"Portugal poderá ter de adotar uma política económica mais ativa e prudencial que reduza os gastos governamentais, leva ao ajustamento da estrutura económica e promova o crescimento", afirma ao Expresso Xu Hongcai, diretor-adjunto no China Center for International Economic Exchanges, um dos mais importantes think tanks da China. Para acrescentar que, "entretanto, é necessário fortalecer a cooperação com a China, tal como promover o investimento direto chinês em Portugal".
Este professor de Finanças da Universidade de Economia e Gestão da capital chinesa e autor do livro "As estratégias financeiras do nosso grande país", provocou polémica na Europa ao publicar na quinta-feira passada um artigo no "Asia Pacific Memo", intitulado sugestivamente "Por que razão a China não está a comprar os títulos para resgates na zona euro (ainda)". O "memorando 128" surgiu precisamente durante a estadia da chanceler alemã Ângela Merkel na China e era muito claro sobre os "três ingredientes" que poderão levar Pequim a envolver-se ativamente na resolução da crise da zona euro.
Duas estratégias
O envolvimento da China nas soluções mundiais para a resolução da crise da zona euro tem sido reclamado insistentemente pelos líderes europeus. Os chineses insistem, no entanto, em aspetos prévios: "Os países com problemas e o Banco Central Europeu podem fazer mais esforços em relação ao papel que têm de ter na resolução desta crise da dívida. Também, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a União Europeia podem dar maiores contributos para lidar com a crise".
Neste quadro de "ingredientes", há duas estratégias que têm sido reafirmadas por Pequim: a importância que a China dá ao seu investimento em ativos na Europa - como já fez na Grécia e em Portugal - e uma opção por atuar através do FMI no financiamento dos mecanismos de resgate ou de fornecimento de liquidez. "Certamente que a China pode dar alguma ajuda indiretamente, através do FMI. Se o FMI criar ativamente algumas condições razoáveis, a China pode dar maiores contribuições para alguns países com problemas", sublinha-nos Xu Hongcai, para, logo, referir o que os chineses entendem como o "melhor canal" para o seu envolvimento: "A China aumentará o seu investimento direto e importará produtos de alta tecnologia da Europa com vista a reduzir os défices comerciais dos países europeus, e, desse modo, ajudará à retoma europeia". Reforça que essa estratégia chinesa "ajuda na criação de oportunidades de emprego na zona euro".
Optimismo no condicional
Xu acredita que "no final, a crise da dívida pode ser resolvida". O mesmo otimismo - ainda que no condicional - sobre a evolução da economia mundial: "Este ano a economia mundial enfrenta o seu batismo de fogo. Mas não se preocupe. Se todos os países da comunidade internacional puderem fortalecer a sua cooperação e aplicarem políticas eficazes, eu acredito que o mundo iniciará uma retoma gradual em 2013".
Há, no entanto, uma nuvem sobre o horizonte imediato - o impacto da reestruturação da dívida grega no sistema financeiro e na economia europeia. Um aviso recente do FMI aponta para o risco do crescimento da China passar para metade dos 8,2% previstos se a crise europeia se agravar. "Na minha opinião, a Grécia entrou em incumprimento em relação aos investidores individuais ao negociar o pagamento. Não é de todo impossível que a crise da dívida se alastre para outros países e que venha a ter um impacto negativo na economia mundial", diz Xu. No entanto, acrescenta que "a Grécia está a caminhar na direção correta".