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Caso BPN

Mentiras e intrigas no Caso BPN

Ex-vice-governador do Banco de Portugal e Dias Loureiro com versões divergentes face ao encontro em 2001.

Isabel Vicente e Nicolau Santos*

"Se o dr. Dias Loureiro anda a dizer isso (que informou o Banco de Portugal em 2001 de problemas de gestão do BPN) ou está a fazer confusão com a pessoa ou a mentir", afirma ao Expresso António Marta, vice-governador do banco central, com a supervisão, à altura dos acontecimentos.

Marta vai mais longe e diz: "Ele veio perguntar-me porque é que o Banco de Portugal (BdP) andava tão em cima do BPN, ao que eu lhe respondi que isso tinha que ver com o facto do banco ter uma gestão pouco transparente e de haver muitos negócios entre a administração e os accionistas".

António Marta diz que Dias Loureiro saiu do BdP a dizer que as pessoas à frente do BPN "eram boa gente" e especifica: "Foi uma conversa a sós, até me lembro da sala onde decorreu. Se fosse uma coisa como ele diz, certamente que a teria transmitido ao senhor governador".

Dias Loureiro, que foi administrador-executivo da Sociedade Lusa de Negócios (SLN), afirmou esta semana: "Em Abril de 2001 fui ao Banco de Portugal e disse a António Marta que o modelo de gestão do grupo não me inspirava confiança e que havia accionistas que eu sentia que faziam negócios com o banco". Ao Expresso queixou-se que Oliveira Costa não despachava com ele, fazia poucas reuniões e não havia actas. "Quando pedi para haver actas deixou de haver reuniões", diz.

Como se justificam então as declarações de Dias Loureiro? "Ele quer ilibar-se", diz, peremptório, António Marta.

Apesar das dúvidas, Dias Loureiro aceitou assinar as contas relativas a 2001, onde não constava o negócio que ele e Oliveira Costa tinham feito pessoalmente em Porto Rico. e que escapou ao fisco e às autoridades de supervisão. É depois de assinar este relatório que, em Março de 2002, Dias Loureiro decidiu pôr à venda as suas acções do BPN (obtidas como moeda de troca da venda da Plêiade ao banco) e sair de administrador-executivo.

A aquisição das duas tecnológicas-fantasma em Porto Rico - Biometrics Imagineering Inc. e Novatech - foi feita por sugestão do próprio Dias Loureiro, através de contactos que tinha em Madrid com o empresário porto-riquenho, Hector Hoyos.

Segundo o Expresso apurou junto de uma fonte que participou nas conversas, Hector Hoyos deslocou-se a Portugal em 2001 em jacto particular e teve reuniões com Oliveira Costa e Dias Loureiro em casa deste último, no Estoril, para negociar a venda das participações nas duas empresas de Porto Rico.

Acordados os termos do negócio (que perfez 71,25 milhões de dólares), os dois administradores da SLN deslocaram-se a Porto Rico na companhia de Hoyos para concretizar a operação.

Mas a verdade é que nem a Biometrics Imagineering nem a Novatech tinham activos tangíveis, além de um escritório alugado em San Juan de Porto Rico que fechou poucos meses depois. O dinheiro destes 'investimentos', que nunca constou das contas oficiais da SLN, seguiu o seu curso via contas "offshore" e, tudo indica, terá sido partilhado pelos envolvidos no negócio. Mais tarde, Hoyos terá solicitado um 'reforço' do investimento, mas Oliveira Costa recusou.

Dias Loureiro chegou a deslocar-se mais duas vezes a Porto Rico. A última terá sido para dirimir um conflito existente entre Oliveira Costa e os sócios porto-riquenhos.

Ao Expresso o agora Conselheiro de Estado - que esteve no universo BPN, entre Janeiro de 2001 e Março de 2002 como administrador-executivo da SLN e depois disso como não executivo até 2005 - diz que depois de ter questionado o facto de as participações não estarem no Relatório de 2001, Oliveira Costa lhe respondeu: "Não as vê porque estas vão ser consolidadas na Seac Banche (tecnológica italiana que tinha sido adquirida pela Datacomp)". Acrescentou: "As participações estão parqueadas num veículo "offshore" e como vamos proceder a uma fusão na área tecnológica em 2002, não se preocupe. porque os revisores não fizeram qualquer reserva às contas". Por isso, diz, "assinei as contas. Não percebo nada de contabilidade".

