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Bento XVI em Portugal

Vaticano atento a terroristas e manifestações antipedofilia

Autoridades vão reforçar vigilância nas fronteiras. Escândalo de pedofilia acrescenta dramatismo à visita do Papa Bento XVI a Portugal. Clique para aceder ao índice do dossiê Bento XVI em Portugal

Hugo Franco e Rosa Pedroso Lima (www.expresso.pt)

Clique para aceder ao índice do dossiê Bento XVI em Portugal São três as grandes preocupações dos serviços de inteligência do Vaticano para a visita de Bento XVI a Portugal: os ataques terroristas; as manifestações antipedofilia; e os actos desesperados de pessoas psicologicamente desequilibradas, à semelhança do que ocorreu em Dezembro, na Basílica de São Pedro, quando uma mulher saltou as barreiras de segurança e empurrou o Papa. "O passado psiquiátrico dos que estarão mais próximos de Bento XVI está a ser passado a pente fino", conta uma fonte policial. Ainda está presente na memória a tentativa de assassínio de João Paulo II, em Fátima, a 13 de Maio de 1981, pelo turco Ali Agca, considerado pelos tribunais como "desequilibrado mental".

Para Diogo Noivo, investigador do Instituto Português de Relações Internacionais e Segurança, esta viagem de Bento XVI, que se realiza entre 11 e 14 de Maio, é uma oportunidade de ouro para organizações criminosas que queiram notoriedade. "A secreta do Vaticano está muito atenta às chamadas self-starters cells, pequenos grupos de terroristas islâmicos sem ligações à Al-Qaeda, que agem por conta própria". Estas células estão disseminadas pela Europa e são responsáveis pela maioria dos atentados, concretizados e falhados, no continente, na última década. "Os serviços de informação não sabem quem são nem de onde vêm".

O escritor peruano Eric Frattini, especialista em assuntos do Vaticano, garante que "a secreta de Bento XVI não põe de parte um atentado de fundamentalistas islâmicos, mesmo num país de baixo risco como Portugal". Até ao momento não parece haver motivos para alarme. O SIS definiu o grau 3 de ameaça à visita do Papa (representa um risco "significativo" numa escala até 5), idêntica a qualquer chefe de Estado que visita o país.

Preservativos na rua

Numa altura em que crescem as denúncias de abuso sexual no seio da Igreja Católica, a viagem do Papa ganha um inesperado dramatismo. "O escândalo veio complicar a tarefa das polícias e faz aumentar as hipóteses de ameaças", reconhece José Manuel Anes, presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo.

O Vaticano tem uma lista de activistas que poderão vir a Portugal manifestar-se. "A haver protestos antipedofilia, serão à partida feitos por pessoas provenientes do estrangeiro", diz Anes.

O mesmo responsável levanta a possibilidade de o Governo vir a suspender temporariamente o acordo de Schengen durante a visita papal, a exemplo do que sucedeu no Euro 2004. "Haverá maiores cautelas nas fronteiras. As operações stop e de vigilância, bem como a identificação aleatória de indivíduos, vão aumentar", acrescenta. O gabinete do ministro da Administração Interna não comenta.

Na mira das autoridades estará também o movimento Preservativos 'ao' Papa em Portugal, que já conta com 7500 apoiantes e é, até ao momento, a única iniciativa pública, desalinhada da agenda oficial, anunciada. Os organizadores vão distribuir 25 mil preservativos nos locais percorridos por Bento XVI. "É uma sensibilização pacifista", garante Diogo Figueira, porta-voz da iniciativa, que critica as declarações "irresponsáveis" de Ratzinger sobre o uso do preservativo, na sua última visita a África. O movimento recebeu o apoio de várias ONG e já foi apelidado pelos detractores como "um braço do lobby gay". Diogo Figueira nega e revela que recebe todos os dias comentários e chamadas anónimas de pessoas, "ligadas à Igreja ou não", a criticar duramente a iniciativa.

Manual de segurança

Desde o anúncio da viagem, no final de 2009, os serviços de informação dos dois Estados têm estado em contacto permanente. Nos últimos meses, um núcleo restrito do comité de segurança de Bento XVI, de "três a quatro" agentes da gendarmaria do Vaticano, tem vindo a Lisboa com regularidade para coordenar a visita com o SIS, a PJ e a PSP. O manual de segurança já foi distribuído às polícias portuguesas.

  • Malta recebe hoje Bento XVI para uma visita marcada por ameaças de protestos de grupos homossexuais e de vítimas de pedofilia. Dez homens - alegadamente abusados por membros da Igreja, nos anos 80 e 90 - exigiram ser recebidos pelo Papa, à semelhança do que já aconteceu nos EUA e na Austrália. Ainda não está confirmada a audiência.
  • Grã-Bretanha, em Setembro, é uma visita de alto risco político. Há protestos marcados e até a ameaça de deter o Papa por "crimes contra a Humanidade" mal chegue. Ao escândalo de pedofilia junta-se a crise com a Igreja anglicana. O Papa agilizou a reconversão dos anglicanos tradicionalistas (que se opõem ao reconhecimento dos casamentos gay e à ordenação de mulheres), o que levou dezenas de bispos a passarem para o catolicismo

  • Pedidos especiais
  • A Santa Sé não fez qualquer pedido específico para a vinda do Papa a Portugal: nem sobre dieta alimentar nem sobre condições de instalação ou de alojamento de Bento XVI. Apenas os condicionalismos "próprios de uma pessoa idosa" exigem que se "evitem grandes percursos" ou a utilização de escadas com degraus altos. O papa dorme, em Lisboa, na Nunciatura, onde pernoitam ainda dez membros da sua comitiva pessoal, entre os quais os dois seguranças privados, o médico particular e os dois secretários. Em Fátima, o Papa fica na Casa de N. Srª do Carmo.
  • Voluntários e ofertas
  • Mais de 200 pessoas voluntárias trabalham em permanência para preparar a visita a Lisboa. Haverá um call center e várias equipas de preparação que trabalham pro bono. O maior evento será a missa: 400 acólitos, 70 diáconos e 350 padres já estão inscritos. O projecto de altar foi oferecido pelo arquitecto Pedro Castro, os paramentos de todos os participantes na cerimónia também foram oferta, tal como as flores e mobiliário. No final, tudo será 'reciclado' e entregue a instituições.
  • Custos e receitas revelados
  • A Igreja promete revelar antes da chegada de Bento XVI a lista completa de encargos e receitas para o Estado e para a Igreja que a vinda do Papa representa.

Texto publicado na edição impressa do Expresso de 17 de Abril de 2010.