Muito se tem escrito em Portugal sobre a Irlanda, a iminência do recurso aos apoios do FMI, os reflexos quanto ao nosso país - mas bem pouco sobre como chegou a Irlanda de "tigre celta" a tão combalido felino. E se alguma conclusão há a tirar de similitudes ou diferenças entre os dois países.
Diga-se que a reflexão sobre a crise de há já uma década está longe de merecer entre nós a atenção que seria de esperar - e desejar - nomeadamente no campo editorial. O que contrasta desagradavelmente com o que se vai passando por esse mundo fora. E assim se explica que os portugueses em geral tenham uma ideia razoavelmente vaga do que aconteceu e do que está para acontecer. Os comentadores da especialidade têm mesmo revelado uma circunspecta complacência com uma alegada inevitabilidade, ao invés de tornarem claro muito do que, entretanto, começam a ser dados adquiridos sobre o colapso capitalista e as suas razões.
O jornalista do "Irish Times" Fintan O'Toole é autor de um tão esclarecedor quanto contundente livro sobre o seu país com o esclarecedor título "Ship of Fools: How Stupidity and Corruption Sank the Celtic Tiger", isto é, "Nave de Loucos: Como a Estupidez e a Corrupção Afundaram o Tigre Celta".
O livro deu origem a numerosos comentários, sendo que a meia dúzia mais rapidamente acessível na Net o transforma num comedido repositório das responsabilidades dos governantes irlandeses nas aflições por que passa a Irlanda.
Dois aspetos interessa sublinhar nas linhas mestras de O'Toole: o papel desempenhado pela especulação imobiliária de braço dado com a irresponsável ganância dos bancos e a crescente corrupção oficial.
O panorama dos campos irlandeses surge hoje destruído por espetros de paredes e "projetos imobiliários" inacabados cujo absurdo é revelado por números como os do Antrim County: entre 2006 e 2009 construíram-se 2945 casas para uma população que, no mais favorável dos ratios, necessitaria de 588!
A "bolha imobiliária" não foi um percalço, mas o resultado direto de uma política: construir e especular com o solo foi a forma mais imediata do capital financeiro, artificial e brutalmente acrescido em escassos anos pelo afluxo dos fundos estruturais e pela transformação do país num sombrio offshore de fuga a impostos e branqueamentos (vejam-se as atuais piruetas para salvar a escandalosa taxa de IRC praticada), procurar lucros rápidos que a débil estrutura produtiva do país não garantia.
Parafraseando O'Toole, claro que esta estupidez não poderia passar sem a corrupção oficial: o primeiro-ministro que mais responsabilidades tem no que sucedeu (um patético Bernie Ahern, que ainda há escassos meses se fazia pagar principescamente para pronunciar, mundo fora, conferências sobre o "tigre celta"...), propôs-se em 2007 ver o seu ordenado subir para 310 mil euros anuais, o que faria dele o mais bem pago dos dirigentes ocidentais!O magno problema continua a ser a que não há riqueza sem produção, não há produção sem trabalho, não há trabalho sem trabalhadores. E a magna diferença é que enquanto o capital despede, os trabalhadores querem trabalho. Vão dizê-lo com toda a clareza na próxima quarta-feira.
Ruben de Carvalho
Texto publicado na edição do Expresso de 20 de novembro de 2010