Siga-nos

Perfil

Expresso

O Cantinho do Smith

70% dos donos de cães desconhece doença fatal

A Leishmaniose Canina pode ser transmitida ao homem e é potencialmente fatal. A sua prevenção, monitorização e controlo são fundamentais.

Rodolfo Neves, médico veterinário co-autor do estudo sobre Leishmaniose Canina em Portugal

A Leishmaniose Canina é uma doença infecciosa grave dos cães, causada pelo protozoário Leishmania sp. e é transmitida ao cão pela picada de um flebótomo, um insecto, vulgarmente conhecido como mosquito. Esta doença, de percurso crónico não tem cura definitiva e é fatal. Tratando-se de uma zoonose - ou seja, pode ser transmitida ao Homem, e também neste caso potencialmente fatal - a sua prevenção, monitorização e controlo são importantíssimos, constituindo uma questão de Saúde Pública.

De uma forma geral, considera-se que praticamente todo o território continental é endémico, ou seja, que a doença é frequente, sendo as regiões mais problemáticas os Distritos de Lisboa e Setúbal, a região de Trás-os-Montes e Alto Douro, algumas áreas das Beiras, do Ribatejo e Alentejo, e todo o Algarve. Diversos estudos levados a cabo nos últimos anos revelam que a Leishmaniose Canina está a aumentar em Portugal Continental, tendo duplicado em algumas zonas do território num período de apenas 10 anos. Projecções realizadas permitem concluir que a tendência de aumento da doença manter-se-á.

Para evitar o crescimento da doença, torna-se necessária a prevenção. Esta só será feita se os proprietários dos cães estiverem alertados e informados. O desconhecimento é considerado um factor de risco que deve ser controlado. Para avaliar o nível de conhecimento dos donos de cães acerca desta doença e tentar perceber se existem diferenças significativas entre regiões e se estas diferenças poderão implicar o estabelecimento de prioridades na realização de acções de informação, foi realizado um estudo onde foram inquiridas cerca de 1500 pessoas em todo Portugal Continental.

Intitulado "Leishmaniose Canina em Portugal Continental - o que sabem os proprietários dos cães acerca desta zoonose parasitária", o estudo revelou que até 70% dos donos de cães nunca ouviram falar da doença; até 75% não sabe como preveni-la; até 85% não sabe que sinais causa; até 90% não sabe que pode ser transmissível ao homem e até 95% não tem conhecimentos suficientes sobre a doença. Percebeu-se que o nível de conhecimento é maior nas regiões mais afectadas e/ou urbanas, relativamente às regiões menos afectadas e/ou rurais.

Os autores concluem que as várias entidades nacionais e a classe médico-veterinária deveriam fomentar o desenvolvimento de acções de esclarecimento e informação para as populações. Neste âmbito, e tendo em conta que é importante começar desde cedo a informar e esclarecer os indivíduos, sessões de esclarecimento sobre a Leishmaniose canina e outras doenças, destinadas a crianças, são iniciativas muito válidas e que devem ser multiplicadas. As crianças são excelentes veículos de informação e ajudam a sensibilizar os pais para a necessidade de proteger o cão dos principais parasitas externos.

Reciprocamente, os pais devem ensinar os seus filhos a ter cuidados de higiene sempre que brincam com um cão. Nomeadamente, lavar as mãos após brincarem com os cães, ensinarem-nos a reconhecer os ectoparasitas mais comuns de forma a evitarem brincar com cães infestados.

Populações melhor informadas tenderão a prevenir as doenças nos seus cães. No caso da Leishmaniose, é fundamental evitar o contacto com o agente transmissor, através da aplicação de insecticidas com efeito repelente - spot on (gotas de aplicação cutânea) ou coleiras impregnadas com Deltametrina, sendo estas últimas recomendadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Como o insecto transmissor mantém-se activo entre Abril e Novembro, é aconselhável manter os cães protegidos, pelo menos, durante este período. Outro procedimento que se recomenda é a realização periódica, anual, do rastreio da Leishmaniose ao seu cão e evitar passeá-lo entre o entardecer e o amanhecer.