Siga-nos

Perfil

Expresso

Bollywood

À espera da próxima sessão (vídeo)

Homem fuma cigarro à entrada do cinema Maratha Mandir, em Bombaim

Paulete Matos

A história de um homem que aguarda pacientemente pela sessão da tarde de um filme que está há mais de 14 anos em cena.

Bernardo Mendonça (texto) e Paulete Matos (fotos), em Mumbai (www.expresso.pt)

 Meia dúzia de passas num cigarro indiano a anestesiarem o lento passar das horas. A desfiarem memórias, pensamentos. Os rolinhos fumegantes que este homem leva aos lábios são bem mais leves e aromáticos do que o tabaco português. As mãos que o seguram denunciam uma vida de trabalho pesado. Este sujeito está sentado no muro de um velho cinema na "Old City" em Bombaim.

Há horas que ali está. Não é o único. Ali à tarde chegam a formar-se filas de velhos desocupados e jovens estudantes, que torram os rostos castanhos ao sol para garantirem um lugar na sessão da tarde ao preço de 20 rupias. (Apenas trinta cêntimos, em euros). Um preço acessível à população num país em que mais de metade dos cidadãos são pobres e iletrados.

Assim, o cinema mantém-se o principal veículo de entretenimento e cultura dos indianos. Mais do que a TV. Até porque muitos não conseguem amealhar rupias suficientes para adquirir um televisor.

Mais umas baforadas para aliviar o tédio. Ele está ali para garantir um lugar na sessão da tarde de "Dilwale Dulhania Le Jayenge" ("Vem e apaixona-te!"), um dos mais bem sucedidos filmes da história indiana, em cena há mais de 14 anos naquele cinema. Foi esta comédia romântica que lançou a carreira de Shah Rukh Khan, actualmente uma das maiores estrelas cinematográficas da Índia. Khan está para Bollywood como Brad Pitt está para Hollywood.

O velho do cigarro já viu esta história vezes sem conta. Sabe as músicas de cor. Não se cansa. O que vale é o sentimento e a emoção que ele sente sempre que revê os rostos dos seus actores favoritos. Abrem-se as portas de ferro de acesso à sala de cinema. Uma manada de miúdos invade o átrio do antigo edifício. Este senhor segue calmamente atrás deles. Novamente recostado numa das cadeiras vermelhas da plateia, volta a evadir-se da sua (dura) realidade.

Durante três horas tem garantida uma história de amor perfeita, contada a cantar e a dançar em cenários de sonho e fantasia. É essa a essência de Bollywood.

 

Leia no próximo Sábado a reportagem nos bastidores de Bollywood na Revista Única.