Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Toque feminino na obra da Pousada de Lisboa

  • 333

Ana Melo, diretora técnica 
da obra, no salão nobre com teto 
e paredes revestidos a folha 
de ouro. “A reabilitação não pode ser uma intervenção plástica”, frisa

Jose Ventura

Reabilitação Soares da Costa recupera ao detalhe o edifício do Terreiro do Paço onde o grupo Pestana abre a 25 de maio a unidade hoteleira, que até tem peças do Museu da Cidade no interior

Após 17 meses seguidos a andar de capacete e “cheia de pó”, Ana Melo, engenheira da Soares da Costa e diretora técnica da obra da Pousada de Lisboa, vê a missão quase cumprida. O projeto hoteleiro do grupo Pestana no Terreiro do Paço, que envolveu €9 milhões, está na reta final de construção e recebe os primeiros hóspedes a 25 de maio. “Esta é uma obra muito feminina”, com várias mulheres a comandar, como também é o caso da sua adjunta ou das responsáveis de segurança e ambiente, afirma.

Um batalhão de trabalhadores dá os retoques finais nos cinco pisos do edifício pombalino que albergou a Polícia e o Ministério da Administração Interna, onde a ex-esquadra é agora o lounge da Pousada com 90 quartos e o antigo refeitório do ministério deu lugar ao Spa. “Este é um grande projeto de reabilitação, num edifício emblemático do coração de Lisboa”, faz notar a diretora da obra, cuja meta foi “devolver ao edifício tudo o que tem de valor” — o espaço foi massacrado por anos de mau uso. Os tetos em abóbada do restaurante da Pousada estavam danificados com cabos de infraestruturas, as cantarias das escadas “tinham cimentos e pinturas por cima, tudo aquilo que não se deve fazer”, as paredes dos atuais quartos em boiserie (madeira de carvalho) estavam cheias “daquele verniz horrível”. Recuperar tudo, até lustres ou vitrais, “exigiu muita mão de obra, e qualificada”.

Para Ana Melo, “a reabilitação não pode ser uma intervenção plástica, deve ser feita sem complexos e assumir pequenas torturas que fazem parte da história do edifício, a aresta que não é perfeita ou a soleira que ficou côncava. Também isso é a autenticidade do edifício e deve ser apreciado”.

Um ex-líbris da nova Pousada é o salão nobre no primeiro andar, onde uma equipa especializada levou um mês a revestir teto e paredes com folha de ouro. Será lá mantida a mesa onde Salazar reunia com os ministros, e o desafio foi tirar da vista ares condicionados e detetores de incêndio. “É uma sala do século XIX com tecnologia do século XXI”, frisa a diretora da obra, que trabalhou de perto com o arquiteto Jaime Morais, a quem se deve a opção das carpetes em roxo eclesiástico no interior. “O espaço tem toda a carga da arquitetura pombalina. Introduzi um tom muito forte para criar uma atmosfera, uma pincelada de cor que tivesse um ar quase espiritual. De resto, é tudo muito contido”, explica Jaime Morais, chamando a atenção para as estátuas nos corredores da zona dos quartos, lembrando a galeria Uffizi em Florença.

Tomar o pequeno-almoço ao lado dos painéis de São Vicente
Na decoração da Pousada de Lisboa, destacam-se algumas obras do Museu da Cidade que estavam em armazém, designadamente peças feitas para a exposição Mundo Português nos anos 40 — e também elas tiveram de ser recuperadas. As réplicas dos painéis de São Vicente revestem o pátio central que será espaço de refeições, agora com chão de calçada portuguesa. Por baixo deste pátio está a muralha fernandina, razão por que no início “se pôs logo de lado colocar aqui cabos ou rede de esgotos”, segundo a diretora da obra, que enfatiza o trabalho de prospeção prévia neste projeto, complementado com registos documentais. “Não houve surpresas, sabíamos tudo o que íamos encontrar”.

Ana Melo, que também dirigiu a obra do Theatro Circo de Braga, sustenta que “a reabilitação está na moda, mas não é só pintar paredes, deve reunir competências e ser feita com muita qualidade, para atrair as pessoas e preservar a memória das cidades”.