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Juros da dívida mantêm-se acima de 2%

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Os juros das Obrigações do Tesouro português a 10 anos chegaram a subir até 2,73% durante a sessão de quinta-feira, mas fecharam em 2,3% na sexta-feira. A semana foi marcada na zona euro por uma trajetória de subida dos juros no mercado secundário e pelo recuo das obrigações com juros negativos.

Jorge Nascimento Rodrigues

As yields das Obrigações do Tesouro português (OT) no prazo de referência, a 10 anos, fecharam a semana em 2,29% no mercado secundário, uma subida de 19 pontos base em relação ao fecho de 30 de abril. Chegaram a registar 2,73% na sessão da manhã de quinta-feira (um dia com alguma volatilidade), o nível mais elevado desde meados de dezembro de 2014. O primeiro fecho de dia acima de 2% registou-se a 17 de abril. Recorde-se que, nesta maturidade, as yields atingiram um mínimo histórico de 1,51% a 14 de março, apesar da dívida portuguesa de longo prazo continuar a ser considerada pelas três principais agências de notação como especulativa.

A rentabilidade da dívida obrigacionista portuguesa (todos os prazos) nas últimas 52 semanas caiu de 12,08% a 30 de abril para 9,71% no fecho de 8 de maio, segundo o índice da Bloomberg para a dívida soberana. A 6 de maio chegou a descer para 8,61%. No início de 2015 registava 22,3%.

Trajetória de subida

A trajetória de subida das yields da dívida obrigacionista no mercado secundário no prazo a 10 anos durante a semana abrangeu todas as economias da zona euro, com destaque para as obrigações italianas e francesas cujas yields subiram 21 e 20 pontos base respetivamente. Com subidas de 19 pontos base nas yields incluem-se as OT e as obrigações espanholas, alemãs e irlandesas.

As yields das obrigações espanholas e italianas no prazo a 10 anos, que se aproximaram de 1% em meados de abril subiram agora para perto de 1,7%. As yields das obrigações irlandesas que desceram para um mínimo histórico de 0,617% a 16 de abril fecharam agora em 1,21%, quase o dobro em menos de 30 dias. As yields das obrigações alemãs a 10 anos – designadas por Bunds – que desceram até um mínimo de 0,049% a 17 de abril fecharam agora em 0,55%, em termos relativos uma subida brutal, de 10 vezes, em menos de um mês.

Na quinta-feira realizaram-se dois leilões de dívida importantes na zona euro. A Agência do Tesouro Francês colocou quase 8,5 mil milhões de euros em obrigações a 8, 10 e 12 anos, pagando uma taxa de remuneração aos investidores mais alta do que em operações similares. O mesmo se verificou com o leilão de dívida realizado no mesmo dia pelo Tesouro espanhol que colocou 3,6 mil milhões de euros em obrigações a 3 e 10 anos pagando, também, taxas mais elevadas. O Tesouro espanhol só pagou taxa mais baixa em relação a operação anterior similar, numa emissão de obrigações a 5 anos indexada à inflação, onde, pela primeira vez, pagou uma taxa média negativa de -0,286% face a uma positiva de 0,148% anteriormente.

Desde final de abril que se assiste a um disparo das yields na zona euro, ainda que a partir de níveis historicamente muito baixos para a quase totalidade de economias da moeda única, com exceção da Grécia e de Chipre, dois países ainda sob resgate.

O período de descida para mínimos históricos na zona euro nos primeiros meses de 2015 é verdadeiramente excecional. Segundo o levantamento da Gluskin Sheff, uma firma de consultoria canadiana, desde que há registo de juros de dívida obrigacionista, níveis tão baixos à escala mundial só ocorreram três vezes desde 1522: em 1570, em 1930 e durante o início de 2015.

Recuo nas yields negativas

Esta semana verificou-se ainda um recuo nas obrigações de economias da zona euro com yields negativas.

As sete economias da moeda única – Alemanha, Áustria, Bélgica, Finlândia, França, Holanda e Irlanda - que continuam a registar yields negativas no mercado secundário têm vindo a diminuir o número de prazos em que essa situação se verifica. Comparando com meados de abril, quando a extensão de prazos com yields negativas atingiu um ponto máximo, a Alemanha, que é a líder neste “clube”, passou de uma situação em que registava yields negativas até 8 anos inclusive (chegando em algumas sessões a registar yields negativas no prazo a 9 anos) para o contexto atual em que essa situação se verifica apenas até à maturidade de 4 anos.

