washington. O problema são os cheques seguintes. “Penso que o Governo grego arranjará forma de pagar a 5 de junho. No entanto, há que ver como evolui a receita fiscal em maio e a reação dos depositantes nos próximos dias”, refere-nos Manos Giakouminis, do site grego independente ‘Macropolis’. A situação económica agravou-se com uma recaída na recessão no último trimestre de 2014 e a continuação da queda do PIB no primeiro trimestre de 2015.

Falhar ao FMI não implica 
expulsão do euro

Com este pano de fundo, multiplicam-se as especulações sobre a probabilidade de um incumprimento parcial da Grécia na dívida externa na mão de credores oficiais, em junho no caso do FMI, e em julho e agosto no caso de juros e amortizações de obrigações (mais de €7,6 mil milhões) detidas em carteira pelo BCE e pelo Eurossistema, adquiridas entre 2010 e 2012. Sintoma deste temor, ao longo de maio, o custo de financiamento dos seguros contra um incumprimento de dívida pública (designados tecnicamente por credit default swaps, CDS no acrónimo) subiram 45%, com o preço, em mais de 3600 pontos-base, a aproximar-se perigosamente da situação da Venezuela.

No entanto, há que ter em conta que um incumprimento parcial de dívida a um credor oficial não desencadeia automaticamente uma saída do euro (a tão falada Grexit) nem implica necessariamente uma decisão pela ISDA (International Swaps and Derivatives Association) de que a Grécia incorreu num “evento de crédito” (que desencadeará o pagamento dos CDS) ou um imediato corte da notação da dívida de longo prazo grega para o nível de incumprimento pelas agências de rating. “A ISDA só considera incumprimentos em relação a credores privados. Não há precedente de declaração de um evento de crédito no caso de incumprimento a um credor oficial. Mesmo o não pagamento das amortizações ao BCE logo em julho não é certo que force a ISDA a agir”, sublinha-nos Koutsomitis.

Contágio, avisa o BCE

No caso de um incumprimento pontual nas datas de amortização com o FMI, os procedimentos do Fundo permitem dois meses de manobra (ver artigo) até que uma queixa contra o país incumpridor avance formalmente, ainda que o sinal dado possa gerar efeitos “colaterais” nos mercados financeiros levando ao disparo do risco de incumprimento da Grécia (que já está acima de 70%) e do juro até à maturidade de toda a dívida obrigacionista helénica (que ronda os 12%) e empurre Draghi para uma decisão drástica.  Um processo ‘cruzado’ poderá levar, então, os restantes credores oficiais, e mesmo privados (ainda que estes detenham apenas 12,5% da dívida), a exigir o pagamento imediato das dívidas, o que provocará um efeito de aceleração na crise da dívida.

Outro efeito colateral será o contágio aos mais vulneráveis do euro. O próprio relatório semestral do BCE sobre Estabilidade Financeira, publicado esta semana, é muito claro: “Na ausência de um acordo rápido [entre a Grécia e os credores oficiais] nas necessidades de implementação estrutural, o risco de um ajustamento do prémio de risco exigido em relação aos emissores de dívida soberana vulneráveis na zona euro poderá materializar-se”.