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Expresso

Desaparecimento de Madeleine McCann

"Gonçalo Amaral é uma vergonha"

Na primeira entrevista desde que deixaram de ser suspeitos no desaparecimento da filha, Kate e Gerry McCann falam do relançamento da investigação, do medo que sentiram em Portugal e da certeza inabalável de que Madeleine foi raptada.

Raquel Moleiro e Rui Gustavo (entrevista) Rui Ochoa (fotos), enviados a Rothley

O que estão a fazer actualmente para encontrar Madeleine? Gerry - Há vários meses que temos investigadores privados a trabalhar connosco. Agora que o caso foi arquivado é mais fácil, porque acedemos ao processo. Fizemos novas entrevistas a quem já tinha testemunhado. E entrevistámos outras que vieram ter connosco e que nunca tinham falado antes. Kate - Como não sabíamos o que tinha sido feito pela PJ, repetimos tudo o que nos parecia importante.

As novas testemunhas dão pistas sobre o desaparecimento? Gerry - Algumas relatam avistamentos, mas não é provável que conduzam à nossa filha. Estamos mais interessados nas pessoas que dão informações credíveis que podem ser verificadas através de fotografias ou de outra forma; pessoas que sabem quem possa estar envolvido.

Que impressão têm do processo? Ficaram chocados com o conteúdo? Gerry - Fomos investigados ao mais ínfimo detalhe. Há volumes inteiros sobre nós. Esses podemos passar à frente. Deve ser informação inquietante, que não nos vai ajudar a encontrar a Madeleine.

Não acham que foi feito tudo o que era possível? A investigação chegou à Polónia, Holanda, Espanha, Marrocos... Gerry - Marrocos é um bom exemplo do que correu mal. Foi reportado um avistamento e disse-se que havia câmaras na bomba de gasolina. Quando os inspectores foram lá concluíram que não havia. A verdade é que não havia na zona de abastecimento, mas na loja. E quando a PJ voltou a cassete tinha sido regravada. Kate - É difícil descrever como é levarem-nos a nossa filha... Ansiamos por ver acção em todo o lado. Queríamos holofotes, queríamos helicópteros, queríamos toda a gente na rua à procura.

Se Madeleine tivesse desaparecido em Inglaterra tinha sido diferente? Gerry - Se tivesse sido numa cidade britânica, não tenho dúvida. Mas não sei se teria sido diferente se estivéssemos numa pequena localidade da Escócia. Claramente, a polícia inglesa tem mais experiência em raptos, está mais alerta.

“Nada no processo diz que Madeleine morreu", dizem os McCann

“Nada no processo diz que Madeleine morreu", dizem os McCann

Se tiverem uma pista importante sobre o paradeiro de Madeleine transmitem-na à polícia portuguesa? Gerry - Se for preciso fazer algo em Portugal, tem de ser. Não podemos andar a arrombar portas ou a prender pessoas. Mas só quando sentirmos que sozinhos não podemos avançar mais.

Confiam nas autoridades portuguesas, depois de serem considerados suspeitos? Gerry - Não nos importávamos se tivéssemos sido investigados logo no início, se achassem que isso ajudava. Mas meses depois, quando as provas tinham sido perdidas? É que uma vez instalada a suspeição, nunca mais conseguimos provar a inocência.

Não acharam estranho que os cães tenham encontrado vestígios de sangue no vosso quarto e no carro de aluguer... Gerry - Não foi encontrado sangue! Os indícios não têm valor sem serem corroborados por informação forense. E não foram.

Foram investigados 40 apartamentos e os cães só sinalizaram o vosso. Dez carros e só reagiram ao vosso. Gerry - A fragilidade destes cães foi provada num estudo realizado nos EUA, a propósito de um homem acusado de homicídio. Tinham dez quartos, e em cada um colocaram quatro caixas com vegetais, ossos, lixo. Algumas tinham restos humanos. Ficaram lá dez horas. Oito horas depois de terem tirado as caixas vieram os cães. E os cães erraram em dois terços das tentativas. Imaginem a fiabilidade quando estes cães testam um apartamento três meses depois do desaparecimento de uma criança.

