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Draghi não quer governos a voltar às políticas orçamentais pré-crise

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FOTO JOHN THYS/AFP/Getty

Presidente do BCE explica que usar bem a política orçamental é ter medidas “amigas do crescimento”. Vice-presidente da Fed, no mesmo debate, avisa que o seu mandato é doméstico mas que o que é bom para os EUA é bom para o mundo.

O presidente do Banco Central Europeu (BCE) voltou hoje à polémica que desencadeou no verão passado em Jakcson Hole nos EUA, na reunião anual da Reserva Federal (Fed), quando falou na necessidade de a politica orçamental ajudar no combate ao risco de deflação na zona euro. Questionado pela diretora da revista The Economist, Zanny Minton-Beddoes, durante um painel de debate com o governador do Banco do Japão (BoJ), Haruhiko Kuroda, e o vice-presidente da Fed, Stanley Fischer, Mario Draghi lembrou que o objetivo era sublinhar apenas a dificuldade que o banco central estava a ter para lidar com o problema e não um apelo a politicas despesistas

“Não queremos isso, queremos expansão orçamental amiga do crescimento”, disse Draghi, lembrando que, “se olharmos para o período pré-crise verificamos que tipo de políticas foram seguidas em vários países”. Politicas que passaram pelo aumento da despesa, corte no investimento e aumento de impostos.

Kuroda trouxe a visão japonesa, onde a economia lutou durante duas décadas contra a deflação. Nesse caso, ao contrário da zona euro onde há um banco central mas 19 políticas orçamentais nacionais, há uma coordenação direta entre os dois braços da politica económica: “O governo e o BoJ acordaram um conjunto de politicas para chegar à meta de 2% de inflação. No curto prazo, o governo faz expansão orçamental e consolida no médio prazo”

Já Stanley Fischer diz ser “perfeitamente aceitável falar de défice orçamental”, mas prefere “falar em alocação de recursos do Estado dentro da dimensão de que pode ter numa perspetiva de crescimento”. E aproveita também para sublinhar, a propósito dos efeitos brutais que a política da Fed teve – e terá – na economia mundial, que “o nosso mandato é puramente doméstico” e que “o melhor serviço que podemos fazer ao mundo é manter a economia americana na melhor forma que conseguirmos”

E as reformas estruturais?
A expressão reformas estruturais é uma das expressões que fica destes três dias de Fórum do BCE em Sintra. Foi o tema da intervenção de Mário Draghi na manhã de ontem, foi o assunto que dominou o debate de hoje e continuou a ser discutido à mesa dos banqueiros centrais. Neste caso, três banqueiros que representam três das moedas mais poderosas do planeta: euro, dólar e iene.

Houve quem tivesse criticado Draghi por ter feito recomendações de políticas que são da responsabilidade dos governos. O banqueiro italiano rejeitou as críticas e aproveitou para lembrar: “Antes da crise precisávamos que os banqueiros centrais tivessem falado mais sobre estabilidade financeira e não falaram”. E insistiu na necessidade de reformas estruturais como complemento das políticas monetária e orçamental mais cedo do que mais tarde: “Não há melhor momento para a reforma certa do que agora”.

No caso dos EUA, Stanley Fischer foi mais longe e falou em investimento público em infraestruturas, cuja falta um “aspeto negativo” na economia norte-americana. “Basta andar em comboios ou aviões na Europa para perceber a diferença”, referiu lembrando que a Fed tem insistido mas não tem acontecido.

Questionados sobre os efeitos das políticas monetárias na desigualdade, até porque juros próximos de zero significam rendimentos muito baixos para os aforradores, todos reconhecem esse problema mas preferem ver o lado positivo. “É preciso ver o efeito para a economia como um todo”, diz Fischer para quem o prioritário é acelerar o crescimento e “não há muito mais do que a politica monetária e orçamental” para o fazer. “Há consequências para os aforradores mas o melhor é recuperar o crescimento”, acrescenta Draghi para quem “a melhor forma de melhorar a igualdade é o emprego”.

Meta de inflação mais alta não convence
Um debate recorrente é a subida da meta de inflação dos bancos centrais que animou o Fórum do BCE do ano passado. No caso da zona euro, a meta está em 2% e há quem defenda que um aumento para 4% pode ajudar a afastar o fantasma da inflação, como é o caso do economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, Olivier Blanchard.

Discute-se igualmente a possibilidade de haver um duplo mandato em que, além da estabilidade dos preços, os bancos centrais devam dar igual importância ao andamento da economia, olhando para o desemprego ou para o hiato do produto (desvio em relação ao potencial) por exemplo.  

Kuroda afasta qualquer mudança e é perentório: ““2% é apropriado para nós”. Fischer acrescenta: “Um duplo mandato é pouco significativo”. Draghi remata: “Temos muita investigação a apontar para 2% e este número provou ser bastante útil”.