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Contágio grego agrava subida continuada dos juros da dívida

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Yanis Varoufakis e Jeroen Dijsselbloem conversaram prolongadamente durante a reunião de segunda-feira do Eurogrupo

FRANÇOIS LENOIR/Reuters

Apesar do Eurogrupo ter registado os “progressos alcançados” nas negociações, continuam de pé as divergências entre o governo grego e os credores oficiais sobre os “temas em aberto”. O influente economista El-Erian avisa que o risco de “um acidente grego” subiu para 50%.

Jorge Nascimento Rodrigues

O Eurogrupo (órgão de reunião dos ministros das Finanças da zona euro) registou na reunião de segunda-feira “os progressos alcançados” nas negociações entre a Grécia e os credores oficiais, mas sublinhou que era necessário “mais tempo e esforço” para superar as divergências sobre os “temas em aberto”.

Os “temas em aberto” continuam a centrar-se em torno das “linhas vermelhas” dos dois lados e, segundo o jornal helénico “Protothema”, num diferencial de 2 mil milhões de euros em termos de receitas fiscais (em que a questão do IVA é um dos pontos quentes) a obter em 2015 e na resistência do governo de Atenas nas áreas laborais e da segurança social em aceitar o anterior memorando da troika. Recorde-se que o próprio governo anterior, que perdeu as eleições antecipadas de janeiro, não chegou a acordo com a troika nesses temas politicamente quentes e o processo da 5ª avaliação ficou parado desde o verão de 2014.

Em algumas áreas, como as privatizações e as medidas face ao crédito bancário mal parado, foi registada uma aproximação entre as partes, e na questão da meta de excedente primário orçamental a própria Comissão Europeia já reviu em baixa a sua previsão para 2015 para 2,1% do PIB (abaixo da meta de 3% fixada no anterior memorando) face a 0,4% registado em 2014.

A incerteza sobre o desfecho das negociações continua a marcar a atuação dos investidores no mercado secundário da dívida soberana. As yields das obrigações gregas a 10 anos subiam, de novo, na sessão da manhã desta terça-feira para perto de 11%, pelas 12h. A subida desde sexta-feira cifra-se em 22 pontos base.

Também continua a verificar-se “contágio grego” na zona euro com uma trajetória de subida nas yields da dívida obrigacionista dos restantes periféricos e das economias do centro, com destaque para as yields das Bunds – designação das obrigações alemãs.

No caso das Obrigações do Tesouro português (OT) as yields no prazo a 10 anos já subiram esta terça-feira para perto de 2,5%, vinte pontos base acima do fecho de sexta-feira. Desde 17 de abril, que as yields naquela maturidade estão acima de 2%, uma situação que não e verificava desde meados de dezembro de 2014. Recorde-se que o mínimo histórico de 1,51% foi registado em 14 de março.

Pela primeira vez desde o início de dezembro de 2014, as yields das obrigações francesas a 10 anos ultrapassaram 1% esta terça-feira. Chegaram a descer para 0,35% a 16 de abril passado.

A trajetória de subida generalizada no mercado secundário da dívida obrigacionista das yields na zona euro não é provocada apenas pelo “contágio grego”, que tem sido, aliás, intermitente.

Segundo muitos analistas financeiros, os investidores mudaram em abril o seu comportamento em relação à dívida obrigacionista da zona euro face a mínimos históricos que não se verificavam nas economias desenvolvidas desde 1930 (que, em muitos casos, não correspondem aos “fundamentais” dessas economias) e com yields negativas em muitos prazos curtos e mesmo médios em sete economias da moeda única (Alemanha, Áustria, Bélgica, Finlândia, França, Holanda e Irlanda) que obrigam os investidores a "pagar" aos emissores de dívida obrigacionista soberana em vez de receberem um ganho até final da maturidade. Gavyn Davies, no jornal britânico “Financial Times”, falava na segunda-feira que as próprias Bunds deixaram de ser “uma ilha de estabilidade na zona euro” e que são “o epicentro da turbulência”.

Liquidez em perigo e risco de "acidente" na Grécia
O impasse grego agrava o impacto dessa mudança de atitude. O ministro das Finanças grego Yanis Varoufakis sublinhou, depois da reunião do Eurogrupo, que o Tesouro defrontará problemas de liquidez nas próximas semanas. 

Atenas enviou antecipadamente o cheque para o Fundo Monetário Internacional (FMI) num montante de cerca de 750 milhões de euros, mas enfrenta ainda este mês um refinanciamento de Bilhetes do Tesouro (BT) na ordem de 1,4 mil milhões de euro e uma folha de salários e de pensões de 1,7 mil milhões de euros. Um problema muito sério chega em junho, com um primeiro cheque para o FMI de 305 milhões de euros logo a 5 e depois mais quatro pagamentos (a 12, 13, 16 e 19) num total de 1,7 mil milhões de euros. Acrescem 5,2 mil milhões de euros em refinanciamento de BT e juros de obrigações num montante de 610 milhões de euros. Para além da folha mensal de salários e pensões.

Face a este panorama, o influente economista Mohamed El-Erian, atualmente na Allianz, refere esta terça-feira em coluna na Bloomberg que o risco de “um acidente grego [Graccident, no calão financeiro em inglês] subiu para 50%”. El-Erian afirma no comentário de hoje que “apesar de ter feito a coisa certa – para si própria e para o sistema multilateral -, a Grécia está a obter muito pouco em contrapartida”. Recentemente, El-Erian aconselhou os pares do Eurogrupo e os credores oficiais a "darem ouvidos" ao que diz Yanis Varoufakis.

A atenção vira-se, agora, para a reunião de quarta-feira do Banco Central Europeu.