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Expresso

O que a censura cortou

Revista 'Time' entrevista as 'Três Marias'

Notícia sobre manifestações levou 14 golpes, crítica à pastoral dos bispos 11 e comentário económico 9.

"O conhecido semanário 'Time Magazine' fez deslocar a Portugal um dos seus redactores para entrevistar" as 'Três Marias' - Teresa Horta, Isabel Barreno e Velho da Costa. As escritoras "respondem actualmente em tribunal, segundo o respectivo despacho de pronúncia, por 'terem escrito em colaboração mediante prévia combinação, um livro ao qual deram o nome de 'Novas Cartas Portuguesas', posteriormente considerado de 'conteúdo insanavelmente pornográfico e atentatório da moral pública'". O corte foi radical.

A Revista abria com um comentário de Luís Moita à recente carta pastoral dos bispos sobre a participação política. O texto do ex-sacerdote, que fora detido na vigília da capela do Rato, levou onze cortes. "Com um atraso de dez anos, a Pacem in Terris é dita em português". "Paradoxalmente, um documento que se apresenta como comemorativo da Pacem in Terris deixa no vazio o tema da paz. Talvez a explicação para essa lacuna seja o facto de o episcopado estar em vias de preparar uma qualquer declaração expressa sobre o assunto. Pelo menos, isso mesmo é insinuado pelo bispo do Porto" em entrevista ao 'República', cuja citação não foi permitida...

No seu habitual comentário económico, o colaborador que assinava Coetus sofreu nove golpes. "Sobretudo devido à emigração, são inúmeras as casas fechadas em muitas das nossas aldeias de província". Nesta espécie de concurso para ver quem cortava mais, o artigo de Henrique Barrilaro Ruas levou cinco aparadelas. O militante monárquico criticava irmãmente dois tipos de "totalitarismo": o "oliveirino" e o "afonsino" - alusões a Oliveira Salazar e Afonso Costa. Mas quem ganhou o 'troféu' do texto mais retalhado foi a notícia "22 manifestantes vão responder em juízo". Levou 14 cortes. Ficamos pelo primeiro, para não enfastiar: "Os autos de transgressão que estão na base destes processos foram elaborados pela PSP, entidade que procedeu às detenções para identificação e imposição de multas".

A manchete de 7 de Julho de 1973 dizia: "Ala Liberal provoca encontro em Lisboa". O único corte acabou por ser autorizado. Ao lado, na coluna 24 Horas, relevo para as manifestações de bancários, no Porto, em defesa do contrato colectivo. Não saiu um parágrafo: "Ao longo da tarde de ontem, o aparato policial na zona central da capital nortenha era considerável pois previam-se outras manifestações de rua no final do dia".

De Itália, não foi autorizada a menção de que a maior central sindical, a CGIL, era "de inspiração comunista". E ventos de Espanha traziam novas sobre a polémica em torno da revisão da concordata com a Santa Sé. Saltou a frase que garantia que era "muito semelhante à portuguesa, nos pontos mais em discussão".

A secção Gente levou quatro golpes. Dois deles tornavam irreconhecível a simples transcrição de uma nota do dia do 'Diário do Alentejo' - "com que concordamos integralmente" -, razão pela qual ficou na gaveta. O mesmo aconteceu a uma notícia sobre a censura em Lourenço Marques (actual Maputo). "A revista 'Tempo' desta cidade (...) foi multada pela comissão de censura de Moçambique em 50 contos, por ter transcrito excertos do discurso do general António Spínola, proferido perante o IV Congresso do Povo da Guiné. A notícia em causa intitulava-se 'Casas em vez de bombas'. (...) A última multa sofrida por este órgão de informação foi de 20 contos e puniu a publicação de um "poster" russo, de 1920, da autoria de S. Ivanov e relativo ao 1º de Maio".

A solução repetiu-se com as breves sobre Domingos Arouca e o P. Mário de Oliveira. Arouca fora "o primeiro negro de Moçambique a formar-se em Direito"; ligado à Frelimo, passou ao regime de liberdade condicional, após oito anos de prisão na metrópole. Quanto ao pároco de Macieira da Lixa, guardado em Caxias, "não deve ser julgado antes das férias judiciais". Chocante, a notícia sobre um despejo em Cascais tinha uma abertura deliciosa - mas os leitores não a leram. "As oito praças da GNR, comandadas por um cabo, cumpriam ordens; os elementos da Polícia Municipal de Cascais também cumpriam ordens; os trabalhadores munidos de picaretas ainda, e também, cumpriam ordens. As ordens provinham da presidência da Câmara Municipal de Cascais. E como as ordens são dadas para se cumprirem", etc. O resto já se sabe...

MENTIU

Na Semana Internacional um dos títulos dizia:"Van Thieu mentiu a Paulo VI". Mentir é feio, pensaram na rua das Gáveas; ao Papa, é pecado; e vindo do Presidente do Vietname do Sul, valoroso guerreiro anticomunista, não é possível. Ficou só "Van Thieu".

Orgulhosamente só

Na capa, relatavam-se as reservas do Senado dos EUA ao acordo das Lajes. A propósito, falava-se do "ambiente de descrédito em que mergulhou a presidência dos EUA com o caso Watergate". Descrédito? Palavra esquiva, pensou o censor, que não hesitou.

EMOÇÃO

Em vésperas de um jantar comemorativo da Aliança Luso-Britânica, em Londres, a secção Gente brincava:"A sociedade lisboeta agita-se de emoção".Desconfiado, o censor riscou esse substantivo.