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Expresso

Futuro Sustentável 2010

As novas pradarias no fundo do mar

Arrábida Chama-se Biomares e é um projecto nacional pioneiro, que já plantou 50 prados marinhos para atrair de novo as espécies que têm feito da região um hot spot de biodiversidade.

Virgílio Azevedo (www.expresso.pt)

São zonas de refúgio e de reprodução de uma imensidade de espécies de peixes, crustáceos, bivalves, poliquetas (vermes) e equinodermes (estrelas, ouriços do mar), cobertas por uma rica e nutritiva vegetação marinha. E estão espalhadas por toda a costa portuguesa, em especial no sul do país.

Mas junto da serra da Arrábida, quando o estuário do Sado acaba e começa o mar aberto, a pesca intensiva com traineiras e grandes redes, a utilização de artes destrutivas dos fundos marinhos como o arrasto com ganchorras (gaiolas com pentes para a apanha de bivalves) e a ancoragem desordenada de barcos de recreio arrancaram os prados marinhos, alteraram a natureza dos sedimentos e expulsaram a fauna que aí prosperava, destruindo comunidades que cresciam nas rochas e recifes ao largo do Portinho da Arrábida e de outras praias da região. Uma região que se quer candidatar a Património Mundial da UNESCO.

Biólogos plantam e protegem os prados

Biólogos plantam e protegem os prados

Pedro Neves

Nesta faixa costeira de 38 km de extensão que constitui o Parque Marinho Professor Luiz Saldanha - entre a Praia da Figueirinha, na saída do estuário do Sado, e a Praia da Foz, a norte do cabo Espichel - está a decorrer desde há dois anos e meio um projecto pioneiro em Portugal: a plantação de prados marinhos para atrair de novo as espécies castigadas pelo excessivo esforço de pesca, numa zona considerada pelos biólogos como um hot spot de biodiversidade. O projecto chama-se Biomares e já permitiu a plantação de 50 novos prados onde espécies em declínio, ameaçadas ou em perigo estão a regressar, como o cação-liso, o cação-perna-de-moça, a raia-branca, o tamboril ou o pregado.

220 novas espécies registadas

No último relatório do Centro de Ciências do Mar (Universidade do Algarve), que coordena o Biomares, constata-se que a monitorização feita pelo projecto no Parque Luiz Saldanha veio acrescentar 220 novas espécies "à já longa lista de registos dentro do parque marinho", e eleva para 1320 o número de espécies registadas no local.

Alexandra Cunha, coordenadora do Biomares e investigadora da Universidade do Algarve, explicou ao Expresso num intervalo da Conferência Internacional sobre Conservação Costeira, realizada no Estoril, que as conclusões deste relatório "mostram que existe uma tendência positiva, mas precisamos de dados mais consolidados, porque as pradarias marinhas demoram muito tempo a crescer - 10 anos em média -, o que significa que os quatro anos do Biomares (2007-2010) são insuficientes para sabermos com rigor qual o impacto do projecto na recuperação da biodiversidade marinha da Arrábida".

As pradarias marinhas já recuperadas

As pradarias marinhas já recuperadas

Pedro Neves

Aliás, "estudos feitos em áreas marinhas protegidas em todo o mundo indicam que só ao fim de 10 anos é que os ecossistemas se equilibram depois de serem afectados pelo excesso de actividade pesqueira". Por isso mesmo os responsáveis pelo Biomares - que envolve 70 pessoas, 30 das quais cientistas, e foi financiado pelo Programa LIFE da Comissão Europeia - estão a negociar com os parceiros a continuação do projecto para depois de 2010. Os parceiros são, além do Centro de Ciências do Mar (CCMAR), a cimenteira Secil (co-financiadora do projecto), o Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade (ICNB), o Instituto Nacional de Recursos Biológicos/Ipimar, o Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA), o Consejo Superior de Investigaciones Científicas (Universidade das Ilhas Baleares, Espanha) e a conhecida agência federal norte-americana National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA).

Plantar mais 10 pradarias

"Estamos a preparar uma nova candidatura ao programa europeu LIFE", revela Alexandra Cunha, "e em 2010 vamos reforçar as 50 pradarias já plantadas, que se encontram em zonas mais abrigadas, e criar 10 novas pradarias em zonas menos abrigadas". O objectivo continua a ser a recuperação da biodiversidade, um conceito que pode ser definido como a variedade e a variabilidade existentes entre os organismos vivos e os processos ecológicos nos quais estas ocorrem. E além de zonas de refúgio e de reprodução dos peixes as pradarias promovem a qualidade da água do mar, porque funcionam como filtros biológicos naturais.

Os recifes rochosos não se dão com as âncoras

Os recifes rochosos não se dão com as âncoras

Pedro Neves

Entretanto, um dos objectivos principais do Biomares é reconciliar as actividades turísticas e económicas com a conservação da Natureza. Por isso foram já espalhadas pela superfície do mar, no Parque Luiz Saldanha, cerca de 100 'Bóias Amigas do Ambiente'. As âncoras dos barcos de recreio e os cabos que as seguram varriam o fundo do mar e destruíam habitats, mas com estas bóias presas ao fundo por cabos totalmente esticados, os barcos amarram-se a elas quando precisam de estacionar, dispensando as âncoras. É um sistema usado em todo o mundo, em especial nas zonas de corais.

Quanto à actividade pesqueira, "é permitida apenas a pesca artesanal (embarcações até nove metros de comprimento), porque não danifica os habitats com redes ou ganchorras, sendo por isso mesmo mais sustentável", garante Alexandra Cunha.