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Juros da dívida acima de 2,5% e rentabilidade anual em queda livre

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Os juros da dívida grega desceram em virtude da expetativa de “progressos concretos” na reunião do Eurogrupo de 11 de maio, mesmo sem acordo fechado, mas os juros dos restantes emissores da zona euro continuam em trajetória de subida.

Jorge Nascimento Rodrigues

As yields da dívida portuguesa a 10 anos fecharam esta quarta-feira no mercado secundário em 2,55%, uma subida de 15 pontos base em relação ao fecho do dia anterior e de mais de 1 ponto percentual face ao mínimo histórico de 1,51% registado a 14 de março. A rentabilidade anual (nas últimas 52 semanas) da dívida obrigacionista portuguesa (em todos os prazos) está em queda livre, de acordo com o índice da Bloomberg (Bloomberg Global Benchmark Bond Indexes) para a dívida soberana. O retorno anual desceu de 22,3% no início de janeiro para 8,61% no fecho desta quarta-feira.

O movimento de subida das yields foi esta quarta-feira generalizado na zona euro, com exceção da Grécia. As yields das obrigações irlandesas a 10 anos foram as que mais subiram, com um aumento de 16 pontos base. As yields nesta maturidade registam agora 1,3%, 43 pontos base acima do mínimo histórico de 0,67% registado a 16 de abril. As yields das obrigações espanholas e italianas aproximam-se, agora, do limiar dos 2%, depois de terem registado mínimos históricos muito próximos de 1%.

A trajetória de subida registada nas últimas semanas não é exclusiva dos periféricos do euro referidos. Envolve, também, as economias emissoras do centro da zona euro. No caso da Alemanha, cujas obrigações a 10 anos servem de referência para o prémio de risco dos outros emissores, as yields subiram de um mínimo de 0,049% a 17 de abril para 0,61% no fecho desta quarta-feira. Alguns analistas esperavam uma descida das yields das obrigações alemãs a 10 anos para terreno negativo, como sucedeu com prazos inferiores e no caso da Suíça, mas a trajetória inverteu-se.

Perspetiva positiva trava subida de juros gregos

A exceção nas subidas foi a Grécia, uma espécie de prenda no dia em que o governo liderado pelo Syriza fez 100 dias.

Apesar do presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, ter afastado a hipótese de um acordo na reunião da próxima segunda-feira, falou de um “perspetiva positiva” em relação à última reunião de ministros das Finanças em Riga, e o comunicado conjunto das três instituições dos credores oficiais (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo  Monetário Internacional) emitido esta quarta-feira refere a intenção de “obter progresso concreto a 11 de maio”, na reunião do Eurogrupo. O ministro das Finanças Yanis Varoufakis falou em Roma, onde na quinta-feira estará com o homólogo italiano, na possibilidade de se chegar a uma “plataforma”.

A expetativa do governo grego é conseguir obter a 11 de maio um sinal positivo que permita ao Banco Central Europeu (BCE) autorizar, na reunião semanal, o aumento do teto de emissão de dívida de curto prazo pelo governo grego e aliviar a pressão sobre os bancos gregos para não participarem nas emissões de Bilhetes do Tesouro. Sinal positivo o facto desta quarta-feira o BCE ter autorizado o aumento do teto de liquidez de emergência a que podem recorrer os banco gregos junto do Banco Central grego para 78,9 mil milhões de euros – um aumento de 2 mil milhões, o mais elevado das últimas semanas. E resistiu à pressão do Bundesbank para aumentar o haircut nos colaterais apresentados pelos bancos gregos.

As yields da dívida grega desceram esta quarta-feira, apesar das más notícias trazidas pelas previsões da Comissão Europeia apontando para um crescimento de 0,5% em 2015 face a 2,5% na previsão anterior e a 1,4% na previsão governamental, para uma queda do investimento de 3,1% (superior à de 2014, de 2,7%) e um aumento do rácio da dívida pública no PIB de 177,1% em 2014 para 180,2% em 2015.

No prazo de referência, a 10 anos, as yields desceram 5 pontos base para 11,19%. É um nível que está mais de 2 pontos percentuais abaixo do pico deste ano em 13,67% em 21 de abril, mas continua muito elevado. O custo de segurar a dívida grega a 5 anos subiu esta quarta-feira para 2779,12 pontos base, o que aponta para uma probabilidade de bancarrota muito elevada, de mais de 76%.

O teste de um evento de crédito deslizou para 12 de maio quando o Tesouro grego terá de passar um cheque de 770 milhões de euros ao Fundo Monetário Internacional, apesar do governo grego sempre ter afirmado cumprir com a organização chefiada por Christine Lagarde. Esta quarta-feira Atenas enviou um cheque de 200 milhões de euros de juros devidos para Lagarde e conseguiu colocar mais de 1100 milhões de euros em Bilhetes do Tesouro a 6 meses.

Mudança de comportamento dos investidores

Mesmo sem contágio grego, as yields dos restantes membros do euro sobem. Como pano de fundo, o analistas apontam dois factores: 1- a alteração do comportamento dos investidores face a yields em mínimos históricos em economias com “fundamentais” que não os justificam e em relação a yields negativas de dívida obrigacionista de economias do centro (levando a uma situação em que os investidores pagam para deter tais títulos em carteira em vez de receberem um juro);  e 2- a subida das expetativas de inflação na zona euro, depois de quatro meses seguidos de inflação negativa (de dezembro de 2014 a março de 2015).  A previsão de crescimento para a zona euro em 2015 subiu também de 1,3% para 1,5%.

O preço do barril de petróleo continua em trajetória ascendente depois de uma descida que alimentou o processo de desinflação na zona euro. Desde final de 2014, o preço do barril de Brent já subiu 10 dólares até ao fecho desta quarta-feira; no contravalor em euros o aumento foi de mais de 13 euros. Segundo os especialistas, uma subida do preço do barril de Brent na ordem dos 25 dólares tem um efeito de subida de 0,8 pontos percentuais na inflação.

Apesar do aumento do preço do crude nos últimos dois meses, muitos analistas continuam a achar que os “fundamentais” do sector continuam frágeis e que podemos estar a assistir a uma “bolha especulativa” neste mercado. A opinião dominante nos observadores é que os “fundamentais” deste mercado apontam para preços mais baixos do que os atuais nos próximos meses, sublinha o analista Tom Whipple, editor da “Peak Oil Review”.