Mas, logo de seguida sai de administrador-executivo porque como disse, "senti que havia ali um ambiente contra mim".

Dias Loureiro entra no grupo BPN por sua iniciativa quando em 2001 se dirige a Oliveira Costa, seu ex-colega de Governo, propondo-lhe a compra de 50% da Plêiade, empresa do grupo Roquette, que Loureiro administrara e onde tinha uma posição de 15%. Oliveira Costa comprou tudo e em troca Loureiro ficou com acções do grupo que vendeu em 2002 e lhe renderam cerca de €7 milhões.

Texto publicado na edição impressa do Expresso de dia 22 de Novembro

O antigo ministro da Administração Interna Dias Loureiro manifestou-se hoje "espantado" com declarações do vice-governador do Banco de Portugal, António Marta, citadas pelo Expresso, sobre uma conversa que tiveram sobre o BPN em 2001. Dias Loureiro reiterou hoje, à agência Lusa, o que disse ontem: "O que eu lhe fui dizer no dia 19 de Abril de 2005 às quatro da tarde foi exactamente aquilo que disse ontem aos portugueses", garantiu o antigo ministro, numa alusão à entrevista de ontem à noite ao primeiro canal da RTP. "Disse-lhe que não tinha nenhum facto concreto, mas que estava numa sociedade que tinha um banco e que isso me causava preocupação e que o Banco de Portugal devia estar atento", ao que António Marta lhe respondeu que "se soubesse alguma coisa em concreto e quisesse voltar a falar com ele no Banco de Portugal, privadamente, teria sempre a porta aberta". "Eu fiquei muito espantado com esta declaração do Dr. António Marta e peço às pessoas que pensem um bocadinho e ponderem se agora, no momento em que o BPN e a SLN estão a ser alvo das maiores suspeitas, alguém de bom senso acha que eu iria invocar uma conversa com o Dr. António Marta se ela tivesse sido aquela que ele disse que foi?", interrogou. Além disso, disse ainda Dias Loureiro à Lusa, "ninguém sabia na SLN que eu tinha ido ao Banco de Portugal, é a primeira vez que eu digo isto, nunca o disse a ninguém". "Se o que vem no Expresso e que eu não li ainda é que ele disse que eu fui lá dizer o contrário, que era tudo boa gente, que estivessem sossegados, não tinha sentido nenhum que numa altura destas eu viesse invocar essa conversa", acrescentou. "O que eu fui lá fazer foi aquilo que eu disse ontem aos portugueses na televisão, é a verdade" concluiu.

Lusa

O Presidente da República (PR), Cavaco Silva, foi um dos muitos accionistas que a Sociedade Lusa de Negócios (SLN) cativou para o seu capital ao longo dos anos. Cavaco teve um pequeno número de acções que manteve por pouco tempo, tendo-as vendido em 2003, segundo informação prestada ao Expresso em Janeiro pelo próprio Banco Português de Negócios (BPN). Também a sua filha Patrícia foi accionista da SLN. O Expresso perguntou ao PR por que motivo entrou no capital da SLN e saiu pouco tempo depois, mas fonte oficial da Presidência disse que não há comentários sobre este assunto. O grupo sempre foi considerado próximo do PSD. Um dos seus maiores accionistas é Joaquim Coimbra, membro do Conselho Nacional do PSD. Arlindo Carvalho, ex-ministro da Saúde de Cavaco, é outro dos accionistas.

9,5milhões de euros foram os rendimentos declarados por Dias Loureiro, no Tribunal Constitucional, em Abril de 2002. Destes, cerca de €7 milhões faziam parte de um depósito à ordem no BPN, resultante da venda da sua posição no Grupo SLN, adquirida na sequência da venda da Plêiade ao banco em 2001.

458mil euros foi o rendimento declarado por Dias Loureiro, em Março de 2005, enquanto deputado. A quebra abrupta do rendimento durante dois anos é justificada por Loureiro pela passagem, em 2002, de todo o seu património, em forma de suprimentos, para a DL-Gestão e Consultoria, empresa detida em parceria com as duas filhas.

  • "Avisei o Banco de Portugal em 2001"

    Em declarações ao Expresso, Dias Loureiro, ex-administrador do grupo SLN, diz que alertou o Banco de Portugal, em Abril de 2001, para a falta de confiança que tinha no modelo de gestão do grupo BPN. Quanto às empresas-fantasma que a SLN comprou em Porto Rico, Loureiro sublinha que estranhou estas não constarem do Relatório e Contas de 2001.