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Ucrânia

"Caminhamos a passos largos em direcção à terceira guerra mundial"

O ex-principal conselheiro económico de Vladimir Putin vive há dois anos em Washington e explica, em entrevista exclusiva, por que desistiu de trabalhar para "um ditador e um regime autoritário"

Ricardo Lourenço, correspondente nos EUA

Andrei Illarionov foi o braço direito de Vladimir Putin para a área económica, entre 2000 e 2005. Enquanto principal conselheiro económico, representou pessoalmente o Presidente russo em várias cimeiras do G8. Há nove anos, desistiu de "trabalhar para um ditador e para um regime autoritário". 

Hoje trabalha em Washington, no Instituto de estudos políticos CATO. Em entrevista exclusiva ao Expresso, Illarionov revela que Putin sonha com um "império pessoal" e que estará a "repetir as tácticas dos anos 30 utilizadas por Hitler, no centro da Europa, e por Estaline contra a Finlândia, as repúblicas bálticas e a Roménia".

 

 

Vladimir Putin quer reconstruir o império russo?

Ele procura um império pessoal. Podemos chamar-lhe império russo "light", mas na verdade é um projecto do Presidente Putin. Se estivesse à procura de ressuscitar o império russo, ele procuraria um estado homogéneo do ponto de vista étnico. Não é isso que ele quer e, por isso, não se importa que algumas partes sejam governadas por indivíduos com passado criminoso. É o exemplo da Ossétia do Sul que tem sido chefiada por amigos do senhor Putin e pelos seus gangues. Eles não são russos, eslavos, nem sequer cristãos ortodoxos, mas ele mantém-nos no poder porque se identifica com eles. Na Abecásia passa-se o mesmo, trata-se de uma região historicamente próxima da Turquia e não da Rússia. Olhe-se para o Ramzan Kadirov, o líder da Tchetchénia, um bandido com exército privado que aterroriza a própria população. Outro amigo do senhor Putin é o actual líder da Crimeia, Sergiy Aksyonov. Este senhor tem cerca de 60 processos-crime contra ele nos tribunais ucranianos.

 

A Crimeia é uma causa perdida?

Depende da posição do Presidente Obama e da NATO. Mas se continuarem receosos como até agora a Crimeia é do senhor Putin.

 

Acredita numa resposta musculada do Presidente americano?

Não. É o mesmo tipo de resposta fraca que Chamberlain deu a Hitler antes da Segunda Guerra. Se compararmos com o que antecedeu a Segunda Guerra Mundial, a crise ucraniana é a combinação de várias crises - Sevastopol é como Danzing e o leste da Ucrânia é como a Polónia. São realidades muito semelhantes.

 

Quer dizer que a história está a repetir-se e que ocidente não está a fazer nada para o impedir?

Sim. É uma realidade decalcada daquela que ocorreu nos anos 30. Putin está a repetir as tácticas usadas por Hitler, no centro da Europa, e por Estaline contra a Finlândia, as repúblicas bálticas e a Roménia. 

 

O Presidente Putin pode arrastar a Europa para uma crise sem precedentes? 

Caminhamos a passos largos em direcção à terceira guerra mundial. Não é uma piada. Não é um exagero. A questão é saber onde é que iremos parar esta agressão do senhor Putin. Pode ser já, desde que os Estados Unidos e a NATO tomem decisões sérias, algo que não parece que vá ocorrer. É muito claro que Putin irá movimentar as suas tropas para o interior da Ucrânia. Kiev será obrigada a contra-atacar. Outros países serão forçados a entrar no conflito - Polónia, Roménia e outros membros da NATO -, o que exigirá o envolvimento americano.

 

Putin perdeu o sentido da realidade tal como Angela Merkel sugeriu?

Merkel está enganada. O senhor Putin finge ser idiota, baixando as expectativas em relação às suas decisões. Ele sabia que, depois do diálogo com a senhora Merkel, ela iria telefonar ao Presidente Obama a informá-lo do teor da conversa. Neste jogo político sem precedentes, os líderes ocidentais é que estão distantes da realidade. Não percebem Putin, nem o que ele verdadeiramente quer.

 

Congelamento de contas bancárias nos Estados Unidos e suspensão de vistos de alguns dos milionários russos. Acredita na eficácia deste tipo de sanções?

Não. As sanções só serão eficazes se afectarem directamente o senhor Putin e o senhor Medvedev (primeiro-ministro russo ) e se forem acompanhadas por manifestações de força militar.

 

Mas, os oligarcas têm negócios milionários nos EUA e correm o risco de perder muito dinheiro.

Vladimir Putin não quer saber dos Oligarcas. Ele tem em mente algo muito mais importante.

 

Por que deixou a Rússia em 2005?

Deixei o gabinete do Presidente Putin porque não queria trabalhar para um ditador e para um regime autoritário que estava a pôr compatriotas meus na prisão.

 

Diz que a Rússia deixou de ser um país livre por volta dessa altura. Porquê?

A Rússia nunca foi um país livre.

 

Mas você foi o braço direito do Presidente russo durante esse período.

As coisas foram piorando, até que em 2005 desisti de lutar.

 

O que o fez desistir?

Beslan. Quando uma ordem do Presidente Putin foi responsável pela morte de 366 pessoas numa escola. Crianças, pais e professores queimados vivos na sequência de um sequestro levado a cabo por um grupo radical islâmico. Aquilo não foi maneira de resolver o impasse.