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Expresso

O que a censura cortou

Apelos ao recenseamento eleitoral

Sempre que se falava em eleições, fossem em França ou no longínquo Chile, os censores afiavam o lápis.

Este era o penúltimo número do Expresso, antes de expirar o prazo para os cidadãos se recensearem para as eleições de Outubro. O assunto foi tratado de vários ângulos. Na capa, uma sondagem revelava: "Das eleições de 1969 a 1972: o recenseamento aumentou apenas 4%". Apesar das dúvidas iniciais levantadas pelo Exame Prévio, o texto lá saiu, sem mácula. A mesma sorte não teve uma detalhada análise sobre o recenseamento, que levou nove facadas. Sem o dizer, o texto responsabilizava as autoridades: "O problema está em saber se poderia ou não ter sido feito melhor trabalho e se existe ou não vontade para fazer". Denunciava "a impossibilidade de recenseamento por via dos agrupamentos políticos, que é a forma normal noutros países". A última frase era assassina - e, por isso mesmo, também não passou: "Sem recenseamento não há participação política. Nem sequer abstenção".

Ainda na área da análise se situava o texto sobre as diferenças entre a ANP de 1973 e a União Nacional de 1969. Sumiu a passagem: "A segunda era (ou pretendia ser) uma associação cívica plural, aglutinadora das correntes políticas que aceitassem o repúdio da via revolucionária e a via evolutiva na solução do problema ultramarino. Foi, aliás, este facto que conduziu à composição das listas apresentadas pela União Nacional às eleições legislativas". Como se sabe, os deputados liberais, que integraram as listas em 1969, não encontraram espaço quatro anos depois.

Em edições anteriores, haviam sido chumbadas inúmeras notícias sobre a campanha da oposição, apelando à inscrição nos cadernos. Voltou a suceder o mesmo com a local "O recenseamento em Coimbra". Era um um comunicado da Comissão Democrática Pró-Recenseamento do Distrito de Coimbra, que, por notificação da PSP, foi "intimada a cessar as actividades que se propunha levar a cabo. Aliás, o mesmo aconteceu com" idêntica comissão da Marinha Grande.

Sempre que se falava em eleições, os censores ficavam em alerta. Mesmo que fossem na democrática na França ou até no longínquo Chile. Aqui, anunciava-se a vitória de Allende, suportado por uma vasta aliança de esquerda. "Aliando o maior número de votos populares dos socialistas à superior disciplina interna dos comunistas, a Unidade Popular tem surgido como um bloco, em face dos ataques das direitas". Sempre atento a França, o jornal dedicou quatro textos à ida às urnas. Nenhum ficou virgem. Numa entrevista com Michel Rocard, o líder do PSU - e futuro primeiro-ministro - não chegou aos leitores a frase que justificava o título: "Queremos que os trabalhadores, no seu conjunto, devem decidir não só o 'como produzir', mas também do 'que produzir'". E numa reportagem, à expressão "os trabalhadores explorados", foi expurgado o adjectivo.

De França, veio finalmente o filme 'Zero em Comportamento', uma das obras mais conhecidas do realizador Jean Vigo. Suprimida uma frase que era, por si só, uma denúncia: "O valor do cineasta que é preciso conhecer (e a oportunidade surgiu, 40 anos depois)". Na mesma secção, também não foi poupada uma crítica ao concerto da banda Procol Harum em Cascais.

No Tribunal Plenário, iniciou-se o julgamento de seis jovens. O número, porém, foi riscado do título. A notícia sofreu mais três retalhos. Jorge Sampaio era um dos advogados de defesa. Os réus eram acusados de pertencer, dois ao MRPP e quatro aos Comités Comunistas Revolucionários (Marxistas-Leninistas). Destes últimos, destaque para um estudante de engenharia, de 21 anos, de nome Joaquim Manuel Prudêncio Vieira. Anos mais tarde, viria a ser director-adjunto do Expresso.

O habitual conto era de Luandino Vieira e chamava-se 'Para lá em Tetembuatabia'. Levou cinco pequenos cortes. Só? - estranhará o leitor, sabedor do perfil político do romancista angolano, autor do proibidíssimo 'Luuanda' e ele próprio acabado de sair do campo de concentração do Tarrafal. No inevitável jogo do rato e do gato, entre jornais e censores, as provas tipográficas foram enviadas sem qualquer assinatura. Só no sábado os zelosos leitores perceberam que tinham sido fintados...

Alain Krivine

O enviado especial às eleições francesas multiplicou-se em entrevistas. Uma delas foi com Alain Krivine, que foi cortada integralmente. Percebe-se - ou Krivine não fosse o jovem mas fogoso líder da Liga Comunista, a secção francesa da IV Internacional, de inspiração trotsquista... Em edições anteriores, David Carvalho escrevera longos artigos sobre sindicalismo. Textos de divulgação, até com algum carácter didáctico, e que, pese embora o seu cunho sindicalista, nunca despertaram a atenção dos homens da Travessa das Gáveas. Para esta edição, Carvalho preparou um trabalho a que chamou 'História sindical. Formação dos militantes'. Não foi autorizada nem uma linha.

Bardamerda

"Bardamerda! - gritou o Neco". A frase vinha no original do conto de Luandino Vieira. Ficou apenas "Gritou o Neco". Para ordinarices, já chega a caserna...