O que se passou, entretanto, como referem alguns analistas, é que ocorreu “uma revolta” dos investidores contra as yields negativas. Esta situação significa para o investidor uma perda se mantiver em carteira a obrigação até à sua maturidade. Como referem alguns analistas, o “mercado está às avessas”, com os investidores a pagarem para deter tais títulos em carteira e os emissores soberanos a receberem um prémio em vez de pagarem um juro.

As expetativas de que a deflação foi afastada do conjunto da zona euro (com a inflação a passar de terreno negativo para 0% em abril) têm alimentado esta reviravolta no mercado. Os preços do barril de Brent, que influenciam a variação de preços na zona euro, têm estado em alta desde final de janeiro quando superaram a barreira dos 50 dólares. Com flutuações ao longo destes quatro meses fecharam esta sexta-feira acima de 65 dólares. 

Expetativa positiva sobre a Grécia

As yields das obrigações gregas a 10 anos subiram apenas 9 pontos base desde final de abril. Fecharam a semana em 10,75%, um nível muito elevado, mas mesmo assim abaixo do pico deste ano em 13,67% registado a 21 de abril, quando se tornou claro que no prazo limite de final de abril não estaria aprovada a “lista Varoufakis” de medidas de reformas, uma meta fixada em fevereiro no acordo de extensão por quatro meses do plano de resgate.

O custo de segurar a dívida grega a 5 anos contra um incumprimento subiu ligeiramente entre o final de abril e sexta-feira. A probabilidade de bancarrota nesse horizonte mantém-se acima de 75%. Níveis superiores registam-se para a Venezuela e Ucrânia. A Argentina é considerada em default seletivo desde o verão do ano passado.

As declarações da Comissão Europeia e do presidente do Eurogrupo (órgão de reunião dos ministros das Finanças da zona euro) de que se registam “progressos concretos” nas negociações entre o governo grego e os credores oficiais provocaram uma abrandamento na trajetória altista.O primeiro-ministro grego Alexis Tsipras, no Parlamento grego, chegou a falar de "um final feliz" nas próximas semanas.

Os analistas consideram baixo o risco de um incumprimento no pagamento ao Fundo Monetário Internacional (FMI) de cerca de 770 milhões de euros (o valor pode flutuar em virtude das variações dos direitos de saque especiais, a unidade de conta do Fundo) a 12 de maio, bem como um não refinanciamento de 1,4 mil milhões de euros em Bilhetes do Tesouro (BT) a 15 de maio.

Ainda que um acordo não seja esperado na reunião do Eurogrupo de 11 de maio, muitos analistas preveem “uma declaração de tom positivo” no final que permita ao Banco Central Europeu (BCE) na sua reunião semanal da próxima semana “aliviar” as restrições sobre a Grécia. Para o governo grego, seria ouro sobre azul se o BCE permitisse a subida do teto de emissão de dívida de curto prazo pelo Tesouro grego e não aumentasse o hair cut sobre o colateral que os bancos gregos apresentam junto do Banco Central Grego (uma exigência punitiva que o Bundesbank, o banco central alemão, tem colocado no seio do BCE). O mês de junho é particularmente crítico com 5,2 mil milhões de euros em BT que vencem e cinco pagamentos ao FMI num total de 2 mil milhões de euros.

A emissão de BT é a única via que o governo helénico tem de se financiar no mercado de capitais. É baixa a curto prazo a expetativa de encaixe com privatizações em curso (Portos do Pireu e de Tessalónica e aeroportos regionais) e com o fecho do acordo com a Rússia relativo ao gasoduto que vindo da Turquia deverá passar pela Grécia, negócio com implicações geopolíticas a que se opôs abertamente os Estados Unidos esta semana.

O contágio grego, que foi acentuado em abril (com uma elevada correlação entre as yields das obrigações gregas e as dos restantes periféricos do euro, com exceção da Irlanda que parece estar imune), está contido. Poderá regressar se o curso das negociações evoluir num sentido negativo.