Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Rendeiro processado pelo Montepio

  • 333

No seu blogue ‘Arma Crítica’, João Rendeiro dedicou-se recentemente ao tema da greve da TAP e do Montepio. A análise sobre o banco vai valer-lhe um processo

Ex-presidente do BPP tem 
dado dicas num blogue onde analisa empresas e bancos.

João Rendeiro pode estar afastado do mundo financeiro, fruto dos processos que tem nos tribunais ou das investigações ainda em curso. Mas o ex-presidente do Banco Privado Português (BPP) continua muito atento ao que se passa na banca e ao seu redor — uma atenção que pode agora trazer-lhe mais problemas do que os que já tem.

Além de ter lançado o livro “Testemunho de um Banqueiro — a história de quem venceu nos mercados”, em 2008, quando já eram conhecidas as dificuldades do BPP, do qual foi fundador — e que está em processo de liquidação —, fundou um blogue em 2011, chamado ‘Arma Crítica’, de que resultou um outro livro, lançado em dezembro, onde reúne os textos que foi publicando nos últimos anos.

A situação do Montepio
Rendeiro não se limita a abordar temas de economia. Aborda também temas políticos. Mas são sobretudo as suas análises financeiras a outros bancos que têm causado sensação — e, neste capítulo, tem disparado em vários sentidos.

O caso mais recente é o do Montepio. Numa análise sobre o banco datada de 4 de maio de 2015, Rendeiro diz que “há um segredo que todos conhecem mas ninguém tem coragem de dizer: a Caixa Económica Montepio Geral está insolvente”. Diz que “o Montepio precisa, urgentemente, de aumentar o capital, no mínimo uns €1000 milhões, e mudar a administração”. Estas e outras afirmações vão custar-lhe um processo. António Tomás Correia, presidente do Montepio e da associação mutualista, que o detém, disse ao Expresso que “pelo ataque ao bom nome do Montepio esse autor vai responder perante os tribunais”.

Na apresentação de resultados trimestrais do banco, Tomás Correia também disparou em várias direções ao afirmar que o Montepio tem sido alvo de “campanhas de intoxicação”. Depois, especificou que isso acontece especialmente em anos de eleições para os órgãos sociais da associação mutualista e do banco. Falou de mensageiros, mas não especificou nenhum (ver texto em baixo).

Na banca, Rendeiro também já passou a pente fino o BPI, o BPN, o BCP e o Banif. Opina, igualmente, sobre órgãos de comunicação social e jornalistas, assim como sobre os reguladores — Banco de Portugal (BdP) e Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) —, que o condenaram em processos de contraordenação por prática de atos irregulares, falsificação de contas e criação de veículos fictícios (ver caixa).

Um dos últimos textos tem como título "Carlos Costa, Gatuno". Rendeiro escreveu sobre o que alguns clientes de papel comercial do Grupo Espírito Santo vendido aos balcões do BES/Novo Banco chamaram ao governador do BdP quando se manifestaram à porta da casa de Carlos Costa chamando-lhe “gatuno”. O ex-banqueiro ressalva no artigo que estes “não mencionaram sequer os verdadeiros causadores da tragédia e colocaram toda a fúria da sua justificada angústia na figura do governador”. Parecia estar a ser simpático, mas logo a seguir virou a agulha: “A desastrada atuação do BdP conseguiu uma improvável inversão do nexo de causalidade.”

O que dizem os reguladores
O Expresso questionou o BdP e a CMVM sobre o teor dos textos no blogue de Rendeiro, tendo em conta que este já foi condenado por ambos os reguladores à inibição de atividade financeira, incluindo assessoria financeira e como tal está proibido de exercer qualquer tipo de funções nesta área.

A CMVM afirma que a sanção acessória aplicada a João Rendeiro (nos termos do artigo 404.º, n.º 1, alínea c), do Código de Valores Mobiliários) foi de inibição do exercício de funções de administração, direção, chefia ou fiscalização e, em geral, de representação de quaisquer intermediários financeiros no âmbito de todas as atividades de intermediação em valores mobiliários ou outros instrumentos financeiros, pelo período de cinco anos (ver caixa). Ressalva, contudo, que “esta sanção ainda não está a produzir efeitos, pois ainda não transitou em julgado, tendo sido objeto de recurso”. Por outro lado, afirma que “será necessário demonstrar que as opiniões que exprime no blogue configuram análise financeira e não passam de meras opiniões”. Para fazer análise financeira Rendeiro teria de se registar para o efeito.

Já o BdP não quis fazer qualquer comentário sobre o assunto.