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Expresso

Futuro Sustentável 2010

"Este pode ser o melhor ou o pior século de sempre"

Mudança Sistemática no Século XXI: Impactos e papel da Biodiversidade foi o tema da conferência de Ian Goldin em Lisboa

Luiz Carvalho

Ian Goldin: Director da James Martin 21st Century School (Universidade de Oxford.

Texto Virgílio Azevedo (www.expresso.p)

Francisco Pinto Balsemão e Henrique Monteiro, director do Expresso, com Ian Goldin

Francisco Pinto Balsemão e Henrique Monteiro, director do Expresso, com Ian Goldin

Luiz Carvalho

Foi para uma audiência de mais de 200 conhecidos empresários, gestores, académicos, ambientalistas e políticos que o economista sul-africano Ian Goldin falou esta semana em Lisboa, no Hotel Ritz, sobre os grandes desafios do século XXI, numa conferência integrada no Mês do Desenvolvimento Sustentável, uma iniciativa conjunta do Expresso e do BES.

"Mudança Sistémica no Século XXI: Impactos e Papel da Biodiversidade" foi o tema da conferência, onde as vantagens e os riscos da globalização estiveram também em destaque. Ian Goldin, autor de 12 livros, é desde 2006 director da James Martin 21st Century School, uma faculdade da Universidade de Oxford com 30 institutos de investigação dedicados a três áreas fundamentais: as fronteiras da medicina; a energia e ambiente; e a mudança social. O economista, de 55 anos, que foi apresentado pelo director do Expresso, Henrique Monteiro, ocupou o cargo de vice-presidente do Banco Mundial durante quatro anos, foi presidente executivo do Banco de Desenvolvimento da África Austral e conselheiro de Nelson Mandela quando este era Presidente da África do Sul (1995-2001). O valor da biodiversidade, a crise e as graves ameaças que esta hoje enfrenta e o que devem fazer as empresas e os governos para a conservar foram os temas abordados por Ian Goldin, tanto a nível global, como no contexto concreto da realidade portuguesa.

O caos provocado nos transportes aéreos pela erupção vulcânica na Islândia é um bom exemplo da emergência de um mundo interdependente, mas frágil em termos sistémicos, como costuma dizer? Sem dúvida. É totalmente inesperado, temos pensado em muitos choques potenciais no sistema mundial, mas nunca num vulcão. A última vez que aconteceu uma erupção do mesmo género, há 200 anos, a sociedade e a tecnologia eram muito diferentes - foi antes da explosão demográfica e da emergência dos transportes aéreos - e em muitos choques sistémicos actuais não podemos usar a experiência do passado para os enfrentar porque o mundo mudou demasiado. E vimos também, no caso do vulcão, uma reacção excessiva em termos de gestão de risco, com as pessoas furiosas por causa do cancelamento de voos por razões de segurança, mas é a componente necessária desta gestão de risco, porque ninguém quer que um avião caia.

A ministra do Ambiente e do Ordenamento do Território, Dulce Pássaro, com o conferencista

A ministra do Ambiente e do Ordenamento do Território, Dulce Pássaro, com o conferencista

Luiz Carvalho

Tem defendido que as instituições internacionais de governação como a ONU, o FMI, o Banco Mundial ou o G20 não estão preparadas para os desafios do mundo globalizado do século XXI. Precisamos de novas instituições? As instituições actuais não têm capacidade suficiente para lidar com estes desafios, e este é o principal problema do nosso tempo, que vai determinar se o século XXI será o nosso melhor ou pior século. Se formos capazes de estabelecer um sistema de gestão global, que possa lidar com a nova maneira como os grandes desafios se manifestam, da pobreza à doença, teremos um século maravilhoso. Mas se não o conseguirmos, o sistema mundial vai conduzir-nos a choques crescentes. A globalização trouxe enormes benefícios, mas criou uma aldeia global onde o mundo nunca esteve tão interdependente. E o nosso sistema de gestão internacional nunca reconheceu esta realidade.

Porquê? Porque nos baseamos em sistemas de gestão nacionais onde as instituições globais não têm poder ou capacidade para intervir, e por isso vamos precisar de uma combinação de reformas radicais, novas competências e talvez novas instituições, embora eu fique sempre nervoso com esta ideia porque é muito fácil criar instituições, mas, como sabemos da experiência adquirida depois da Segunda Guerra Mundial, é muito difícil extingui-las. A resposta não está aí, está em criar as competências adequadas com a autoridade adequada, isto é, com legitimidade e poder executivo para gerir os problemas globais. Mas aqui é que está a dificuldade, porque o sistema financeiro, que é o sistema mais bem gerido do mundo (bancos centrais, ministérios das Finanças, FMI, Banco Mundial, mecanismos de estabilidade financeira), não impediu a emergência da crise financeira, porque uma parte das competências das instituições financeiras estava errada, e os seus responsáveis viram a crise chegar e não tiveram poder para a enfrentar e para tomar as medidas adequadas.

Goldin mostra aos participantes os hotspots da biodiversidade no mundo, onde inclui Portugal

Goldin mostra aos participantes os hotspots da biodiversidade no mundo, onde inclui Portugal

Luiz Carvalho

Estas dificuldades de governação global estão na origem de problemas como a gestão da floresta amazónica, a fraca ajuda aos países em desenvolvimento ou o fracasso das negociações climáticas? Todos estes problemas têm uma dimensão local, nacional e global, pelo que as soluções precisam de ser globais, mas, no fim, as acções são locais. E isto é verdade em todas as áreas de gestão de risco no século XXI. Precisamos de assegurar que as pessoas a nível local estão realmente interessadas em que tudo funcione. As perguntas a que temos de dar respostas têm de ser do género: como podemos ajudar o governo da Amazónia a gerir melhor as florestas e a biodiversidade?

