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Crise no Egito

Novo Presidente do Egito promete respeitar tratados internacionais

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Mohamed Morsy, candidato da Irmandade Muçulmana e novo Presidente do Egito, promete prosseguir com a revolução e respeitar acordos bilaterais, inclusive o Tratado de Paz com Israel. Clique para visitar o dossiê Crise no Egito

Maria Luiza Rolim (www.expresso.pt)

"Sou o Presidente de todos os egípcios, sem exceção", afirmou domingo Mohamed Morsy, 60 anos, no seu primeiro discurso como chefe de Estado. O candidato da Irmandade Muçulmana foi eleito pelo povo egípcio, é islamista, não é militar, e derrotou nas urnas o primeiro-ministro do antigo regime, Ahmed Shafik, favorito do Exército.

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Morsy prometeu prosseguir com a revolução e respeitar os tratados internacionais, entre os quais supostamente estará incluído o que foi assinado com Israel em 1979, ao qual o novo Presidente não se referiu explicitamente. E pediu o apoio de todos os egípcios para a reconstrução do país.

Entretanto, o Presidente norte-americano Barack Obama já prometeu a Morsy "apoio na transição para a democracia"..

Morsy disse que respeitará os direitos das mulheres

No seu discurso, Morsy agradeceu aos mais de 900 mártires da revolução de 25 de janeiro, que morreram na sequência de confrontos com as autoridades quando pediam a renúncia de Hosnio Mubarak. "Sem esse sacrifício, eu não poderia estar aqui como o primeiro Presidente eleito da história no Egito. Temos que saudar a todos que regaram a árvore da liberdade com o seu sangue", disse.

O novo Presidente agradeceu também, por diversas vezes, a Alá, graças a quem "chegamos a este período histórico". Horas depois de reiterar o seu slogan de campanha, "o Islão é a solução",  Morsy acrescentou: "Alá é o nosso guia para o caminho certo. Não trairei Alá, e não trairei vocês. Não irei contra a vontade de Alá", deixando claro que vai governar para todos, muçulmanos e cristãos.

"Respeitaremos os direitos das mulheres e das crianças, os direitos humanos e os nossos acordoes internacionais", afirmou, enfatizando que o Egito deve buscar "relações internacionais equilibradas e basedas nos interesses mútuos e no respeito".

O Presidente eleito disse, também, que "não permitiremos qualquer interferência nos nossos assuntos internos, protegendo a nossa soberania nacional,  do mesmo modo que não apoiaremos interferências noutros países. O Egito tem capacidade para se defender sozinho".

Candidato islamista conquistou mais de 51% dos votos

Mohamed Morsy obteve 51,7% dos votos na segunda volta, o que pressupõe que contará com o apoio de pouco mais da metade da população egípcia. A outra metade (48,3%) apoiou Ahnmed Shafik, general na reserva e ex-primeiro-ministro de Mubarak.

A julgar pela celebração que se seguiu ao anúncio dos resultados das eleições, com dezenas de milhares de pessoas a tomarem conta da cidade do Cairo e da simbólica praça Tahrir para celebrar a sua vitória, o candidato islamista representava muito mais do que a alternativa possível ao candidato apoiado pelo Exército e pelos defensores do antigo regime.

Os islamistas e a Irmandade Muçulmana, que foi o maior partido de oposição durante a era de Mubarak, querem de volta o poder presidencial, recentemente esvasiado por decisão do Conselho Supremo das Forças Armadas. Resta saber até que ponto os militares estão dispostos a deixar o poder.