Ficaram surpreendidos quando foram constituídos arguidos? Kate - Não foi surpreendente depois de semanas com os "media" a dizerem que éramos suspeitos. E aí temos de perguntar porque é que a informação chegou deturpada aos "media". Por que dizem os jornais que foi encontrado sangue no apartamento quando o relatório da polícia não o confirma? Por que razão foi dito que o ADN encontrado no carro tinha uma exactidão de 100% com o de Madeleine? Gerry - De certa forma gostaríamos de ter sido acusados para nos podermos defender abertamente. Agora, lendo o processo, não há qualquer prova que justifique a suspeita, a não ser a acção dos cães. Nunca houve uma explicação sustentada. E o interrogatório: 'O que é que aconteceu à Madeleine? Como se livraram dela? Quem vos ajudou? Onde a puseram?' Só fantasia! Se tivessem encontrado ADN - e depois? E se a Madeleine se tivesse magoado no apartamento - por que razão tinha de ser nossa culpa?

Investigam informações que apontem para a morte de Madeleine? Kate - Queremos encontrá-la viva, mas se estiver morta queremos saber.

O casal continua a usar as pulseiras amarelas, símbolo da sua busca por Maddie

O casal continua a usar as pulseiras amarelas, símbolo da sua busca por Maddie

Ainda acreditam que está viva? Kate - Há grandes hipóteses de estar viva, não é? Não há nada no processo que indicie que algo de mau lhe aconteceu...

Mas também não há indícios de que tenha sido raptada. Gerry - Acreditamos firmemente que ela foi raptada por um homem, minutos depois de eu a ter ido ver ao quarto. Há duas testemunhas independentes que viram uma criança com cerca de quatro anos a ser transportada naquela noite. A nossa amiga Jane Tanner viu e a família Smith também.

A PJ desacredita o testemunho de Jane Tanner. Diz que quando ela viu o dito homem com a criança, o Gerry estava a conversar nas imediações e era impossível que não tivesse visto também... Gerry - Eu não a vi foi porque estava de costas para o local por onde ela passou. Estava a falar com um amigo. E há também o casal com as crianças que viu um homem a levar uma criança com um pijama semelhante ao de Madeleine, cabelo louro, da mesma idade.

Mais tarde essa família afirmou que o homem que tinham visto era o Gerry... Gerry - A essa hora eu estava no restaurante. O facto de nos termos tornado suspeitos terá influenciado o testemunho dos Smith.

Foi uma coincidência terem sido constituídos arguidos num dia e terem regressado a casa no seguinte? Gerry - Interrogaram-nos nesse dia porque a PJ sabia do nosso regresso.

Tiveram medo de ser presos? Kate - Obviamente. A certa altura não sabíamos bem o que podia acontecer. Gerry - Pela informação nos jornais, é claro que tivemos medo. Foi assustador.

Estando em Inglaterra já não seriam extraditados. Gerry - Nós perguntámos ao inspector encarregue do caso se tinha alguma objecção: a resposta foi não. É claro que receámos que as pessoas pudessem pensar que estávamos a fugir, mas era melhor não estar em Portugal naquela altura.

Porquê? Kate - Por causa do ambiente hostil. Nem podíamos sair de casa.

Porque é que, durante o interrogatório, a Kate recusou responder a perguntas que no dia seguinte Gerry aceitou esclarecer? Kate - Fui aconselhada pelo meu advogado português a não responder. Gerry - Eu recebi o mesmo conselho mas decidi desobedecer. O meu plano era ficar calado, mas a primeira pergunta foi: está envolvido no desaparecimento da sua filha? Era um disparate e decidi responder. A partir daí respondi a todas.

Por que razão não autorizaram que a polícia visse as mensagens que mandou e recebeu no telemóvel na véspera do desaparecimento de Maddie. Gerry - Ninguém pediu para ver as minhas mensagens. Na véspera e no dia do desaparecimento não recebi nem mandei 16 mensagens. Mal sabia escrever sms. Recebi umas três ou quatro chamadas e duas foram do trabalho. Depois do desaparecimento recebi centenas. E quando a polícia me pediu o registo disse-lhes para pedirem à operadora. O meu telefone só regista as últimas dez.

O inspector-chefe do caso, Tavares de Almeida, escreve um relatório onde diz que os vossos amigos mentiram para vos salvar, que a Maddie morreu na sala, e que vocês esconderam o corpo. Gerry - O que é que podemos dizer? Terá de perguntar aos responsáveis da polícia porque é que escreveram isso, porque é que nos viram como suspeitos.

A maioria dos crimes onde as vítimas são crianças são cometidos pelos pais. Gerry - Não no caso de crianças raptadas. E este é o caso de uma criança raptada. É um caso excepcional.

Ao arquivar, o procurador diz que a investigação pode ser reaberta caso apareça uma nova pista. Acham possível? Kate - Claro! Pode acontecer a qualquer momento. Basta que uma pessoa faça o telefonema que tanto esperamos. Sabemos que ela foi raptada em Portugal e acreditamos veementemente que alguém saiba ou suspeite de alguma coisa.

