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Expresso

O Cantinho do Smith

Balões são armadilhas de morte

A popularidade do que, até recentemente, não passava de um inocente brinquedo de criança, começa a ter consequências sérias no bem-estar de um número crescente de animais.

Élio Vicente, biólogo marinho / director de Ciência e Educação do Zoomarine

Lembram-se da primeira vez que brincaram com um balão? Eu não... Mas como sempre foi um dos meus brinquedos favoritos, estou convicto que me fascinou desde o primeiro momento...

Para mim, os balões sempre foram objectos mágicos que, com diferentes cores e feitios, desafiando as leis da física e a minha imaginação, divertem qualquer um. No entanto, nos últimos anos tenho desenvolvido um pequeno ódio a esses pequenos flutuantes mundos (que ora encerram hélio ora vulgar ar)...

A razão é simples: a popularidade do que, até recentemente, não passava de um inocente brinquedo de criança, começa a ter consequências sérias no bem-estar de um número crescente de animais (estima-se que dezenas de milhar, anualmente) e é uma fonte extra (e frívola) de poluição.

Sim!, isso mesmo - a alegria de crianças e adultos começa a significar o sofrimento e a morte de aves, peixes, tartarugas, golfinhos, focas e muitos outros seres vivos que têm o azar de ingerir, asfixiar ou ficar preso num balão usado.

O caso começa a ser ainda mais grave pois já se institucionalizou em Portugal uma nova "moda" (ler "ameaça"): as largadas de balões com Hélio, para que possam subir, subir, subir... Eles são festas de aniversários, arraiais populares, festas empresariais, casamentos e até tentativas de recordes internacionais (lembram-se, muito recentemente, de se ter tentado bater, em Coimbra, o recorde Ibérico de lançamento de balões? Supostamente, seriam 200'000 numa só tarde - DUZENTOS MIL!!!!).

Espantosamente, até nas escolas as crianças já vão sendo incentivadas a lançar "mensagens de esperança" (humanitárias, culturais ou, ironicamente, ambientais), sem os seus educadores se preocuparem nas implicações de tais actos.

Mas qual é, afinal, o problema?O problema é que o que sobe também desce! E depois de uma muito rápida euforia (de dois, cinco, dez minutos, no máximo?!) ninguém se lembra mais do balão (ou dos 10, 250, 5'000 ou 200'000 que foram largados)... A Natureza tem, porém, de lidar com eles - e não será apenas por minutos. Por vezes, será durante meses ou anos.

E para onde vão os balões? O que lhes acontece? Simples: os balões rebentam e caem! Caem e ficam presos nas árvores. Caem e aterram em rios, lagos e lagoas! Caem e invadem pastos e zonas de reprodução. Em suma, caem e tornam-se lixo. Lixo não biodegradável... E são, todos os anos, milhares! Um fenómeno crescente nos países ditos "desenvolvidos".

Tudo para uns efémeros e banais momentos de "beleza visual"... Mas haverá MESMO necessidade destas largadas? Eu defendo que não vale a pena prejudicar (directa ou indirectamente, por desconforto, doença ou mesmo morte) milhares de animais por umas fugazes acções sociais sem qualquer benefício (a não ser, quiçá, o reforço do egoísmo humano...).

Por isso mesmo, fica o apelo de um Élio: não usem Hélio! Brinquem com balões, mas não os deixem subir. Encantem as crianças, mas não lhes ensinem a poluir. Alegrem uma festa, mas não danifiquem o ambiente envolvente. Brinquem com balões, mas não os transformem em instrumentos do mal. Porque o que sobe, também desce - e pode matar!