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Grécia enviou cheque para o FMI e financiou-se em mais de €1000 milhões

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Alexis Tsipras à entrada para mais uma reunião do seu gabinete em Atenas

SIMELA PANTZARTZI/EPA

O governo de Tsipras pagou esta quarta-feira €200 milhões em juros ao FMI e colocou no mercado €1138 milhões em dívida a seis meses. Presidente do Eurogrupo afirma que não há hipótese de acordo na reunião do Eurogrupo de 11 de maio.

Jorge Nascimento Rodrigues

O governo grego chefiado por Alexis Tsipras enviou esta quarta-feira para Washington um cheque de 200 milhões de euros para pagamento de juros ao Fundo Monetário Internacional (FMI). 

O Tesouro grego conseguiu, também, ir ao mercado colocando 1138 milhões de euros em Bilhetes do Tesouro (BT) a 6 meses, o que poderá ajudar a pagar os 1400 milhões de euros que vencem em BT na sexta-feira. 

O grande teste da próxima semana é o pagamento na terça-feira, 12 de maio, de uma tranche do empréstimo do FMI num montante de cerca de 770 milhões de euros. O cheque deverá seguir para Washington no dia seguinte à reunião regular do Eurogrupo a 11 de maio em que, no entanto, não se espera que um acordo seja alcançado em torno da lista de medidas de reformas, que deveria ter sido fechada no final de abril. 

O presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, afirmou esta quarta-feira que “não há acordo na segunda-feira [no Eurogrupo], temos de ser realistas”. Thomas Wieser, o coordenador do Grupo de Trabalho do Eurogrupo (que prepara as reuniões deste órgão dos ministros das Finanças da zona euro) adiantou que divergências de fundo se mantêm em torno de questões orçamentais, regime de IVA, reforma laboral e salário mínimo, pontos que têm sido considerados “linhas vermelhas” do governo. 

No entanto, em comunicado, as três "instituições" representantes dos credores oficiais afirmam esta quarta-feira que pretendem obter "progresso concreto a 11 de maio" [na reunião do Eurogrupo].

A questão da sustentabilidade da dívida

Entretanto, fontes do governo de Atenas adiantaram esta terça-feira que as negociações se complicaram em virtude do FMI e da Comissão Europeia defenderem posições de negociação distintas, com o FMI a insistir nas reformas laborais e de pensões e na garantia de sustentabilidade da dívida grega (atingindo a meta de 124% do PIB em 2020), e Bruxelas a fazer finca-pé na meta de excedente orçamental primário (que, nas previsões da Comissão Europeia, divulgadas esta semana, já baixou para 2,1% do PIB em 2015, muito abaixo da meta colocado no memorando da troika apontando para 3%) e a rejeitar nova concessão de reestruturação da dívida. 

Há muito que o FMI insiste que as metas de sustentabilidade da dívida grega têm de ser garantidas pela parte europeia dos credores oficiais. Poul Thomsen, o chefe do departamento europeu do FMI, apenas tem recordado essa posição defendida desde 2012. “Quanto mais distantes as medidas e as metas que forem acordadas em relação ao acordo original de 2012, mais elevadas serão as necessidades de financiamento adicional e de alívio da dívida para tornar a dívida do país sustentável”, clarificou, esta semana, o Fundo. A previsão da Comissão Europeia de que o rácio da dívida pública grega em relação ao PIB poderá subir de 177,1% no final de 2014 para 180,2% no final de 2015 não tranquiliza em relação a uma trajetória descendente até 124% daqui a cinco anos.

A semana foi recheada de movimentações do governo grego na Europa. O ministro das Finanças grego Yanis Varoufakis deslocou-se a Paris, Bruxelas e Roma e esta sexta-feira irá a Madrid reunir-se com o ministro das Finanças espanhol Luis de Guindos, tido como o próximo presidente do Eurogrupo, e que tem sido um forte opositor de concessões ao novo governo helénico. 

Por outro lado, o vice-primeiro-ministro Yannis Dragasakis e o ministro-adjunto Euclid Tsakalotos, os dois responsáveis pela condução política das negociações com os credores oficiais, reuniram-se com Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu (BCE), tendo apresentado um plano para 2015 e 2016 que implica um ganho de cerca de 19 mil milhões de euros, com medidas orçamentais permitindo um encaixe adicional de receitas de 9,6 mil milhões de euros, uma redução de gastos públicos de 3,4 mil milhões de euros e um plano B de receitas adicionais de 5,8 mil milhões de euros. 

O objetivo do plano a dois anos é “tapar” o buraco de financiamento identificado pelo FMI e que permita impedir o deslizar da Grécia para um défice orçamental primário. 

A meta da reunião com Draghi era “sensibilizar” o BCE para autorizar o aumento do teto de emissão de Bilhetes do Tesouro (que está bloqueado), permitir a devolução dos lucros obtidos em 2014 pelo sistema dos bancos centrais do euro (1,9 mil milhões de euros) e continuar a aumentar o teto de recurso a liquidez de emergência por parte dos bancos gregos e sem restrições a participarem nas emissões de dívida. À hora a que escrevemos ainda não eram conhecidos os resultados da reunião do conselho diretivo do BCE.

Concessões nas “linhas vermelhas” a troco de alívio de dívida?

Não faltaram, também, as reuniões telefónicas de Tsipras com Merkel na segunda-feira – recorde-se que uma linha direta foi estabelecida desde final de abril – e esta quarta-feira com Jean-Claude Juncker, o presidente da Comissão Europeia. Desta última reunião terá resultado o acordo na necessidade de reformas no sistema de pensões e no sistema da contratação coletiva, conforme se lê em comunicado. 

Até onde a delegação grega poderá aceitar concessões nas áreas blindadas por linhas vermelhas políticas tem gerado um acalorado debate na própria Grécia. Alguns analistas gregos falam da aceitação de um memorando similar ao apresentado pelo anterior ministro das Finanças grego Gikas Hardouvelis (um email que o jornal grego “Kathimerini” então divulgou) com “menos 20 a 25% de medidas” e com a compensação de um alívio da dívida por parte dos credores oficiais europeus, que terá andado a ser discutido nestas últimas semanas. No entanto, o comissário Pierre Moscovici afirmou na terça-feira que tal questão só pode ser discutida “depois do plano de reformas aprovado”.

Apesar da alta probabilidade de não haver acordo na reunião de 11 de maio, depois de não ter sido cumprido o prazo limite de final de abril para a consolidação de uma lista de medidas de reformas, as yields das obrigações gregas não subiram esta quarta-feira no mercado secundário da dívida soberana. Desceram 5 pontos base para 11,19% no prazo de referência a 10 anos, à hora de fecho. Um movimento a contracorrente do que se registou com as yields das obrigações dos restantes periféricos e dos emissores do centro da zona euro, que prosseguiram a trajetória de subida das últimas sessões.