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A receita anticrise de Draghi: reformas estruturais, reformas estruturais, reformas estruturais

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Bazuca. Mario Draghi anunciou programa na semana passada. Já se conhecem mais detalhes do seu funcionamento

Reuters

Presidente do BCE lembra que a política monetária ajuda, mas sem medidas estruturais o potencial de crescimento da economia não aumenta. Mesmo que a zona euro tenha atualmente as melhores perspetivas em sete anos.

Mário Draghi abriu as hostilidades no Fórum do Banco Central Europeu (BCE) em Sintra com um discurso em que a tónica foram as reformas estruturais. O tema do encontro é inflação e desemprego – e foi o que animou as discussões académicas entre nomes ilustres como Olivier Blanchard (do FMI), Peter Praet (do BCE) ou Jordi Gali (economista catalão) toda a manhã, que se ‘entreteram’ a analisar o trade-off entre as duas variáveis – mas Draghi preferiu insistir nas reformas estruturais como forma de ajudar a zona euro a ultrapassar a crise.

“A expressão ‘reformas estruturais’ é mencionada em aproximadamente um terço dos discursos dos vários membros do board do BCE”, começou por dizer. Lembrando, no entanto, que esta insistência não tem a ver com o facto de não ter havido reformas nos últimos anos – “temos elogiado os progressos onde eles tem existido, incluindo aqui em Portugal”.

Para o presidente do BCE, “as perspetivas económicas são hoje melhores do que foram durante sete longos anos”, “a política monetária está a ter o seu impacto na economia”, “o crescimento está a recuperar” e “as expectativas de inflação recuperaram do seu fundo”.

Dito assim, parece estar tudo a correr bem. Qual o problema então? Draghi explica: “A recuperação cíclica da economia sozinha não resolve todos os problemas da Europa. Não elimina o excesso de dívida que afeta algumas partes da União. Não elimina o elevado nível de desemprego estrutural que assombra demasiados países. E não elimina a necessidade de aperfeiçoar o desenho institucional da nossa união monetária”.

A recuperação cíclica dá, sim, espaço para os governos atuarem no lado das reformas estruturais que ajudem o regresso do crescimento. Ao contrário do que fez o ano passado em Jackson Hole, no encontro anual da Reserva Federal dos EUA, quando defendeu maiores estímulos à procura agregada - o que em economês significa defender politicas keynesianas – agora olhou para o lado da oferta da economia.

“A política monetária pode levar a economia de volta ao seu potencial. As reformas estruturais podem aumentar o potencial. E é a combinação de politicas do lado da procura e da oferta que podem trazer estabilidade e prosperidade duradouras”, sublinhou.

Ainda que, à primeira vista, as recomendações de Draghi pareçam estar fora do tema da conferência, não deixam de tocar num dos pontos fulcrais. Os diversos economistas que foram desfilando esta manhã debruçaram-se sobre a chamada curva de Phillips que relaciona inflação e desemprego. No caso concreto, o debate centrou-se na comparação entre EUA e zona euro, onde o desemprego é atualmente mais do dobro, e também no comportamento desta relação quando a inflação está próxima de zero ou mesmo negativa.

O presidente do BCE preferiu olhar para uma possível saída para o cenário de elevado desemprego e perspetivas de fraco crescimento neste ambiente de juros e inflação bastante baixos.

O que são reformas estruturais?

“A melhor definição de reformas estruturais é, na minha perspetiva, como políticas que alteram de forma permanente e positiva o lado da oferta da economia”, sublinhou Draghi. São reformas que têm dois efeitos: “aumentam o produto potencial” e “tornam as economias mais resistentes a choques ao facilitarem a flexibilidade de salários e preços e a realocação de recursos”.   

Em termos de impacto no crescimento potencial que “algumas instituições internacionais estimam que esteja abaixo de 1% na zona euro, comparado com um valor acima de 2% nos EUA”, o banqueiro central lembra estimativas da OCDE que apontam para um ganho de 11% no PIB per capita de um país médio da União Europeia ao fim de dez nos pela adoção das melhores práticas em áreas como mercado de trabalho, segurança social ou política fiscal.

A receita de Draghi para reformas com maior impacto no curto prazo passa, por exemplo, por facilitar o investimento, a criação de empresas ou a resolução de problemas de insolvência. Para efeitos de longo prazo, os alvos são os habituais: regras laborais, proteção social, mercado de produto, entre outras.