'O comportamento do sr. Amaral é uma vergonha'

O ex-inspector Gonçalo Amaral continua convicto do vosso envolvimento no desaparecimento de Madeleine. Leram 'A Verdade da Mentira', o livro que ele escreveu? Kate e Gerry - Não. Kate - Porque leria? Gerry - Não vou aprender nada ao lê-lo.

Em Portugal, foi um sucesso. Gerry - Foi? Vendeu quantas cópias?

Cerca de 200 mil. Na próxima semana é editado em Espanha. Gerry - É o que se pode chamar enriquecimento ilícito.

Os vossos advogados ingleses já têm uma cópia traduzida e estão a analisá-la. Tencionam processar judicialmente Gonçalo Amaral? Gerry - Neste momento estamos focados naquilo que podemos fazer para encontrar Madeleine e não em processar seja quem for. Kate - Tudo o que vou dizer sobre isto - porque não vou perder tempo com o sr. Amaral - é que como profissional e como pessoa o seu comportamento tem sido uma vergonha.

Não têm curiosidade em saber o que diz o livro? Kate - Para quê? Deve ser só um monte de disparates. É tão secundário... Não vai, certamente, ajudar a encontrar a nossa filha. Serve-me de consolo que na capa chama-lhe Maddie, o nome que a comunicação social inventou. Nós nunca lhe chamámos tal coisa.

Mas conhecem a teoria que Gonçalo Amaral defende: Maddie morreu, acidentalmente, no apartamento do The Ocean Club e vocês ocultaram o corpo. Gerry - É mesmo uma perda de tempo. E nós precisamos de todo o tempo possível para analisar os documentos da investigação, que têm imensa informação que desconhecíamos. Kate - Basta cruzar, por alto, a teoria dele com o processo para perceber que os factos que relata estão incorrectos.

Há uma tese que defende que o coordenador foi afastado da investigação por pressões políticas britânicas. Gerry - Quem é que o demitiu?

O director nacional da PJ. Gerry - Então, tem de lhe perguntar se foi pressionado. Ou se o Gordon Brown discutiu o caso com ele. De certeza que não.

Também se demitiu. E muito por acção deste processo. Gerry - Não foi o que me constou. Aparentemente tinha uma visão diferente do ministro da Justiça sobre a própria polícia.

Em última análise ambos saíram da PJ porque a investigação falhou. Gerry - Não é culpa nossa. Eu não critico as autoridades por não terem tentado encontrar a Madeleine. Já não interessa. Agora só nos importa fazermos tudo para a tentar encontrar, pelos nossos meios.

Chegaram a conhecer Gonçalo Amaral? Kate - A pergunta é ao contrário: ele chegou a conhecer-nos?

Gerry voltou a trabalhar como cardiologista, Kate não mais exerceu medicina. Os gémeos Sean e Amelie enchem os seus dias de mãe.

Como mudou a vossa vida com o desaparecimento da Madeleine? Gerry - Independentemente do que venha a acontecer, nunca mais será a mesma. Se falarem com outros pais de crianças raptadas, eles também referem esta vida paralela em que entrámos. O Sean e a Amelie, por serem tão pequenos, obrigam-nos a incutir uma certa normalidade na nossa vida, a fazê-la normal por eles. E são eles que, por instantes, a tornam normal para nós. Mas para nós nunca será normal. Eles têm três anos e meio e são muito, muito felizes.

Explicaram aos gémeos o que aconteceu à irmã? Kate - Eles apercebem-se perfeitamente da ausência de Madeleine. Não tenho qualquer dúvida. Mas não sabem pormenores. Sabem que desapareceu e que estamos à procura dela. Gerry - Fomos aconselhados sobre o que devíamos dizer-lhes, como e quando. Maiores explicações estão guardadas para mais tarde. Percebemos que sentem a falta da irmã mais velha. Sabem que não é uma coisa boa ela não estar connosco, e têm esperança de que volte.

Como é que mantêm a Madeleine presente nas vossas vidas? Kate - Há fotografias dela por toda a casa. E todos os dias falamos com os gémeos sobre ela - é uma parte importante da vida deles. O Sean e a Amelie falam dela e ainda a incluem nas suas brincadeiras... Se recebem doces, dizem "Vamos guardar um para a Madeleine". Ou "Quando ela chegar a casa vou dar-lhe isto ou aquilo". É ternurento e torna os nossos dias menos difíceis.

