Num abrir e fechar de olhos um cientista italiano passou de vilão a herói. Primeiro foi insultado e acusado de alarmismo por alertar para a iminência de um sismo. Depois, os acontecimentos de 6 de Abril deram-lhe razão. Pelo menos parcialmente, porque apontara para duas datas onde nada sucedeu e situara o fenómeno a 50 km do local onde, efectivamente, ocorreu.
O que Gioacchino Giuliani, químico do Laboratório de Gran Sasso, fez, foi tirar conclusões a partir da subida da concentração de radão (um gás radioactivo existente a grandes profundidades). Conforme o próprio reconheceu, não há uma correlação absolutamente estabelecida entre este acontecimento e a ocorrência próxima de um sismo. Mas é um assunto que merece a pena estudar e para o qual "nunca parece haver fundos suficientes nas universidades italianas...".
Sobre isto, que dizem os seus colegas portugueses?
Miguel Miranda, director do Instituto Geofísico D. Luís (Lisboa), reconhece que "a existência de precursores de grandes sismos está bem estabelecida". Os mais estudados são "sequências de pequenos sismos que antecedem o tremor de terra, a deformação do solo, ou a libertação de fluidos, apesar de ser conhecido o facto de a geração de sismos ocorrer alguns quilómetros abaixo da superfície da Terra. A existência de variações na concentração do radão tem sido intensivamente analisada como um sério candidato ao papel de indicador de processos geodinâmicos, uma vez que essas variações ocorrem por vezes associadas a grandes sismos, e que essa concentração é razoavelmente fácil de medir".
Ema Coelho, chefe do departamento de engenharia sísmica do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, lembra que "previsões com carácter determinístico de eventos sísmicos que identifiquem localização de epicentros, magnitude e instante de ocorrência são matéria de investigação avançada em curso, não havendo actualmente suficiente consenso na comunidade científica da Sismologia sobre as metodologias apropriadas para esse fim".
Isto não quer dizer que não tenha havido casos de sucesso na previsão de sismos. Miguel Miranda recorda que alguns. "No dia 3 de Agosto de 1973, foi realizada com sucesso a previsão de um sismo de magnitude 2.6 em Nova Iorque, a partir da variação da velocidade das ondas sísmicas, e em 4 de Fevereiro de 1975 um sismo de magnitude 7.3 foi positivamente previsto na China a partir da sequência de sismos precursores e do comportamento de animais. Contudo, o grande sismo de Tangshan, pouco mais de um ano depois não foi previsto pela mesma metodologia". Ema Coelho sublinha que estas experiências "pressupõem o conhecimento profundo das características da estrutura sismotectónica activa, o que muitas vezes não se verifica. Por exemplo, o sismo de Kobe (17 de Janeiro de 1995) correspondeu à rotura de uma falha não conhecida".
Será caso para atirar a toalha ao chão? Talvez não. Miguel Miranda reconhece que "nem toda a instrumentação até hoje colocada pelos cientistas norte-americanos na Falha de Santo André (Califórnia) permitiu estabelecer uma metodologia de previsão". Mas, ao menos, "contribuiu, de forma importante, para um melhor conhecimento dos processos de geração de sismos".
Numa vertente mais prática já há no Japão sistemas eficazes de alerta imediato, permitindo lançar o alarme dois a três minutos antes de um grande tremor de terra. Parece pouco mas permite alertar a polícia, bombeiros e protecção civil, para além de permitir aos gestores das redes de transportes, energia, etc, desligá-las a tempo de minimizar acidentes. "Desde que estejam altamente automatizadas, como é o caso do Japão", como sublinha Miranda.
Gioacchino Giuliani: O drama do homem que sabia demais
Gioacchino Giuliani, 62 anos, vive o momento mais dramático da sua vida. A 13 e a 29 de Março alertou para um sismo em Sulmona. Deu-se oito dias mais tarde e em L'Aquila. a 50km. A Protecção Civil chamou-lhe imbecil e alarmista. Agora teve a sua vingança.
"Não sou professor nem doutor. Apenas perito em química", explica invariavelmente ao telefone. Agora acusam-no de ter posto a salvo a família sem avisar ninguém.
A subida do teor de radão que os seus instrumentos detectaram "foi um precursor credível". É um assunto que "devia ser mais estudado mas invariavelmente não há verba nas universidades italianas".
Rossend Domènech, correspondente em Itália
Lições de Agadir
A 29 de Fevereiro de 1960 um terramoto na cidade costeira marroquina de Agadir fez 15 mil mortos. Se Voltaire ficou ligado à evocação de 1755, o poeta sueco Artur Lundkvist fez o mesmo para esta tragédia, falando nos seus sinais precursores: "Foram muitos os sinais mas estávamos cegos como todos os outros/o céu era demasiado azul, um céu de éter e aço". O nosso país ficou duplamente ligado à tragédia: por um lado, muitos dos construtores civis da cidade eram portugueses mas, por outro, o estudo do inesperado colapso de muitas estruturas de betão ajudou Ferry Borges e outros fundadores do Laboratório Nacional de Engenharia Civil a rever as normas anti-sísmicas. O Regulamento de Segurança das Construções Contra os Sismos que datava de 1958 foi revisto em Novembro de 1961, incorporando já estas lições. Revelaram grande vulnerabilidade os blocos assentes em colunas (rés-do-chão vazado) típicos da arquitectura da época.
R.C.