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Media do Futuro

"Se a ideia é acabar connosco, arrisca-se a ser eficaz" (vídeo)

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A conferência Media do Futuro é organizada pelo Expresso e pela SIC Notícias e está a decorrer no Hotel Ritz, em Lisboa

Alberto Frias

Francisco Pinto Balsemão abriu os trabalhos na conferência Media do Futuro, organizada pelo Expresso e pela SIC Notícias, que decorre hoje em Lisboa. O presidente do Grupo Impresa não poupou a críticas ao Governo no que considera ser a "decisão apressada" de privatizar a RTP. Clique para visitar o dossiê Media do Futuro

Miguel Martins e Tiago Oliveira (www.expresso.pt)

"O funcionamento da democracia portuguesa está em causa". As palavras são de Francisco Pinto Balsemão, no discurso de abertura dos trabalhos da conferência Media do Futuro, a decorrer hoje no Hotel Ritz em Lisboa.

Clique para aceder ao índice do dossiê Media do Futuro

Perante uma plateia com mais de 350 pessoas, o patrão do Grupo Impresa apresentou um discurso rápido que dividiu em quatro pontos claros: a importância do papel dos Media independentes para uma democracia substantiva; os desafios conjunturais que o setor enfrenta com a retração do mercado publicitário; os desafios estruturais com a transferência para o digital e, por último, os efeitos da privatização "apressada" da RTP.

Consequências em cascata

Para Balsemão não restam quaisquer dúvidas: a privatização da RTP provocará um "aumento de 40 por cento do espaço publicitário disponível", o que, combinado com as "quebras de mais de 30 por cento na procura que já se sentiram este ano", resultarão num "efeito devastador", provocando uma "queda potencial de 60% no setor". Esta quebra terá "consequências em cascata", "atingindo não só a televisão, mas também as rádios, a imprensa e a Internet".

Na conclusão, o fundador do Expresso deixou duas dúvidas, às quais deu também a resposta: "Se a ideia não é acabar connosco, parece", "se a ideia é acabar connosco, arrisca-se a ser eficaz".

Numa altura em que os órgãos de comunicação tradicionais se encontram numa situação crítica de redefinição devido à crise à transferência para o digital, hoje, mais do que nunca, urge discutir e perceber o papel da comunicação social no mundo que nos rodeia e a sua integração nas novas realidades.

É neste âmbito que vai avançar ao longo de todo o dia a conferência Media do Futuro, organizada em conjunto pelo Expresso e pela SIC Notícias.

Veja o discurso de Francisco Pinto Balsemão na abertura da conferência Media do Futuro

4 rápidas observações introdutórias:

1. Nunca é demais sublinhar o papel fundamental que os media profissionais, independentes,desempenham numa democracia que se quer substantiva e num momento em que é fundamental fomentar a coesão social e unir o país em torno de desígnios comuns e partilhados.

2. São tremendos os desafios conjunturais que o setor dos media enfrenta, hoje, em Portugal, (e que decorrem da retração de um mercado publicitário que reage sempre de forma muito elástica às variações do PIB).

3. Não são menos relevantes os desafios estruturais que os media travam, genericamente ligados à transição para o digital, e que requerem capacidade de investimento e de inovação para que se possam constituir em verdadeiras oportunidades (exemplos: OTT, Tabletes, etc..).

4. Deve ficar bem claro que o setor não reclama ajudas de qualquer tipo, tem financiado a sua própria mudança, está preparado para ajudar o país a ganhar competitividade, estará à altura das suas responsabilidades sociais, mas não pode aceitar que seja o próprio Governo a introduzir mais elementos de disrupção que ponham em causa todos os objetivos económicos e sociais, sem benefícios evidentes para ninguém. Falo em particular de um processo apressado de privatização da RTP que, não maximizando os benefícios potenciais para o Estado, lançará o setor - todo o setor, não apenas a televisão - para uma crise que será impeditiva da indispensável transformação em curso.

Vale a pena, para que não se pense que exagero, que se tenha a consciência da magnitude do que estamos a falar:

- A procura de publicidade em televisão diminuiu cerca de 30% entre 2007 e 2011.

- Em 2012 cairá mais 5%? Mais 10%? Ninguém pode saber ao certo.

- Com a privatização, nos moldes anunciados esta semana - manutenção dos 6 minutos por hora no canal de serviço público, mais 12 minutos no canal privatizado - estaremos a falar de um aumento de 40% da oferta de espaço publicitário.

- Oo efeito combinado destes dois fatores provocará uma queda potencial de receita em torno dos 60% para os operadores privados existentes, com dramáticos efeitos em cascata sobre a Imprensa, a Rádio, a Internet. Se a ideia não é acabar connosco, com os operadores privados, com os produtores independentes, com os jornais e com as rádios privadas, parece. Se é, arrisca-se a ser eficaz.

E aí, voltamos à minha primeira observação: nem os mais empedernidos monetaristas aceitarão que se trata apenas de uma questão de mortos e vivos, de uns que saem e de outros que entram, portugueses ou estrangeiros, quando é o funcionamento da democracia portuguesa que está em causa.

Acabar com o que ainda existe de jornalismo livre e independente em Portugal, ou mesmo limitar as condições do seu exercício é altamente perigoso nos tempos que hoje vivemos.

Organizada pelo Expresso e pela SIC Notícias, a Conferência Media do Futuro está a debater os desafios que se opõem às estruturas mediáticas tendo em conta o panorama atual, tanto no que toca à digitalização dos mass media, à crise e à concorrência.

A Conferência vai decorrer até ao final da tarde de hoje no Hotel Ritz, em Lisboa.