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Expresso

IndieLisboa 2010

Salazar como você nunca o ouviu

Salazar numa das imagens de arquivo do filme Fantasia Lusitana

João Canijo realizou um documentário magnífico a partir de imagens de arquivo dos anos 40. Com a voz do ditador português em Dolby Surround. Chama-se "Fantasia Lusitana" e inaugura o "IndieLisboa" esta noite.

Francisco Ferreira (www.expresso.pt)

"E porquê ouvir hoje Salazar, pela primeira vez, em Dolby Surround, acima dos outros elementos da banda sonora?" perguntámos na semana passada a João Canijo. Horas antes, acabáramos de ver uma projecção privada do filme que hoje inaugura a 7ª edição do IndieLisboa, "Fantasia Lusitana". Irónico, Canijo respondeu: "é que, naquele tempo, a voz de Salazar era a voz de Deus..."

A ironia, de resto, é essencial aqui. "Fantasia Lusitana" trabalha inconscientes colectivos. À sua maneira, é um filme de montagem de atracções. A sua dialéctica trabalha entre o passado e o presente. Todas as imagens que vemos, os discursos que ouvimos, foram retirados dos escombros. Têm hoje 70 anos.

Refugiados

Em 1940, Lisboa é uma cidade cosmopolita pelas piores razões. Está repleta de refugiados. Para muitos daqueles, esta é a última porta para conseguir escapar à tirania e fugir para o outro lado do Atlântico.

A Europa está a ferro e fogo mas, em Lisboa, as luzes acendem-se à noite. Promovem-se exposições universais. Casamentos de príncipes e princesas. As vedetas de cinema desembarcam no Tejo. Lisboa está em paz.

Só que essa paz é repugnante. Aponta o dedo a um 'ser português' egoísta, conformado, indiferente. Portugal ontem, como hoje? Veja assim quem quiser ver. Foi assim que vimos o filme de Canijo. E também é por isso que o achamos excepcional.

"O que eu acho mais impressionante", acrescenta Canijo, "é a alegria que depois se vê nas caras das pessoas, nas fotos da celebração da vitória dos Aliados. Uma semana depois, há a manifestação de apoio a Salazar. E pronto: mais trinta anos..."

"Cospe-se em Lisboa"

Na (imagina-se) longa e complexa recolha do material de arquivo, os responsáveis pelo filme depararam-se com textos de alguns escritores que por cá passam naquele ano de 40: Alfred Döblin, Erika Mann, Antoine de Saint-Exupéry. São textos siderantes. Fazem-nos corar de vergonha.

Como este, de Döblin, o célebre autor de "Berlin Alexanderplatz": "Cospe-se em Lisboa. Não, não me enganei. Foi isto mesmo que eu quis dizer. É um fenómeno natural. Todos o fazem, novos e velhos, homens e mulheres, civis e militares. Cospem mesmo sem ter pastilha elástica, digamos que o fazem sem razão aparente, assim, sem mais nem menos. E o que significa esse cuspir? Portugal é um país neutro. Se estivesse a ser ocupado, como é o caso da Holanda e da Noruega, eu diria que se tratava de uma espécie de afirmação política ou de um desabafo. Mas, felizmente para nós, são independentes. Precisamos de uma explicação e encontramo-la no ruído. O cuspir e o ruído são parte do mesmo. Como não podem gritar continuamente e como nem todos dispõem de um badalo, cospe-se, manifestando, como tal, pelo menos uma boa vontade."

"Fantasia Lusitana" é exibido hoje à noite na sala 1 do Cinema São Jorge, às 21h30. Repete dia 28, quarta, na sala 3 do Cinema São Jorge, às 16h30.

Fantasia Lusitana

de João Canijo

(Competição Nacional)