O novo Presidente já prometeu que vai respeitar os acordos bilaterais, mas que quer também restabelecer as relações com o Irão, interrompidas há mais de 30 anos. Mohamed Morsy afirmou que o reforço das relações entre o Irão e o Egito "criará um equilíbrio estratégico regional e faz parte do programa" da sua candidatura Adiantou, ainda, que vai "rever os acordos de Camp David" que estabeleceram a paz com Israel, mas que isso será feito pelos órgãos governamentais. "Não tomarei qualquer decisão sozinho.A nossa política face a Israel será baseada na igualdade porque não somos inferiores a eles. Debateremos o direito dos palestinianos porque isso é muito importante", adiantou. Pouco depois do anúncio dos resultados eleitorais no Egito, o Governo israelita emitiu um comunicado. "Israel apoia o processo democrático no Egito e respeita os resultados eleitorais das presidenciais. Israel espera continuar a cooperação com o Governo egípcio em função do tratado de paz entre ambos os países, que é de interesse mútuo e contribui para a estabilidade regional", afirmou Benjamin Netanyahu. Também o Irão congratulou-se com o novo Presidente do Egito, assinalando que a sua vitória, esplêndido exemplo de democracia, marca o despertar islâmico do país. Esta segunda-feira, os jornais israelitas expressam de forma unânime a sua inquietação sobre a nova situação na região após a vitória de Mohamed Morsy, o novo Presidente islamista do Egito, uma vez que os muçulmanos são pró-palestinianos. "Trevas no Egito" é a manchete do "Yediot Aharonot", o principal jornal popular de Israel, fazendo alusão a uma das dez pragas descritas na Bíblia. "Israel inquieta-se com a chegada ao poder do Islão extremista no Egito, apesar de Mohamed Morsy (o novo Presidente egípcio) ter prometido respeitar os compromissos internacionais do país", refere o jornal. "O temor tornou-se realidade: a Irmandade Muçulmana está no poder no Egito. O tratado de paz está em risco", afirma na primeira página o jornal "Maariv". "Nada vai mudar a curto prazo nas relações com o Egito, pois Morsy enfrenta desafios muito mais urgentes do que uma guerra com o Estado judeu", afirma Yaakov Katz, analista do "Jerusalem Post", acrescentando que "a chegada ao poder da Irmandade Muçulmana terá uma influência sobre a ameaça terrorista crescente no Sinai. A questão é saber se Morsy vai tomar ou não medidas para modificar esta situação". O jornal "Haaretz" também dedica a primeira página da sua edição de hoje à preocupação, de Israel, com a eleição do Presidente islamista egípcio. Mas cita uma fonte oficial, segundo a qual o Governo de Benjamin Netanyahu "espera" que Morsy considere que é primordial para o Egito recuperar a sua economia vacilante, ao invés de questionar os acordos bilaterais. O autor do blogue "Shalom Israel" afirma hoje, na Internet, que a "eleição do novo Presidente egípcio preocupa Israel. (...) o candidato da Irmandade Muçulmana ainda não "aqueceu a cadeira" do poder e já começa a causas justificadas razões de preocupação ao vizinho Israel. (...) Desde os acordos de paz feitos entre Israel e o Egipto em Camp David, em 1979, que não havia relações entre o Irão e o Egipto. Este sinal da "Irmandade Muçulmana de querer estreitar os laços com o Irão não surpreende, mas aumenta a preocupação dos israelitas, uma vez que esta declaração de Morsy evidenciam a ameaça de Israel estar sob a potencial pressão deste eixo composto pelo Irão- Hezbollah-Hamas e Egipto. Este "eixo do mal" com o Egito a sul, a Síria e o Hezbollah a norte e os terroristas do Hamas em Gaza constitui uma "tenaz ameaça" que vai abafando cada vez mais qualquer esperança de paz na região. Israel precisa de tudo menos dessa vitória dos islamitas num país com o qual podia até aqui viver tranquilo. Mas o bater do relógio profético não pode parar, e o Egipto ainda vai desempenhar um papel importante e trágico (para si) nestes dias finais da humanidade". Ontem, tal como aconteceu durante as eleições, o Egito fechou a fronteira de Rafah, no sul da Faixa de Gaza, tal como aconteceu durante a realização das presidenciais. Fonte oficial do Hamas disse que o encerramento, ontem, foi comunicado de forma repentina, logo após a passagem, nos dois sentidos, de alguns palestinianos, e que a medida deveria estar relacionada com o anúncio dos resultados das presidenciais.