Temeram ficar sem a custódia do Sean e da Amelie por terem tido um comportamento apontado como negligente? Gerry - Não fomos negligentes, fizemos o que qualquer pai razoável faria. Mas lamentamos profundamente o que aconteceu, porque alguém viu na nossa actuação uma oportunidade para levar Madeleine. Eu sou uma pessoa optimista. Nunca pensaria que uma coisa destas pudesse acontecer.

Mudaram a maneira de lidar com o Sean e a Amelie? Gerry - Somos mais protectores e menos confiantes. Não voltámos a deixar os nossos filhos sozinhos e muitas famílias não mais o farão por causa de nós. Kate - Agora pensamos em tudo o que pode acontecer, em predadores, raptores. No "shopping" nem os largamos.

Kate e Gerry estão diferentes. Mais descontraídos, ou conformados. É difícil perceber. "Os gémeos obrigam-nos a uma certa normalidade", explica a mãe. Passaram 16 meses e o mistério do desaparecimento de Madeleine McCann continua por esclarecer.

Os pais já foram vítimas de uma tragédia e suspeitos de um crime terrível. O processo foi arquivado, mas são julgados todos os dias. Gerry concorda: "A partir do momento em que se instala a suspeição, nunca mais conseguimos provar a inocência".

Esta é a primeira entrevista desde que o processo foi arquivado, a 21 de Julho. É marcada em Rothley, pequena vila das Midlands britânicas onde ninguém suspeita da culpa dos McCann. Muito menos a dona do Court House Hotel, instalado num edifício medieval e onde decorre a entrevista, no final da tarde da última segunda-feira. Há chá com leite e bolinhos secos. Não há guião nem perguntas proibidas.

Em quase duas horas de entrevista, Kate e Gerry, ambos já chegados aos 40 anos, deixam clara a intenção que suporta a sua disponibilidade para a conversa. "Acreditamos que em Portugal alguém sabe da Madeleine, que é aí que está a solução para o desaparecimento da nossa filha". E querem que esse alguém, singular ou colectivo, saiba que o procuram, que lhe asseguram anonimato e que até lhe dão 2,5 milhões de libras se lhes disser onde está Madeleine.

Todos os dias, na sua casa de tijolinho muito "british". esmiúçam um pouco mais o processo da investigação da Polícia Judiciária, que estão a consultar pessoalmente à medida que vai sendo traduzido. De português percebem "nada". De uma primeira leitura reforçaram a esperança de encontrar Maddie com vida. Nada lhes diz que está morta. Os volumes sobre eles, da altura em que foram arguidos, já os colocaram de lado. "Não tencionamos lê-los". Lembram-lhes os dias em que tiveram medo de ficar presos em Portugal, acusados da morte de Madeleine.

McCann dizem que o Fundo já gastou €1,2 milhões com a investigação privada. Mas mantém-se a recompensa de €3 milhões

Quanto gastaram, até agora, na investigação privada? Gerry - Cerca de um milhão de libras, nos últimos dez meses, pagos com dinheiro do fundo FindMadeleine. Na nossa defesa também foi gasta uma soma substancial, mas dois benfeitores asseguraram a despesa, o que significa que o fundo só foi usado na procura da nossa filha.

Mantêm a oferta de 2,5 milhões de libras a quem encontrar Madeleine? Gerry - Não controlamos essa recompensa, mas tudo me leva a crer que se mantém. E que haverá também dinheiro disponível para quem forneça informações credíveis Kate - É muito dinheiro, mas não podemos estabelecer limites, uma criança não tem preço. Pagamos o que tiver que ser.

Ainda há dinheiro no fundo? Gerry - Ainda resta algum dinheiro. Recentemente, os jornais britânicos ('Express newspapers') pagaram-nos uma indemnização de 550 mil libras, que alimentou o fundo. Isso teve um impacto importante. E continua a haver doações, pessoas que enviam dinheiro directamente.

Mas menos do que no início, antes de serem constituídos arguidos. Gerry - Claro! Quem ficou com dúvidas deixou de contribuir. Muitos escrevem-nos a pedir desculpa por terem acreditado na nossa culpa. Sabemos que temos que nos esforçar para que as pessoas saibam que não há provas de que Madeleine está morta e que nós não estivemos envolvidos no desaparecimento. Artigo publicado na edição impressa do Expresso de 6 de Setembro de 2008, 1º Caderno, páginas 24, 25 e 26.

McCann tiveram medo de ser presos em Portugal