Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Portugal emite dívida a taxas negativas. O que leva os investidores a comprarem títulos tão pouco atrativos?

  • 333

Segundo os especialistas, Portugal continua a ser uma das melhores hipóteses de investimento entre os países da zona euro, mesmo com taxas de juro baixas

Tiago Miranda

O Estado português colocou esta quarta-feira 1500 milhões de euros em Bilhetes do Tesouro, com a taxa a seis meses negativa. É um mínimo histórico na emissão neste prazo. Não se pode deixar de dizer que o resultado é "positivo", embora o efeito global seja "relativamente pequeno", segundo especialistas ouvidos pelo Expresso.

Portugal colocou esta quarta-feira pela primeira vez Bilhetes do Tesouro a taxas negativas. Segundo a Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública (IGCP), foram colocados 1500 milhões de euros com a taxa de juro média a 12 meses fixada em 0,021% e a taxa média a seis meses fixada em -0,002%.

O sucesso do leilão de dívida foi até enaltecido durante o debate quinzenal realizado durante a tarde pelo primeiro-ministro. Mas o que leva os investidores a comprarem títulos tão pouco atrativos? Qual é a lógica?

"Do ponto de vista dos investidores não é atrativo, parece pouco racional, mas é positivo para os Estados. Não há assim uma justificação muito lógica para este tipo de operações. É mais fácil explicar em termos gerais: imagine-se, por exemplo, que existe um investimento que tem que ter uma determinada percentagem de obrigações e a carteira obriga que mesmo com taxas de juro pouco atrativas esse investidor tenha que comprar dívida para cumprir a política de investimento. Isso explica a compra de títulos pouco atrativos a nível global", diz ao Expresso Rui Bernardes Serra, economista-chefe do Montepio Geral, apontando para fundos de investimento e de pensões com exigências regulamentares.

Mas relativamente ao sucesso do leilão de dívida desta quarta-feira, segundo este especialista pode dizer-se que traduz alguma confiança na economia portuguesa, embora tenha um impacto diminuto no que diz respeito à redução da dívida.

 "Na margem, o resultado do leilão é sempre favorável, ou melhor, é ligeiramente favorável uma vez que o efeito global é relativamente pequeno", sublinha. 

Na manhã desta quarta-feira, Portugal colocou 300 milhões de euros na  linha de Bilhetes do Tesouro com maturidade em novembro de 2015 e mais 1200 milhões de euros na linha de Bilhetes do Tesouro com maturidade em maio de 2016 -  montantes praticamente inexpressivos relativamente ao total da dívida pública.

Impacto quase invisível quanto à dívida global
"O montante que foi alvo de leilão é inferior a 1% [à dívida total], não tem impacto significativo na redução da dívida. Para os contribuintes não significa nenhum alívio expressivo quanto ao esforço orçamental que o país tem que fazer.  Mas o leilão foi bem-sucedido, disso não há dúvida, cumpriu os objetivos, com uma taxa alinhada com os interesses do Governo e do IGCP", afirma ao Expresso João Pereira Leite, diretor de Investimento do Banco Carregosa. 

Os Bilhetes do Tesouro a seis meses foram emitidos a um preço médio de 100,001 euros, sendo que o Estado português recebeu este montante e só vai ter entregá-lo daqui a seis meses. "Isto é pedir dinheiro emprestado a custo zero", frisa por sua vez Filipe Silva, diretor da Gestão de Ativos do Banco Carregosa.

Segundo os especialistas, Portugal continua a ser uma das melhores hipóteses de investimento entre os países da zona euro, mesmo com taxas de juro baixas. Por outro lado, estes níveis de taxas de juro contribuem para a descida do custo médio da dívida portuguesa, o que também é positivo.

"É um pouco acompanhar a tendência de taxas negativas no resto da Europa, iniciada com a Alemanha. E resulta do Banco Central Europeu [BCE] ter taxas de depósitos com valor negativo, que acabou por contagiar a dívida alemã e de forma sucessiva as economias do centro e agora mais da periferia", indica Rui Bernardes Serra.

O resultado do leilão de quarta-feira é reflexo do plano de compras de ativos do BCE, não espelhando em exclusivo a realidade portuguesa. "Portugal continua a ser atrativo - apesar do rating da dívida continuar em lixo - face a outros países da zona euro, sem contar com a Grécia, pois estamos a falar na base dos que obviamente se acredita que vão pagar", realça João Pereira Leite.

Objetivo: injetar mais liquidez na economia
O programa Quantitative Easing (Flexibilização Quantitativa) do BCE constitui uma opção  política monetária orientada para cenários de baixo crescimento económico, possibilitando que bancos e investidores possam vender títulos de dívida ao banco central. 

"O programa do BCE, ou a 'bazuca' do BCE como também foi apelidado, que tem como objetivo injetar liquidez na economia, retira todo o benefício para os investidores em crédito. Com as  taxas de juro baixas, o imobiliário, que é o principal investimento das famílias portuguesas e da zona euro, torna-se mais atrativo assim como outras áreas e, por sua vez, o consumo", conclui  João Pereira Leite.

Foi a 22 de janeiro que o BCE, pela voz do seu líder Mario Draghi, anunciou um programa de compra de 60 mil milhões de euros em ativos por mês, possibilitando aos bancos vender títulos, ficando com mais dinheiro disponível nomeadamente para a concessão de crédito, tornando o dinheiro mais barato para as empresas e para as famílias. 

Em meados de junho, o Estado português deverá realizar mais dois leilões de Bilhetes do Tesouro, com maturidades de três e 11 meses e um montante entre 1000 e 1250 milhões de euros.