Hoje é o Dia da Terra e estamos no Ano Internacional da Biodiversidade, mas os últimos relatórios sobre a situação no mundo e na Europa não são muito animadores. Estamos à beira de uma nova grande extinção das espécies? Seguramente que estamos a entrar numa fase de grande extinção, o ritmo dessa extinção está a ser mais rápido do que alguma vez foi antes, e está a acelerar. Sabemos quais são as suas causas - a urbanização, a perda de habitats, as alterações climáticas - e também sabemos que somos ignorantes, que não conseguimos entender totalmente as implicações deste processo. É um problema fundamental, precisamos de melhorar o nosso conhecimento nesta área e de aumentar os recursos destinados a este objectivo, bem como alterar o nosso comportamento individual, de modo a percebermos bem como estes ecossistemas são vitais. Em Portugal os ecossistemas fornecem uma parte muito significativa do emprego e da criação de riqueza (PIB), há cerca de um milhão de pessoas a trabalhar no sector do turismo e viagens que dependem dos ecossistemas, assim como a actividade agrícola.

O que podem fazer as empresas e o mundo dos negócios em geral para preservar e promover a biodiversidade? O sector privado pode ter um papel importante de muitas maneiras. Qualquer negócio deve pensar no que pode fazer à sua dimensão ambiental, à sua pegada de carbono. Como gere os sistemas de aquecimento e arrefecimento das suas instalações, como concebe a sua política de viagens, que regras tem relativamente aos seus fornecedores de energia ou papel, que produtos e serviços oferece para que os seus clientes criem uma economia mais verde. Se estivermos a falar num banco, será que este está a oferecer produtos que sejam bons para o ambiente e para o desenvolvimento sustentável? E todos estes negócios, pequenos ou grandes, envolvem pessoas que, desde os gestores de topo aos empregados podem mudar individualmente o seu comportamento. Os líderes do sector privado têm muito poder na sociedade, são olhados como exemplos a seguir em todo o mundo. E usar este estatuto de liderança é extremamente importante para estimular a imitação de comportamentos entre a população em geral. Além disso, estes líderes podem também influenciar as políticas governamentais.

Ricardo Salgado, presidente do BES, e Francisco Balsemão oferecem presente ao conferencista

Ricardo Salgado, presidente do BES, e Francisco Balsemão oferecem presente ao conferencista

Luiz Carvalho

A biodiversidade é uma oportunidade de negócio? É, sem dúvida, uma boa oportunidade para o desenvolvimento de negócios inovadores e diversificados. Na concepção de novos medicamentos, por exemplo, a biodiversidade é fundamental, incluindo os medicamentos mais recentes para curar a malária. Tem, assim, uma importância decisiva na indústria farmacêutica. E o mesmo acontece na agricultura, na produção florestal, na indústria de madeira e mobiliário, onde pode criar dinâmicos nichos de mercado.

No caso do turismo e viagens, a biodiversidade é uma oportunidade de negócio enorme, e acredito que os empresários vão compreender cada vez melhor que fazer turismo e viajar de uma forma sustentável traz vantagens comparativas. Isto é particularmente importante para Portugal, onde o turismo e viagens representa 13% do PIB e emprega quase um milhão de pessoas, prevendo-se um crescimento para 1,2 milhões em 2020. Portugal não está no lugar que deveria estar no sector do turismo e viagens. Poderia estar no topo do ranking europeu do turismo e está apenas em sétimo lugar em termos de receitas. E penso que uma das maneiras de Portugal se diferenciar e crescer fortemente neste sector é demonstrar que é um destino turístico verde, o que constituiria uma oportunidade de negócio para muita gente.

O que é dirigir uma faculdade na Universidade de Oxford com objectivos tão ambiciosos e áreas de investigação tão diversificadas, distribuídas por 30 institutos? Somos uma escola recente, criada em 2005, mas já conseguimos um financiamento total de 150 milhões de euros da Universidade de Oxford e de outras fontes. Enfim, temos recursos financeiros. A humanidade está numa encruzilhada e a nossa ambição é contribuir para a resolução dos principais problemas que enfrenta neste século, que pode ser o melhor século de sempre se formos capazes de usar o nosso conhecimento e a nossa tecnologia na sociedade global para reduzirmos a pobreza e as doenças, conseguirmos a cura do cancro, ou enfrentarmos as alterações climáticas. Ou poderá ser o pior século de sempre se, em resultado da nossa crescente interdependência e evolução tecnológica nos autodestruirmos. E há muitas maneiras de nos autodestruirmos (risos). Acreditamos que o futuro depende da capacidade das mentes mais brilhantes se juntarem e pensarem em novos caminhos para a resolução dos grandes problemas do planeta, e não apenas pensarem, mas também ligarem-se ao mundo das políticas e do sector privado. Por isso, o projecto desta escola é muito ambicioso. Temos um total de 400 investigadores e criámos equipas que trabalham de forma inovadora.

Está a preparar novos livros? Sim. Estou a preparar três novos livros. O mais adiantado será lançado em breve pela Princeton University Press com o título "Gente Excepcional". O seu objectivo é compreender o passado, o presente e o futuro das migrações e a sua contribuição para o desenvolvimento das sociedades. E a ideia de fundo é que todos nós somos de algum modo migrantes no mundo globalizado.